Feliz Ano Novo

Em 2011,

Para os distantes, presença;

Para os europeus, navios que atravessem o oceano;

Para os americanos, asas para os trópicos;

Para os que não vejo há muitos anos, encontros;

Para os que vi e perdi, reencontros;

Para os que perdi, saudades;

Para os que não entendem, compreensão;

Para as novas amizades, continuação;

Para os amigos, vida;

Para os zangados, gentileza;

Para os felizes, eternidade;

Para os sempre presentes, amor;

Para os com crianças, brincadeiras;

Para os com animais, cuidados;

Para a família, união;

Para cada um e todos, paz e saúde.

Dante Milano, tercetos

Eu sou um rio, a água fria de um rio.

profundo, cabe em mim todo o vazio,

Um reflexo me causa um calafrio.

Sou uma pedra de cara escalavrada,

Uma testa que pensa, e sonda o nada,

Uma face que sonha, ensimesmada.

Sou como o vento, rápido e violento,

Choro, mas não se entende o meu lamento.

Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

Sou a estrela que à noite se revela,

O farol que vê longe, o olhar que vela,

O coração aceso, a triste vela.

Sou um homem culpado de ser homem,

Corpo ardendo em desejos que o consomem,

Alma feita de sonhos que se somem.

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta

Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:

Significação grande, mas secreta.

Coração de Pai

Sabe como é… Dezembro chega e já vai embora, no meio de tanta coisa para terminar, para fechar o ano, para começar o ano seguinte zerado, cheio de promessas de dias melhores e sorrisos intensos. O pensamento, que já está desfocado, viaja para trás e para frente, lembrando e imaginando, todos os verbos no gerúndio de uma boa fala brasileira.

No entanto, este dezembro chegou inclemente, com a notícia do coração que vai ter que colocar um aparelhinho, como um Ipod nano, cor-de-rosa, – na verdade é cinza feioso, prefiro imaginar que seja rosa – para fazer com que ele volte a bater em um rítmo normal e mais vigoroso.

Aquele coraçãozão imenso, que carrega o mundo lá dentro, que não guarda mágoa de ninguém, que sempre estendeu as mãos – o coraçãozão de meu pai tem mão, tem perna, tem olho, tem vários outros membros que o ajudam a ser tão generoso – vai ter que levar uns choquezinhos cada vez que sair do rítmo, como se estivesse numa escola de samba do grupo especial.

Os médicos falaram que é coisa à toa, um cortezinho aqui – é tudo no diminutivo – dois fiozinhos ali, um no átrio, outro no ventrículo, um por cima, outro por baixo, um na saída e outro na entrada, para o tum-tum voltar pro tom.

Depois de muitos exames e muito palpite, muita ordem do que não pode fazer – nem comer, nem beber – resolveram que a cirurgiazinha vai ser agorinha, em menos de cinco diazinhos. Mas esses diazinhos são muito longos e são justamente aqueles que têm trinta horas, mas que não estão disponíveis quando deles precisamos.

Já houve dezembro em que desejei que meus dias tivessem mais horas para dar conta de tudo, mas neste dezembro, em que tenho tanto para fazer e nada faço, eu gostaria de dias curtinhos para passar logo e levar o coraçãozão do pai para o hospital e trazer de volta o pai inteiro, com um Ipod extra que não vai tocar música, mas vai apitar nos aeroportos e em todas as lojas com barreiras eletrônicas antifurtos.

Os médicos – de novo eles – disseram que o problema é só esse, como se fosse pouco ter um problema em que o coração fica uns segundinhos sem bater, e que o músculo cardíaco desse paizão está em excelente estado. Não poderia ser diferente: ele foi alimentado durante os últimos 73 anos com o mais puro amor que todos poderíamos dar, além dos afetos sinceros de toda a família, dos amigos, dos conhecidos, do homem do sinal, do vendedor de frutas, de todos que têm o privilégio de conhecer o dono desse coraçãozão. De pastel também. E empadinha. Porque, como já falei antes, o coraçãozão do meu pai tem muitos membros e tem boca e sistema digestivo também. Na verdade, tem tudo: quando olho para ele, para o meu pai, o que vejo é um grande coração andando por aí. Sorrindo por aí. Fazendo hidroterapia para fortalecer todos os músculos. Contando histórias e fazendo a vida ser melhor. Dessa forma é capaz desse Ipod nano cor de coração além de colocar as batidas surdas no rítmo, ainda trazer uns sambinhas de Cartola, de Chico, de Pagodinho… Em menos de cinco dias, vou colocar a cabeça no peito de meu pai e ouvirei música lá do fundo do coração.

