Alice

Ela tinha seus demônios particulares. Não eram daquela maneira que vemos em filmes, um anjinho e um demoninho em cima dos ombrinhos das pessoinhas. Eram dois, grandes, do tamanho dela, que andavam com ela o tempo todo.

Alice era o que se costumava chamar “um amor de pessoa”. Educada, atenciosa, falava mansinho, cumpria seus deveres e era discreta. Os amigos adoravam-na e a família era unida. Bastava ela pisar no escritório, que os demos tomavam posse do ser maravilha. Era, no mínimo, grosseira. Na maior parte do tempo era cafajeste mesmo. As histórias são infindáveis.

Com uma equipe de oito pessoas, ela distribuía ordens sem orientação e cobrava aos gritos, quando os funcionários erravam. O texto? Rasgado e jogado pela janela. Acertou alguma coisa? Mérito dela. Atirava o que estivesse em sua mão quando o funcionário entrava sem bater.  Para os telefonemas, ela não estava na maioria das vezes. Mas sua equipe nunca sabia quem devia ser bloqueado na linha, quem podia seguir adiante.

Falava mal dos funcionários o tempo todo e para quem quisesse ouvir. Para quem não quisesse também. Tudo no perímetro da empresa. Nunca um obrigado, nunca um por favor. Certa vez, implicou com a hora que um membro da equipe chegou, chamou e demitiu na hora. Mandou embora aos gritos, não deixou entrar. Costumava usar sua sala para sexo com quem precisava de alguma coisa de seu departamento ou de algum fornecedor, homem, mulher, quem ela desejasse. Ganhava um dinheiro extra também, se não tivesse interesse sexual na pessoa.

O mais estranho de tudo: ela costumava comer a falangeta do polegar da mão direita. Ficava em carne viva. E era feio de olhar aquele polegar na boca, todo babado, o sangue escorrendo e ela continuando a roer.

Um dia, a equipe não aguentou mais as humilhações e foi conversar com a chefe da chefe. Ela foi mandada embora. Para a Austrália. Para pesquisar novos mercados para a empresa. Outras vítimas. Um amor de pessoa.

 

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Carta a Dorothy Parker

Tenho 27 anos e carrego The Portable DP comigo como se fosse um livro santo. Para todos os lugares que vou, você vai comigo e tento aprender como me expressar de maneira lírica e irônica ao mesmo tempo. Você foi alguém que eu gostaria de ter sido. Conhecido. Ou não. Sublinho seu-meu livro, marcando as frases que queria ter escrito. Dito. Ou não.

Mostro seu-meu livro para minha professora de literatura, que me responde que nunca a leu, não tem conhecimento de sua existência, não sabe quem foi você. Assim que ela se vira de costas, despejo todo o desprezo do meu olhar em sua nuca. Ela se volta  para mim com um sorriso amarelo e eu olho para seu-meu livro em minhas mãos.

Meu tempo com você é mágico, é iluminado, porém emprestado – como você escreve em suas histórias. Você me conduzirá e me emprestará um pouco da sua ousadia, fundamental para que eu viva minha vida daqui para frente, enquanto eu, atrevida, levarei seu-meu livro até o fim, até que suas páginas amarelas e secas comecem a rasgar. Ou não.

 

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Porta-retratos

A aposta em 1957

As amigas duvidaram: “ninguém consegue namorar o Pevê”. Bastou a provocação para a moça linda, pequena, de cabelos curtos e olhos muito sapecas, tomar a decisão de seduzi-lo. “Eu consigo”. Gargalhada geral e ela séria, muito séria. Voltavam da praia para a casa do dr. Paulo, onde todos costumavam se reunir e fazer festas, rapazes sentados na varanda, moças no banheiro se arrumando. Ela pegou um frasco de xampu, desceu as escadas com degraus de mármore, passou por todos os homens e entregou nas mãos do Pevê, pedindo com charme: “Abre para mim?”– Ele abriu.

 

A fúria em 1974

Entraram no restaurante, cheíssimo àquela hora e foram até o bar para esperar mesa. Ele pediu um uísque e, bem mais alto, ficou na frente dela para que ela não fosse empurrada pelos muitos frequentadores que passavam de um lado para o outro. Uma loira cheia de curvas e piscadas com cílios postiços chegou perto dele, pegou o copo que estava em sua mão e já estava pronta para dar o bote no uísque e no marido alheio, quando a pequenina e feroz esposa, de um salto, arrancou o copo da mão da inoportuna e advertiu-a: “O uísque tem dono e o homem também.” – Ele sorriu.

