Naquela mesa

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim

Praia do Caju – Ferreira Gullar

Escuta:

o que passou passou

e não há força

capaz de mudar isto.

Nesta tarde de férias, disponível, podes,

se quiseres, relembrar.

Mas nada acenderá de novo

o lume

que na carne das horas se perdeu.

Ah, se perdeu!

Nas águas da piscina se perdeu

sob as folhas da tarde

nas vozes conversando na varanda

no riso de Marília no vermelho

guarda-sol esquecido na calçada.

O que passou passou e, muito embora,

volta às velhas ruas à procura.

Aqui estão as casas, a amarela,

a branca, a de azulejo, e o sol

que nelas bate é o mesmo

sol

que o Universo não mudou nestes vinte anos.

Caminhas no passado e no presente.

Aquela porta, o batente de pedra,

o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já

se lembras, se descobres.

E com surpresa vês o poste, o muro,

a esquina, o gato na janela,

em soluços quase te perguntas

onde está o menino

igual àquele que cruza a rua agora,

franzino assim, moreno assim.

Se tudo continua, a porta

a calçada a platibanda,

onde está o menino que também

aqui esteve? aqui nesta calçada

se sentou?

E chegas à amurada. O sol é quente

como era, a esta hora. Lá embaixo

a lama fede igual, a poça de água negra

a mesma água o mesmo

urubu pousado ao lado a mesma

lata velha que enferruja.

Entre dois braços d’água

esplende a croa do Anil. E na intensa

claridade, como sombra,

surge o menino

correndo sobre a areia. É ele, sim,

gritas teu nome: “Zeca,

Zeca!”

Mas a distância é vasta

tão vasta que nenhuma voz alcança.

O que passou passou.

Jamais acenderás de novo

o lume

do tempo que apagou.

O XV de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho

Para matar-me, e novas esquivanças;

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Pois não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde;

Vem não sei como; e dói não sei porquê.

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta

“A senhora é tão moça, tão aquém de todo começar que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma muito estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez, depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar – como uma maneira de ser particularmente feliz e pura. Eduque-se para isto, mas aceite o que vier com toda a confiança. Se vier só da sua vontade, de qualquer necessidade de seu ser íntimo, aceite-o e não o odeie.”

Dante Milano, tercetos

Eu sou um rio, a água fria de um rio.

profundo, cabe em mim todo o vazio,

Um reflexo me causa um calafrio.

Sou uma pedra de cara escalavrada,

Uma testa que pensa, e sonda o nada,

Uma face que sonha, ensimesmada.

Sou como o vento, rápido e violento,

Choro, mas não se entende o meu lamento.

Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

Sou a estrela que à noite se revela,

O farol que vê longe, o olhar que vela,

O coração aceso, a triste vela.

Sou um homem culpado de ser homem,

Corpo ardendo em desejos que o consomem,

Alma feita de sonhos que se somem.

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta

Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:

Significação grande, mas secreta.

Manuel Bandeira, Rio de Janeiro

Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo.

Louvado Deus, louvo o santo

De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro

– Bravo São Sebastião –

Que num dia de janeiro

Lhe deu santa defensão.

Louvo a Cidade nascida

No morro Cara de Cão.

Logo depois transferida

Para o Castelo, e de então

Descendo as faldas do outeiro,

Avultando em arredores,

Subindo a morros maiores

– Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora

De quatrocentos janeiros…

Ó Rio de meus primeiros

Sonhos! (A última hora

De minha vida oxalá

Venha sob teus céus serenos,

Porque assim sentirei menos

O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,

Se não és mais capital

Desta nação, não faz mal:

Jamais capital nenhuma,

Rio, empanará teu brilho,

Igualará teu encanto.

Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo.