Qualquer dia desses

Já era meio-dia e ele não conseguia se concentrar no trabalho, tinha uma carta de despedida para escrever. Após tantos anos juntos, não tinha mais coragem para tentar uma conversa com Juju: ele começaria o assunto, ela abriria um pranto, ele ficaria comovido e a vida continuaria sem cor. Desta vez, não teria como voltar, … Continue lendo Qualquer dia desses

Devair

Chegou em casa exausto, mais uma semana terminava e ele só queria se sentar em frente à TV, com uma cerveja, e se distrair um pouco. Ligou o aparelho e a imagem apareceu toda chuviscada, sem definição e com um som chiado. Suspirou. Levantou-se e foi mexer no decodificador da TV. Ligou e desligou, mudou … Continue lendo Devair

Dias difíceis

Alfredo apertou o botão do elevador e suspirou enquanto aguardava. Já era noite quando entrou em casa, segundo andar. Carregava ainda a bolsa retornável com compras de comida, que colocou em cima da mesa da cozinha pequena e mal iluminada. O único barulho que ouvia era o som dos passos do vizinho de cima, como … Continue lendo Dias difíceis

O frio por dentro

Subo os degraus devagar, carregada de sacolas do supermercado em que estive e onde me dei conta do fim. Não haverá vida, não haverá nada em seguida, não haverá amanhã. Entro, largo tudo na porta, tiro a roupa pesada de dor, escorrego pela parede da sala e choro. Faz frio. Frio. Sinto muito frio, encolhida … Continue lendo O frio por dentro

Seu Zé

Todos os dias, antes mesmo do sol raiar, seu Zé estava vestido e pronto para sentar no banquinho, na calçada em frente ao prédio, com o café quente na mão. Bebia devagar, olhava em volta, cumprimentava os passantes, uns mais apressados, outros nem tanto, enquanto esperava Marieta. O ponto de ônibus era, no máximo, a … Continue lendo Seu Zé

Ato Contínuo

O sinal abriu e o trânsito intenso não permitia a passagem. Joelson ligou a sirene da ambulância vazia, que gritou sua urgência na multidão. Os carros começaram a dar passagem e ele avançou compenetrado. Sempre fazia isso, porque não tinha nenhuma paciência para esperar. A sirene da ambulância era como um salvo-conduto que lhe dava … Continue lendo Ato Contínuo

Alice

Ela tinha seus demônios particulares. Não eram daquela maneira que vemos em filmes, um anjinho e um demoninho em cima dos ombrinhos das pessoinhas. Eram dois, grandes, do tamanho dela, que andavam com ela o tempo todo. Alice era o que se costumava chamar “um amor de pessoa”. Educada, atenciosa, falava mansinho, cumpria seus deveres … Continue lendo Alice

Carta a Dorothy Parker

Tenho 27 anos e carrego The Portable DP comigo como se fosse um livro santo. Para todos os lugares que vou, você vai comigo e tento aprender como me expressar de maneira lírica e irônica ao mesmo tempo. Você foi alguém que eu gostaria de ter sido. Conhecido. Ou não. Sublinho seu-meu livro, marcando as … Continue lendo Carta a Dorothy Parker

Porta-retratos

A aposta em 1957 As amigas duvidaram: “ninguém consegue namorar o Pevê”. Bastou a provocação para a moça linda, pequena, de cabelos curtos e olhos muito sapecas, tomar a decisão de seduzi-lo. “Eu consigo”. Gargalhada geral e ela séria, muito séria. Voltavam da praia para a casa do dr. Paulo, onde todos costumavam se reunir … Continue lendo Porta-retratos