Conhecemos Mila, o espelho do futuro, uma dachs como eu, sete anos mais velha. Ela já foi da minha cor, agora está bem grisalha, se é que posso dizer assim de seu pelo quase branco. Vimo-nos através de grades, eu não lati, ela teve dificuldade para caminhar. O espelho do futuro, como minha dona falou. Eu mesma, nos últimos três anos, ganhei pelos brancos ao redor de meus olhos, em meu focinho. Deve ser o stress da cidade grande, pode ser somente o passar dos anos. Meu porte ainda altivo, enfrento outros cães, de qualquer tamanho, que latem para mim na rua. Eles não respeitam meus pelos brancos, lato de volta, ferozmente, para mostrar que só a cor está mudando, eu continuo a mesma: forte, impávida, um colosso!
Categoria: Crônica
Benjamin
O filme de David Fincher, em cartaz nos cinemas, com Brad Pitt e Cate Blanchett é bom. Já ouvi críticas negativas que atribuo à imagem deslumbrante do ator, conforme os efeitos de maquiagem o vão fazendo rejuvenescer. Ele fica mais jovem do que realmente é e mais bonito. Talvez outro ator escolhido, a crítica fosse menor. Mas o contraste poderia não ser tão forte.
Mas não é somente sobre o filme que quero falar, é sobre o conto em que foi baseado, de F. Scott Fitzgerald, esse sim, magnífico. Dor, solidão, descoberta e abandono se confundem à medida que Benjamin novo-velho se transforma em velho-novo. A contradição entre desejos e consumação de vontades e a capacidade física chega a doer em alguns momentos. No conto, num realismo fantástico, Benjamin já nasce grande e velho. Velho em todos os sentidos. Conforme rejuvenesce o corpo, a mente acompanha sua involução e ele passa, já velho na idade, mas novo no corpo e imaturo no espírito a querer realizar o que não foi possível anteriormente. Situações ridículas e esdrúxulas acontecem àquele que involui. Chega-se a sentir pena, sente-se dor no estômago e a empatia gerada, no sentido psicanalítico da palavra, entre leitor e personagem é inevitável.
Veja o filme, leia o conto, disponível, em inglês, nos sites de obras em domínio público, ou na livraria mais próxima de sua casa. Imperdível.
Ela disse que era tarde demais
Eram jovens, bonitos, cheios de vida. Tudo conspirava contra, mas eles tiveram força para continuar. Ele sonhava com céus, estrelas e nuvens brancas. Ela carregava uma segurança incompatível com sua idade. Ele sorria sempre e agia como um menino. Ela enxergava os próximos vinte anos. Ele vivia nas nuvens. Ela sonhava com a vida. Ele voava em seus pensamentos. Ela pensava em voos apaixonados. Ele tornou-se distante. Ela voou para longe. Ele voltava sem estar. Ela tornou-se ranzinza. Ele deixou de rir. Ela passou a chorar. Ele não via TV. Ela reclamava de tudo. Ele tentou encontrá-la. Ela disse que era tarde demais.
Os Filhos de Beibe
Pisquei os olhos e se passaram dez anos. Fomos os Filhos de Beibe, nas colinas das minas gerais em cinco dias de folia, gargalhada e suadeiras. Os causos ficaram como recordações suaves de tempos sem descanso. A partir daquela data, como em um pacto descombinado, os quatro companheiros, mosqueteiros em viagem, mudaram suas vidas, seus destinos, os programas, os afetos, suas casas, os trabalhos, as famílias. Só as músicas permaneceram.
Riroca e Pedrobaby procriaram, não um com o outro, que Deus é grande, mas com seus respectivos digníssimos; Zébelê resolveu aparecer quando Nanashara estava pintando-pintada de verde dos pés à cabeça; Nanashara desapareceu de tudo como bruma em noite de serra. Só as fotos permaneceram.
Riroca e Nanashara mantêm contato permanente. Riroca, Pedrobaby e Zébelê mantêm contato esporádico. Pedrobaby liga uma vez por ano, na véspera do seu aniversário, para ganhar presente; Zébelê continua um enigma risonho; Riroca continua encantando e Nanashara voltou a escrever. Os quatro mosqueteiros, ex-companheiros de viagem, combinaram almoços, lanches, passeios e risadas que nunca se concretizaram. Só a vontade permanece.
Escondidinha
Vôo 1954, com destino ao Sul, reunião parcial de família, de 25 de dezembro à primeira semana de janeiro do ano que já bate à porta. Assim que o 737-800 alcança sua altitude de cruzeiro, pego o MP3 player emprestado do meu irmão, com minhas músicas preferidas, as que meu sobrinho chama carinhosamente de “bandas velhas”, Elton, Eric, Beatles, Rolling, Sheryl (não tão velha assim), começo a ouvir, fecho os olhos e vou, lentamente, saindo do meu corpo sentado na desconfortável poltrona 5B, subo para o compartimento de bagagem de mão e me escondo lá dentro. Dou uma última olhada e meu corpo continua na mesma posição, só meu espírito inquieto escapou da prisão para explorar as dependências da caixinha voadora. Passeio pelas fileiras, observando os outros passageiros, cada um com suas manias e maneiras de enfrentar um voo de menos de duas horas, um cutuca o nariz, não sei onde irá aquela meleca; outro faz palavras cruzadas, enquanto murmura as respostas; uma jovem adormecida, encosta a cabeça no ombro do vizinho que a olha de soslaio; um bebê chora baixinho, deve estar com dor de ouvido; uma criança fala a palavra “para” sem parar, irritando todos ao redor; uma senhora bem bonita folheia displicentemente as páginas de uma revista bacana; um casal discute a relação, não sei se a deles ou de ausentes; a velhinha com terço na mão acredita que haverá salvação se todos cairmos no mar; um adolescente com cara de quem não toma banho há três dias, cutuca as unhas negras que não ficarão limpas nem com muito sabão e escovinha. Pessoas múltiplas convivem um tempo obrigatório para chegarem ao seu destino.
Após 90 minutos, o Comandante avisa que aterrissaremos em instantes no aeroporto Salgado Filho e retorno ao meu corpo, desligo a música, coloco o assento na posição correta, aguardo o pouso cada vez mais torto (antigamente os pilotos tinham mais habilidade, mas pelo visto, esses voaram para fora do país e das companhias brasileiras) e piso, pela terceira vez no ano, na cidade que guarda parte saudosa de mim mesma com minha família.
Verão? Que Verão?
Quase Natal. Verão no calendário do Rio de Janeiro. Só no calendário. Turistas branquelos como eu andando pelas ruas da cidade com moletons amarrados na cintura. Desde domingo, para sair de casa, carrego guarda-chuva na bolsa e visto casaco de couro. Não chega a ser lã, é certo, mas é um casaco, no mês fervilhante, na estação do inferno. Ontem esqueci o guarda-chuva em casa e só me dei conta na rua. Tive que andar uns três quarteirões até encontrar um camelô vendendo o dito que dura, no máximo, cinco chuvas de menor potência e sem vento.
Normalmente, em outros anos, estaríamos todos resfriados de tanto entrar em ambientes congelantes por causa do ar-refrigerado regulado em temperatura de inverno nórdico e sair para a rua e encarar um calor trópico-africano. E as praias pululando de gente rosada e/ou torrada.
Não dá para acreditar nesse clima. Ainda bem que vou para Zurich e já me disseram que a praia lá tá ótima.
