Dias difíceis

Alfredo apertou o botão do elevador e suspirou enquanto aguardava. Já era noite quando entrou em casa, segundo andar. Carregava ainda a bolsa retornável com compras de comida, que colocou em cima da mesa da cozinha pequena e mal iluminada. O único barulho que ouvia era o som dos passos do vizinho de cima, como se fosse marcha descombinada. Passos pesados, de um lado a outro todo o tempo. Ele reclamou do barulho com o síndico e com a administradora, mas obteve como resposta que o apartamento estava vazio há dois anos. “Inúteis”, pensou. Acabou desistindo, prédio pequeno, sem porteiro noturno, não podia provar. Comprou protetores auditivos, o que não o livrava de sentir a vibração dos passos.

Depois de comer, sentou-se no sofá com a TV desligada, olhando para o quadro pendurado torto na parede, um pôster de um famoso quadro de Rembrandt. Era impossível se concentrar na cena com o pulsar intermitente que vinha do teto. Após um banho, colocou os protetores nos ouvidos e puxou as cobertas para tentar dormir. Os passos continuavam o ritual e a noite avançava. “Amanhã será um dia difícil”, falou consigo. Os olhos pesavam, o passo marcado acelerou, e Alfredo se sentiu entorpecido pelo sonho recorrente.

É de manhã na avenida Paulo de Frontin, ele está no ônibus, e passa por uma loja de manequins, Alfredo Manequins de luxo. Salta no próximo ponto, caminha até o estabelecimento e entra. Na vitrine, destacam-se os bonecos perfeitos, um homem e uma mulher, com roupas bem cortadas, tão bem maquiados e penteados, que parecem vivos. Alfredo examina o ambiente ao redor e caminha até o balcão em madeira, que tem um teclado e um monitor que pisca, como a avisar que está ligado. Sente uma familiaridade imediata com o local, observa as prateleiras com cabeças e torsos, todos muito benfeitos, material de primeira categoria, realmente modelos de luxo.

Entra um homem na loja, que o cumprimenta amigavelmente, chamando-o pelo nome e perguntando sobre a encomenda feita. Alfredo vai ao estoque, pega um embrulho grande, entrega ao homem, que pede ajuda para colocar na caminhonete e avisa que, em breve, fará outra encomenda: “Vou querer mãe e filha!” e arranca, cantando os pneus.

No meio da tarde, Alfredo vai aos fundos da loja, pega as chaves de um furgão, abre a garagem ao lado da vitrine e dirige sem destino. Procura ruas secundárias, com pouco movimento e olha para todos os lados com atenção. Após algumas horas rodando, encontra os itens desejados. Dá muitas voltas até que estaciona, pega uma mochila, e se encaminha até uma casa de muro baixo, onde estão uma mulher e uma menina brincando. Alfredo se aproxima e faz perguntas de localização, como se estivesse perdido. A mulher começa a responder, abre o portãozinho, se inclina e ele é rápido, faz a mulher desmaiar com um lenço embebido em clorofórmio. Faz o mesmo com a criança, coloca as duas no carro e parte para seu endereço.

Na garagem do prédio em que mora, Alfredo descarrega as duas no elevador, sobe ao terceiro andar, entra no apartamento acima do seu. Duas mesas cirúrgicas estão no meio da sala e ele coloca as desmaiadas em cima de cada uma. Imediatamente, antes que acordem, injeta cloreto de potássio em suas veias. Um minuto depois, estão mortas e ele começa, então, pelos cabelos, que remove com cuidado para transformá-los em peruca. Em seguida, conduz um lento trabalho de plastinação, em que substituirá todos os fluidos corporais por polímeros.

Sua empreitada é meticulosa e demorada, anda de um lado para o outro, porque tem que levar os corpos das mesas para as cubas com acetona para o expediente de desidratar seus futuros manequins. Quando os corpos estão prontos, recheia suas células com polímeros, usa cabos e agulhas para colocar os manequins nas posições em que ficarão definitivamente, e bisturis e pinças para cortar e costurar os órgãos genitais. Molda suas faces no sorriso que deseja e arruma a posição dos braços e pernas.

Costura delicadamente e, arremate final, molda uma calcinha de um material maleável que impede que as partes íntimas apareçam como realmente são. Ele maquiará as duas assim que as peças estiverem secas e não precisar fazer nenhum retoque nos corpos. Limpa toda a sala, deixa mãe e filha sozinhas, sai do apartamento, entra no furgão e se dirige à garagem da loja Alfredo Manequins de luxo. Tranca a garagem e volta para casa de ônibus. Já está quase amanhecendo.

Tocou o despertador no apartamento do segundo andar, e Alfredo acordou cansado, como se tivesse trabalhado a noite toda. Os músculos dos ombros doíam e ele tomou um analgésico. Retirou os protetores de ouvido, prestou atenção se havia algum barulho, mas só ouviu um silêncio mortal vindo do terceiro andar.

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