A luz do Tom

a luz do tomEstreia hoje o novo documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim, complementação, com fino acabamento, do filme do mesmo diretor,  que assistimos em 2012 sobre o maestro. Enquanto no primeiro filme tivemos um recorte de momentos do Rio e da carreira de Tom, embalados por sua música,  no segundo travamos conhecimento de histórias por meio de três mulheres fundamentais em sua vida: Helena, Teresa e Ana.

Algumas dessas histórias estão na biografia escrita por sua irmã Helena, mas recebem novo tratamento quando levadas pela câmera para a tela do cinema. Fica fácil o teletransporte para um Rio que não existe mais e para a companhia do compositor da trilha sonora da vida de muita gente, inclusive da minha.

Em um momento em que o Brasil desperta para apreciar a vida de grandes nomes, com vários documentários interessantes e fundamentais para o registro da nossa história, é essencial assistir A Luz do Tom, uma poesia filmada pelo mestre do cinema nacional, que nos proporciona momentos de relaxamento e prazer, conhecimento e reconhecimento.

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O filme mais bonito

 Desde janeiro nos cinemas, o filme A música segundo Tom Jobim  é classificado como documentário nas categorias de cinema, mas para mim é o filme da vida. Da minha vida.

Em 90 minutos, por meio da música do maestro e do olhar delicado do mestre Nelson, faço uma viagem no tempo, com imagens que começam nos anos 1960 e atravessam três décadas de pura poesia.

Voo no tempo e lembro-me que o vinil do show antológico com Vinícius, Toquinho e Miúcha gastou no antigo aparelho de som três em um, em tardes amenas e ensolaradas passadas em família em Friburgo.

Tempos depois, eu trabalhava em uma empresa de moda que adotou o mico-leão dourado no Zoo do Rio e pediu autorização ao Tom para modificar a letra do refrão de Borzeguim para “deixa o mico vivo” e imprimir em uma camiseta para venda em todas as lojas. Meu xodó até hoje. A jornalista responsável pelo acordo me chamou para irmos à casa de Tom finalizar o contrato, o que não recusei. Naquela noite, cheguei em casa e falei para meu marido na época que nunca mais lavaria minhas bochechas que Tom havia beijado. Emoção de fã no encontro com o ídolo.

Passarim foi o primeiro cd brasileiro que comprei, em uma loja no shopping do Rio, onde encontrei meu pai para jantar. Lembro-me de mostrar a nova mídia, um tipo de vinil metálico em miniatura, tocado só de um lado. Esse cd atravessou oceano e subiu serras, em minhas idas e vindas pela vida. Repousa, hoje, na estante organizada até a próxima investida no aparelho de som.

Anos depois, eu trabalhava em Lisboa, sempre ouvindo música, quando minha amiga me deu a notícia de sua partida. Não pude acreditar. Como assim? Ídolos não morrem nunca. Mamãe confirmou e meu irmão enviou do Brasil tudo o que saiu sobre ele na imprensa, desde reportagens inteiras a emocionadas homenagens. Antonio Brasileiro marcou meus últimos momentos na terrinha, entre caixas de mudança e vida por empacotar.

Em 1996, a publicação da biografia escrita por sua irmã foi lida e relida. Belas histórias que se misturaram às do Rio, cantado e arrebatado por Tom em sua poesia musicada.

E agora, tantos anos depois, Nelson transformou a poesia musicada em poesia filmada, perpetuando os sonhos da menina que nunca deixou de cantarolar minha alma canta / vejo o Rio de Janeiro / estou morrendo de saudades / Rio, seu mar / praia sem fim / Rio, você foi feito pra mim.