Trinta anos outro dia

– Vou lá fora separar os docinhos antes que acabem – exclamei e saí da mesa onde uma caneca de chope esquentava à minha frente. Quando cheguei ao balcão, procurando os docinhos, encontrei Sabina e Rogério e senti a mesma alegria de encontro inesperado que sinto sempre que os vejo. Falamos rapidamente, eles em pé ao balcão, eu com a família me esperando. Despedimo-nos com promessas de encontros futuros planejados, escolhi os docinhos e meu irmão foi me pescar no mar de gente fora do restaurante por causa de minha demora.

Quando cheguei à mesa, fui falando animada sobre o encontro e comecei a lembrar dos últimos trinta anos. Sabina foi a minha primeira entrevistadora de emprego. Éramos muito jovens, crianças que somos até hoje. Ela psicóloga do Cantão, aplicava os testes que, àquela altura, só eram aplicados em multinacionais, e dividia a tarefa das entrevistas com uma equipe do departamento de RH. Rogério era o artista que sempre foi, responsável pelo design das campanhas promocionais da empresa e de muitas outras.

Ao longo da vida, nossos encontros sempre foram inusitados, mas muito agradáveis. Sabina foi ao meu casamento na igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, na praça XV e me disse que foi a única vez em que lá entrou. Quem nunca foi, não perca a visita. É linda.

Depois disso, saí do Cantão e fui rodar mundo. Eu trabalhava nos escritórios provisórios antes da inauguração do Cascais Shopping, em Portugal, quando ela entrou em minha sala inesperadamente. Assuntos profissionais a levaram até lá e uma não sabia o paradeiro da outra. Minha memória, que só retém coisas boas, me indica que o jantar aquela noite foi divertido, saudoso e cheio de surpresas.

Anos depois, eu estava com um grupo de amigos em viagem programada para Ilha Grande. Quando olhei o salão, achei ter visto Rogério, mas fiquei na dúvida: é-não é, vou-não vou, fui. Não só era Rogério, como era ele com Sabina, também estavam no grupo para a viagem. Diversão e riso, apesar de pouco termos nos esbarrado durante os dias na ilha.

Depois disso, eu estava na Cabritinha Vadia, um restaurante-pousada em Rio Bonito de Cima, para os lados de Lumiar, cujos donos eram o sueco Ulf e a mineira Regina, que proporcionavam inesquecíveis tardes com comida sueca-mineira e caipirinhas de maracujá, quando entraram Sabina e Rogério, com casa perto e refúgio frequente. Surpresa e mais sorrisos.

Do tempo em que trabalhamos na mesma empresa, guardo maravilhosos momentos que contei para a família quando voltei à mesa e pedi outro chope na pressão para comemorar o encontro. Um dos melhores é que certo dia, no departamento de arte, não sei como nem porquê, comentei que nunca havia provado comida japonesa. Naquela época os restaurantes eram poucos e não havia entrega em casa. Na mesma hora, Rogério mandou encomendar o almoço da galera de promoções e design em uma peixaria na rua das Laranjeiras que entregava em domicílio. Usamos a mesa larga e comprida onde os trabalhos eram apresentados para o banquete e foi a primeira vez em que segurei os hashi e comi peixe cru. De lá para cá nunca mais parei, adoro!

Da mesma forma, adoro esses nossos encontros não programados pelas cidades da vida. Eles contam um pouquinho da história que vamos escrevendo sem destino. Até o próximo.

Foto: Campeonato Redley de Body Board, camiseta e boné: arte Rogério Martins.

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