Rio, 40 Graus

Cópia restaurada de Rio 40 Graus, do cineasta Nelson Pereira do Santos, marco do cinema nacional, em breve em DVDs, perfeita descrição de uma sociedade cuja essência permanece a mesma 53 anos após retratada no filme, cotidiano atual agravado pelos problemas crescentes e violência sem limites. Como se mantêm as mazelas retratadas na trama envolvente, com diálogos ágeis. Primeira vez em que assisti à película na tela grande, no escurinho do cinema, com orgulho pela obra-prima, certo amargor por não ver luz no fim do túnel para a nossa cidade cada vez mais carente e mais difícil de administrar.

Quem nunca viu, veja. É ordem, daquelas coisas que não se pode deixar de fazer na vida. Quem já viu, repita a dose. Não cansa nunca e tem sempre algo mais a descobrir.

Foto: Cartaz do filme

Premonição

Terás muitos outros, antes e depois, mas ele é quem terás amado por mais tempo, mais profundamente, porém, na superfície de seus olhos. Ele terá entendido tua alma mais e menos que todos, terá estendido as mãos todas as vezes que necessitares, mas, aí, dormirá a ruína de ambos. Ele será o teu compromisso e tua ausência, teu passado, teu desejo e a falta dele, tua senha, teu amigo, teu amante, teu distante. Ele te dará uma família que não é tua, mas que adotastes, e tudo farás para mantê-la. Todos os momentos em que te sentires perdida, lembrarás de sua firmeza, lamentarás sua fraqueza, lembrarás de seu abraço, lamentarás não tê-lo sempre. Sorrirás, porque sabes que, onde quer que estejas, ele existe, ele foi, ele será. Para sempre.

Ida e Volta

Na ida, mormaço na praça da Paz, um casal muito, muito, muito velhinho, sentado no banco de jardim, os dois de cabelos totalmente brancos, mãos dadas no colo dela, conversavam baixinho segredos de vida inteira. Podiam ser casados, amigos, amantes, ou tudo ao mesmo tempo.

Na volta, chuva forte na praça da Paz, o banco vazio e molhado, ninguém à vista, nem mãos dadas, ou abrigadas, aninhadas onde quer que estivessem. Para onde foram os dois?

Feriado no Rio

Feriado no Rio, sol, céu, mar. Ruas cheias, estradas cheias, mercados cheios. Quem saiu ainda não voltou, quem chegou está por aqui, quem ficou descansou depois da praia.

Ontem, feriado no Rio, sol, céu, mar, fiquei com a velha frase de Hermann Hesse ecoando em meus ouvidos “…Podemos compreender uns aos outros. Mas só cada um de nós sabe o sentido de si mesmo.”

Hoje, continuação do feriado no Rio, sol, céu, mar, eu reescreveria a frase da seguinte forma: “Não conseguimos compreeender uns aos outros se não sabemos o sentido de nós mesmos.”

Então, feriado no Rio, sol, céu, mar, a ordem é encontrar o sentido de si mesmo, tentar compreender uns aos outros e dar um mergulho, por que ninguém é de ferro…

Após a tempestade

Após a tempestade vem… o dia de sol rachando, mar revolto e língua negra na areia, areia espalhada por todas as pistas, bueiros vomitando excessos da tarde anterior, carros enguiçados pelas calçadas, gente gripada e gente animada, fotos alagadas nos jornais pontuais.

Após a tempestade vem o hoje, vem hoje, vem o dia lindo de hoje, como se ontem não houvesse.