Português é muito difícil

Há na família uma história que não sei se é piada, ou uma piada que vem sendo contada como história: um americano, amigo de meu avô, recém chegado ao país, dizia que o português é uma língua muito difícil – a palavra “pálido” poderia ter significados muito distintos. E ele repetia, apontando: pálido, pálido, pálido! Na verdade, ele apontava para um palito, o paletó que usava e o próprio rosto, esse sim, pálido.

Em criança, ríamos muito dessa bobagem e até hoje persiste uma aura de graça infantil quando lembro dos gestos de quem repetia a piada.

Semana passada, tive a confirmação de uma vida de que o português não só é difícil, como é mal usado na justa interpretação dos fatos. Fui ler uma ata de uma assembleia ordinária de condomínio, à qual estive presente, e deparei-me com a frase de que certa despesa extraordinária havia sido acordada por unanimidade. Éramos dez pessoas convocadas, estávamos todas presentes, não faltara ninguém e eu não conseguia recordar do momento em que a despesa havia sido proposta e votada. Muitos anos, problemas e afazeres têm prejudicado a minha memória e perguntei ao vizinho. Ele também não recordava. Li várias vezes a ata. Reli. Li outras vezes. Li em voz alta. Fui para o Houaiss para entender o significado da expressão “acordada por unanimidade”. Diz o mestre, por partes:

Acordado: adjetivo – que se acordou

1 posto de acordo; conciliado

1.1 igual ou semelhante (diz-se de sentimento, opinião etc.)

1.2 aceito como verdadeiro, legítimo

1.3 consentido, permitido

2 sem problemas; entendido

3 resolvido em conjunto; ajustado, combinado

4 decidido ou resolvido segundo a vontade de; determinado

5 Rubrica: termo jurídico: resolvido ou terminado por acórdão

6 resolvido ou decidido individualmente

7 cedido, outorgado

Unanimidade: substantivo feminino

1 qualidade do que é unânime

2 conformidade nas avaliações, julgamentos, opinião, votos etc

Então vamos ao unânime: adjetivo de dois gêneros

1 que está em conformidade com todos os demais (em sentimento, opinião etc.)

2 que exprime acordo ou concordância geral

Exs.: votos u.

a opinião pública está u. sobre este julgamento

Huuummmm… Ou seja, acordado quer dizer resolvido em conjunto, unanimidade não é maioria, quer dizer todos. Então, a despesa deveria ter sido resolvida em conjunto, debatida e aprovada por todos. Huuuummm… A opção de efetuar ou não a despesa deveria ter sido posta em votação, o que não havia acontecido. A partir da opção da votação, todos deveriam concordar com o valor, o que, novamente, não havia acontecido. Logo, a frase da ata da assembleia estava totalmente equivocada.

Caramba! Quer dizer que se eu não abro o envelope, como já aconteceu outras vezes, e não leio com toda a atenção, estaríamos, os condôminos, efetuando uma despesa desnecessária? Bem, não era tanto assim, porque o vizinho da casa 22 já tinha pulado a janela e já conversara com o síndico que, atento aos interesses de todos, ou seja, da unanimidade (que lindo fica quando usado corretamente!) já tinha enviado correspondência – em plena Era digital, ainda usamos a correspondência para esses assuntos! E resolvido o caso.

Por essas e outras que no colégio de meu sobrinho só se pode ficar em duas provas finais e as duas não podem ser ao mesmo tempo português e matemática. Se algum aluno ficar para prova final nas duas, é automaticamente reprovado. E aluno reprovado lá não continua. Duro esse colégio, não? Ele adora! Mas essa já é outra crônica.