 

A viagem em 1995

O restaurante ficava do outro lado do rio, mais de uma hora de carro. Era um lugar simples, em que os clientes pediam no balcão, arrumavam suas próprias mesas, e quando o prato ficava pronto, o cozinheiro gritava o nome do freguês para buscar o pedido na mesma bancada em que se pegava a bebida. Era uma orgia gastronômica. Ela, com um chope na mão, apreciava a vista. Após muitos pratos, perdeu o marido. Não sabia onde ele estava. Encontrou-o sentado à mesa de um casal jovem, provando a comida deles. “Querida! Você tem que provar esses caracóis! Maravilha!” – Ele aplaudiu.

 

O encontro em 2008

Ano-novo na casa da irmã, família faltando membros, muita emoção na chegada, risos e música e champanhe, muito champanhe. Com mexilhões defumados, ostras e camarões. Lá pelas tantas, ele começou a se sentir mal. Meio enjoado, mistura do calor, da bebida, dos sentimentos, chorou no meio do discurso e as ondas de enjoo aumentaram. A esposa viu, pegou o primeiro vasilhame de inox que encontrou na cozinha e correu para a sala a tempo de aparar o efeito da mistura daquela comoção. Tudo o que estava no estômago foi parar na cumbuca onde eram servidos os pratos mais caprichados da família. “Só não… não… contem pra Renatinha onde vomitei…” – Ele pediu.

Ele pediu a mão. Ela sorriu pra foto. Ele trabalhou dois turnos. Ela pariu dois filhos. Não foi um conto de fadas, mas eles foram felizes para sempre.

 

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Estações

Caía uma chuva fina naquele dia cinzento e frio. Ele estacionara o carro em sua vaga, mas continuou sentado em seu interior, sem muita vontade de encarar o vento do lado de fora.

Suspirou fundo, esperou a música acabar, vestiu as luvas e saiu. Começou a subir as escadas que o levariam a seu apartamento, segurando o corrimão com a mão direita, enquanto carregava algumas sacolas de supermercado com a outra.

Abriu a porta da casa e foi até a cozinha deixar as compras. Era bom entrar no ambiente aquecido e deixar o gelo para trás. Tirou as luvas, jogou-as no aparador do corredor e começou a descascar as camadas de roupas. Entrou na sala, onde Ziggy levantou a cabeça, abanou o rabo sem vontade e sem sair da cama. Em outro tempo, ele esperaria na porta de casa, animado.

Pegou uma garrafa de vinho e bebeu a primeira taça de um gole só. Serviu outra. Ligou a música, pegou Ziggy no colo e sentou-se no sofá, onde os jornais do dia estavam espalhados. A casa estava sempre bagunçada desde que ela partira. Ela, que fora seu sol, seu calor, seu riso mais franco, sua cúmplice, partira e, desde então, sua vida era inverno.

 

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Dez para meia-noite

Domingo de verão, sol derretendo asfalto e ele na cama, não se sentia bem. Parecia um resfriado sem febre, podia ser garganta inflamada pelo entra e sai do ar-refrigerado, não se sentia bem. A família estava reunida em casa, uns conversavam, outros assistiam a qualquer coisa na TV, só ele que não se sentia bem. Na hora do almoço, fez grande esforço para se levantar e se sentar à cabeceira, gostava de todos reunidos, faria tudo por aquelas pessoas, estava pesaroso de não se sentir bem. Terminada a refeição, levantou-se para voltar para cama, não sem antes explicar que não se sentia bem. Todos perguntaram o que era e ele fez por menos, uma indisposição, uma dor no corpo, só não se sentia bem. Fim de tarde, família se despedindo, ele perguntou à filha se não dormiria lá e ela achou melhor voltar para casa pelo trabalho que daria na segunda de manhã. Ele se despediu dos filhos e netos, estava triste pois não se sentira bem todo o dia. Casa vazia, eram dez para meia-noite quando comentou com a mulher que sentia o corpo muito mole, uns arrepios e calafrios, só podia ser uma gripe daquelas, provavelmente não iria trabalhar no dia seguinte, iria descansar, ninguém o faria levantar daquela cama. E não levantou mesmo. Nunca mais.

 

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Para sempre

Entrou na casa escura e caminhou até a cozinha, onde acendeu a luz. Olhou em volta, abriu o armário e pegou um vasilhame plástico com tampa. Lá dentro, depositou, com todo cuidado, a sacola plástica que trazia agarrada ao peito. Guardou o recipiente no congelador, apagou a luz da cozinha e foi para o quarto. Tirou a roupa e resolveu tomar um banho. Aquele foi demorado. Sentou no chão do box, encostou na parede, água escorrendo na cabeça e pelas costas. Ela olhava fixo para as mãos, já enrugadas pelo tempo de água, já enrugadas pelo tempo. Saiu do banho, vestiu um pijama e se entocou embaixo das cobertas na cama. Quase imediatamente caiu no sono e só acordou com a claridade do início da manhã. Ligou a TV e, no jornal matinal, o jornalista comentava alguns detalhes de mais um crime horrendo acontecido no dia anterior. Homem retalhado a faca, corpo encontrado no gramado do cemitério. O morto já estava em seu lugar de destino. Levantou da cama, deixou a TV ligada e, descalça, caminhou até a cozinha. Abriu o congelador, retirou o pote, levantou a tampa, desembrulhou a sacola lentamente. Estava lá o coração do assassinado, ainda bem vermelho, ainda batendo em ritmo só para ela. Aquele coração seria só dela, de mais ninguém.

