Escondidinha

Vôo 1954, com destino a Porto Alegre, reunião parcial de família, de 25 de dezembro à primeira semana de janeiro do ano que já bate à porta. Assim que o 737-800 alcança sua altitude de cruzeiro, pego o MP3 player emprestado do meu irmão, com minhas músicas preferidas, as que meu sobrinho chama carinhosamente de “bandas velhas”, Elton, Eric, Beatles, Rolling, Sheryl (não tão velha assim), começo a ouvir, fecho os olhos e vou, lentamente, saindo do meu corpo sentado na desconfortável poltrona 5B, subo para o compartimento de bagagem de mão e me escondo lá dentro. Dou uma última olhada e meu corpo continua na mesma posição, só meu espírito inquieto escapou da prisão para explorar as dependências da caixinha voadora. Passeio através das fileiras, observando os outros passageiros, cada um com suas manias e maneiras de enfrentar um vôo de menos de duas horas, um cutuca o nariz, não sei onde irá aquela meleca; outro faz palavras cruzadas, enquanto murmura as respostas; uma jovem adormecida, encosta a cabeça no ombro do vizinho que a olha de soslaio; um bebê chora baixinho, deve estar com dor de ouvido; uma criança fala a palavra “pára” sem parar, irritando todos ao redor; uma senhora bem bonita folheia displicentemente as páginas de uma revista bacana; um casal discute a relação, não sei se a deles ou de ausentes; a velhinha com terço na mão acredita que haverá salvação se todos cairmos no mar; um adolescente com cara de quem não toma banho há três dias, cutuca as unhas negras que não ficarão limpas nem com muito sabão e escovinha. Pessoas múltiplas convivem um tempo obrigatório para chegarem ao seu destino.
Após 90 minutos, o Comandante avisa que aterrissaremos em instantes no aeroporto Salgado Filho e retorno ao meu corpo, desligo a música, coloco o assento na posição correta, aguardo o pouso cada vez mais torto (antigamente os pilotos tinham mais habilidade, mas pelo visto, esses voaram para fora do país e das companhias brasileiras) e piso, pela terceira vez no ano, na cidade que guarda parte saudosa de mim mesma com minha família.

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Provavelmente última postagem de 2008, com todos os acentos intactos. Freqüentemente, ano que vem, terei que consultar oráculos não para saber a sorte do dia, mas para confirmar se aquele hífen ainda existe, se o acento caiu, se os “esses” dobraram, só o trema será uma unanimidade. Ai que pena! Eu gostava tanto das regras antigas! Meu próximo vôo será um voo faltando um pedaço.

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Pela ordem: Para 2009: Saúde, Paz, Amor, Sucesso e Prosperidade!

MPV – dezembro 2008

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