Ode a um amigo eterno

Auditório dos Correios cheio, mil lugares sentados e todos ocupados à espera do palestrante internacionalmente conhecido. Um murmúrio reverenciado, cochichos aqui e ali, o atraso nada comum em eventos desse tipo.

Nos bastidores, o “staff” tenta convencer o jovem palestrante a entrar e dar o seu recado. Para isso, ele recebe em euros, a moeda preferida das grandes celebridades. Ele balança a cabeça negativamente, como se houvesse mudado de idéia, não querendo mais participar daquilo que chama de “farsa”.

Entra no camarim, Seu Raimundo Leonardo, o todo-poderoso da seita na qual o palestrante é o mais carismático e o que consegue angariar mais fundos. Seu Raimundo ordena que o palestrante saia debaixo da mesa, onde esteve dormindo, usando seu moletom vinho amarrotado. O palestrante sai, veste o blaser, penteia seus cabelos semi-longos e se dirige à platéia.

Uma salva de palmas, assobios, gritos e urros, como em pleno maracanã, explode na platéia quando o palestrante entra. Ele pede silêncio com as mãos, obrigado, obrigado, balança a cabeça afirmativamente e sorri o seu sorriso perfeito e inesquecível. A platéia começa a fazer silêncio, algumas garotas mais exaltadas, gritam Lindo! Ele sorri encabulado.

Quando o silêncio é feito, ele pega o microfone e diz bem alto: “Em primeiro lugar, gostaria de dizer que MEU NOME NÃO É ZÉZA!!!”

A platéia delira.

Ele continua, “Meu nome é Pesa-o-Marco, sou palestrante da seita Sopa de Letrinhas e não tenho nada a ver com essas mulheres que dizem fazer parte de meu grupo. Bândida Colé, Maria Vira-o-Mato e Sônica Meiga não são minhas amigas! Pinguelli Boya-Nessa é o cáften dessas usurpadoras!

Não vou mais compactuar com os escândalos que assolam esse país! sou um palestrante importante, amigo de Danielle, Winston, Elvis, casado com Rachel Welch, pai de João Francisco Guimarães Rosa e Joaquim Pedro Blanc! Sou um homem sério! Mandela janta em minha casa todos os sábados, terminei minha amizade com Bill porque ele não soube preservar a instituição do matrimônio, e enquanto Rabinho e Ararate não fizerem as pazes, não voltarei em seu sítio, meu nome não é Zéza!”

A platéia rola pelo chão, possuída pelas declarações de seu líder. As notas de euros começam a encher os cofrinhos em formato de tênis que circulam nas mãos das “pesetes”, todas vestidas pela grife “Mandão de Quatro”. Seu Raimundo entra no palco nesse momento e puxa o palestrante que não é Zéza pelo braço, sua intervenção acabou.

O palestrante que não é Zéza volta para o camarim, veste novamente o moletom vinho e volta a dormir embaixo da mesa até a próxima palestra que poderá ser no Rio, em São Paulo, Bali, ou Kinshasa.
Até a próxima!

MPV – dezembro 2007

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