 

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O menino lendo

Todas as noites ele chegava em casa, vindo do trabalho, e cumpria o mesmo ritual: tirava o paletó e pendurava no cabide, sentava na cama, tirava os sapatos e as meias, levantava, puxava a camisa para fora da calça ainda fechada, abria o zíper, tirava uma perna por vez, dobrava a calça e pendurava junto do paletó. Em seguida, vestia uma bermuda confortável, uma camiseta surrada e se dirigia à cozinha para falar com a mulher. Ele se sentava no sofá em frente à TV, mas ficava olhando para o quadro do menino lendo. A mulher pegava uma fruta para ele comer, enquanto esperava o jantar ficar pronto. A TV contava histórias, mas ele preferia o menino lendo.

O homem era fascinado pelo quadro de cores escuras que tinha um menino deitado de bruços, com um braço apoiando o queixo, lendo um livro. Era capaz de ficar horas admirando a pintura, imaginando qual seria o livro, em que capítulo estaria, quem seria o menino. Dava-lhe nomes. Um dia chegava e dizia boa noite, Heitor. Noutro, o Heitor era Pedro. Ou Gabriel. Ou Mário. Leandro, Heleno, Sergio. Cada um deles tinha personalidade própria e história de vida. Heitor era o menino estudioso, lia para o colégio. Pedro era o menino sorridente, lia porque o pai mandava. Gabriel era festeiro, mas lia por gosto. Mário lia para se encantar com o mundo que não conhecia, Leandro lia para compreender a vida, Heleno para contar as histórias aos amigos e Sergio para passar bem o tempo.

Cada menino fazia parte de sua vida como se fosse real. Além de conversar com eles à noite, o homem sentia saudades deles durante os dias e pensava neles em todos os momentos. Fazia planos e imaginava cenas: Heitor visitaria esse museu comigo; Pedro se encantaria com a vista do alto da montanha; Gabriel se deliciaria com o sorvete de manga; Mário me daria a mão para atravessar a rua; Leandro assistiria a um jogo no estádio reformado, onde trabalhei; Heleno me recordaria histórias; Sergio conversaria baixinho. Todos eram amigos. Eram familiares ao homem, que imaginava a vida com eles. Todos eram o menino lendo.

Uma noite, o homem chegou em casa, cumpriu o ritual da roupa, passou na cozinha e foi para a sala. A mulher, da cozinha, ouviu um barulho seco e forte, como se o marido tivesse escorregado no chão. Ainda na cozinha, ela gritou marido? Marido? Mas ninguém respondeu. Caminhou até a sala com o prato de fruta na mão e não encontrou o marido sentado em frente à TV nem no chão. Andou pela casa, chamando-o, mas era só silêncio. Abriu a porta da rua, perguntou para o porteiro se o marido tinha saído, nada. Sentou no sofá para ligar para os filhos, olhou para o quadro e viu o marido deitado, de olhos fechados, descansando, ao lado do menino lendo.

 

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A (in)compreensão do amor

Há muitas maneiras de amar. Mas há outras de não entender que se é amada.

Aquele era o seu dia preferido no ano, dia de mais um aniversário, noite de festa, e ela acordara sozinha porque seu recém-marido estava viajando e chegaria somente à noite. Virou para o lado vazio na cama e ficou aborrecida. Queria que ele estivesse ali, mas estar em casa hoje e longe amanhã fazia parte do trabalho dele.

Naquele dia, ela enfeitou a casa com flores, muitas flores, caprichou no jantar, foi para o salão para se sentir mais bonita. Tinha certeza de que ganharia uma joia de presente de seu marido. Algo para marcar bem aquele primeiro aniversário casada com ele.

Na hora certa, os convidados começaram a chegar e todos perguntavam pelo marido, que estava atrasado. Bebidas servidas, comidinhas enquanto o jantar não saía, todos esperando por ele. Como uma menina mimada, ela amarrou a cara. Afinal, que chateação ele atrasar justo naquele dia! Teve de servir o jantar sem ele, que entrou em casa sobremesa já servida, carregando um embrulho grande. O presente era um quadro bacana para a casa deles. Não gostou. Nem ligou. Não importava o autor, o valor, o esforço, o gosto. Não era o que esperava.

O resto da noite foi enfadonha, nada do que havia planejado. Muitos anos se passariam até que ela começasse a entender que as pessoas amam e demonstram o amor à maneira de cada um.

 

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