365

“Foi naquele domingo que desistimos de um modo irremediável. Não aconteceu nada demais, não houve uma discussão, ninguém fez uma merda imperdoável. Foi só que… nós simplesmente perdemos o interesse. É claro, até certo ponto, levamos isso do modo mais gentil possível. Deve ser só uma fase, eu pensava. Mas naquele domingo largamos mão desse esforço. Eu posso ao menos carregar esse orgulho de quem tentou. Foi você quem desmarcou em cima da hora como quem já nem contava mais com esse compromisso. E, de fato, cada vez mais fazíamos planos sem qualquer pretensão de torná-los reais, era apenas um modo de afirmar uma tentativa. Vamos marcar, vamos mesmo. Nossa vontade não ia além do discurso, a preguiça era recíproca e sintomática. Ainda assim, naquele domingo acreditei que seria possível. Ai, eu tô muito enrolada com o mestrado e sair de casa com essa chuvinha… Três horas depois respondi Beleza, a gente marca outro dia. Alguns minutos depois vi a foto. Sua cara com um sorriso idiota apoiada em um joelho peludo com aquela legenda preguicinha de domingo (emoji de coração). Tive nojo do quanto poderia te odiar.”

Marcou a lápis o trecho que acabara de ler, abriu o caderno e escreveu bem no início da página: 356. Abaixo, anotou o título do livro, autora, editora e ano de publicação. Em seguida, com letra machucada, transcreveu o fragmento marcado no livro. Colocou o livro ao lado da pasta e permaneceu sentado por muito tempo, olhando para o caderno aberto em cima da mesa, pensando em quem gostaria de ler aquela história. Decidiu que aquele livro seria deixado no banco da praça que ficava em frente ao seu edifício, a praça que tinha crianças e cães pela manhã, gente triste como ele à tarde, e jovens cheios de hormônios e pressa à noite.

Contou nos dedos: faltavam nove dias para seu ano acabar. O ano da decisão, o ano em que ele fizera a mesma rotina todos os dias, anotando passagens de livros que formavam uma nova história quando lidos em sequência. “Tive nojo do quanto poderia te odiar” foi a frase que o fez escolher esse livro e seu trecho. Ele intuía que algumas pessoas passariam a odiá-lo em nove dias, o que o fazia sentir um arrepio de prazer. Era uma decisão consciente e um gozo.

A página um do caderno era Álvaro de Campos: “Na véspera de não partir nunca/ Ao menos não há que arrumar malas/ Nem que fazer planos em papel,/ Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,/ Para o partir ainda livre do dia seguinte”. Vários autores contribuíram para que ele montasse seu texto final, tentou não repetir nenhum e em todos os trechos havia os sentimentos raiva, tristeza, amor e de perda. Assim construíra sua história.

Na manhã 365, anotou o poema de Thiago de Mello “antes que venham ventos e te levem /do peito o amor — este tão belo amor,/ que deu grandeza e graça à tua vida —,/ faze dele, agora, enquanto é tempo,/ uma cidade eterna — e nela habita”, e pôs o ponto final em sua história recortada e ferida. Em seguida, pegou o livro, abriu a porta, desceu as escadas e, lentamente, caminhou até a estação de metrô. Escolheu um canto discreto e deitou o livro cuidadosamente, para que alguém pudesse encontrá-lo e tivesse a vontade de levá-lo consigo. O celular vibrou em seu bolso, ele viu quem era e desligou sem atender. Nos últimos dias já não falava com ninguém, para muitos dissera que estaria viajando. Voltou ao apartamento, fechou as janelas, deixou a porta destrancada, tomou os comprimidos e dormiu.

 

*Parágrafo inicial Taís Bravo

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