Chororô

 Pois é… Sou uma senhora de 9 anos e ganhei cama nova, com uma estampa que minha master chamou de horrorosa, mas eu não sei bem o que quer dizer essa palavra, não consta do meu vocabulário canino. Estou bem satisfeita com a novidade, pois além de inteira (eu mastiguei muito a minha cama velha), essa é bem mais fofa. O resultado é que ando bem aconchegada nesse tempo que os cariocas humanos chamam de inverno glacial. Para quem morou na Serra, como eu, nem faz cócegas. É claro que eu tenho meus cobertores de furinhos, por onde enxergo o mundo ao meu redor quando estou enrolada, mas roupa, nem pensar. Primeiro, porque sou uma cadelinha (apesar de meu tio me chamar de outros nomes esquisitos que fazem mamy se zangar), segundo porque cresci no campo, correndo atrás de gatos e sapos e roendo pinhas, não tenho paciência para essas frescurinhas de madame. E por último por escassez, só tenho duas roupas: uma da seleção do Brasil, um ataque ufanista de minha dona na última copa (como se eu ligasse para isso) e uma estampada que me limita os movimentos. Gosto mesmo é de andar mostrando o meu pelo, que já foi lindo antes de começar a ficar grisalho.

Tenho amigos na vizinhança, como já contei: Thor (que não tenho visto), Nick, Mingau e Apolo. Eu faço uma certa festa quando os encontro, mas me canso logo. Aí tenho que ficar esperando master bater papo com os outros humanos e faço logo aquela cara de enfado, acho que faço até aquele ar   b l a s é   que uma amiga de mamy falou que detesta em gente. Isso é porque poucos sabem fazê-lo bem como eu.

Quando minha dona tem tempo, passeamos pelo lado de lá, eu sentindo o sol no pelo, cheirando a maresia, andando em marcha forte e dormindo um soninho muito bom após tanta andança. No entanto, quando mamy fica dodói, como neste último finde, também fico como e com ela. Fico encolhidinha ao seu lado, minha cabeça em sua mão estendida, não faço barulho para não perturbar. Também não gosto quando ela chora, acho estranho e não sei bem o que fazer porque não entendo seus motivos. Não faço nada, mas não saio do seu lado, fico só olhando até que ela para e volta a respirar normalmente. Aí coloco minha cabeça na sua perna, mas às vezes isso só piora, porque ela volta a chorar novamente. É estranho, porque funga muito e eu acabo molhada e não gosto de chuva. E lágrima humana é como se fosse pingo de chuva em cima de mim, tão baixinha.

Bom, nesses tempos de chororô eu tento ser uma boa cachorrinha e sou como uma sombra para minha dona: aonde ela vai, eu vou atrás. Tento não perdê-la de vista para que ela saiba que estou sempre por perto. Como o meu colo é pequenininho, fico pronta para colocar minha cabeça em sua mão. E muitas vezes nós duas acabamos adormecendo juntas, ela com a mão em mim, eu com o aconchego de sua mão.

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