Ato Contínuo

O sinal abriu e o trânsito intenso não permitia a passagem. Joelson ligou a sirene da ambulância vazia, que gritou sua urgência na multidão. Os carros começaram a dar passagem e ele avançou compenetrado. Sempre fazia isso, porque não tinha nenhuma paciência para esperar. A sirene da ambulância era como um salvo-conduto que lhe dava a prioridade esperada. Ele queria chegar logo na garagem e terminar seu turno.

No meio da confusão, com os veículos virando de um lado a outro para sair da frente, sempre acontecia algum acidente menor. Um motociclista que caía, um ônibus que encostava sua lata no carro de luxo da madame, Joelson acompanhava pelo espelho, meio sorriso no rosto, enquanto a agitação ficava para trás.

Estacionou a ambulância na garagem e se encaminhou para o relógio de ponto. Ao lado da máquina, uma nota de vinte reais que ele pegou e guardou no bolso. Caminhou com calma até o vestiário para tirar o uniforme e deu de cara com uma colega perguntando a todos se alguém teria visto vinte reais por ali. Não. Ninguém viu.

Joelson estava de saída quando o supervisor apareceu, chamando-o. Ele achou que fosse pelos vinte reais. Não. Era para ele voltar para a ambulância e fazer mais um traslado urgente, era para ir com a própria roupa, era para ir logo, era para ir. E enquanto cuspia a emergência, Joelson se encaminhou raivoso para a van. Desta vez a equipe com os paramédicos já o esperava e ele não iria sozinho.

Um de seus acompanhantes pediu que ele ligasse a sirene, para abrir caminho e ele respondeu que tinha quebrado à tarde. Foram em silêncio, os médicos contando minutos, a família do precisado contando segundos e Joelson contando passos. Ele, que tinha o mapa da cidade na cabeça, errou a entrada da rua duas vezes, até que pararam na frente de um edifício bacana, todo envidraçado, coisa de rico.

Os médicos correram para o elevador, enquanto Joelson largou a ambulância no meio da rua, com as luzes acesas e girando. Após algum tempo, que ele não sabia precisar, voltaram com os instrumentos, e falaram que tinham chegado tarde.

Joelson sentou no banco do motorista, avisou que tinha consertado o fio solto da sirene, ligou o grito, acelerou, meio sorriso no rosto, enquanto o morto ficava para trás.

#temgenteescrevendo

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