Carta a Dorothy Parker

Tenho 27 anos e carrego The Portable DP comigo como se fosse um livro santo. Para todos os lugares que vou, você vai comigo e tento aprender como me expressar de maneira lírica e irônica ao mesmo tempo. Você foi alguém que eu gostaria de ter sido. Conhecido. Ou não. Sublinho seu-meu livro, marcando as frases que queria ter escrito. Dito. Ou não.

Mostro seu-meu livro para minha professora de literatura, que me responde que nunca a leu, não tem conhecimento de sua existência, não sabe quem foi você. Assim que ela se vira de costas, despejo todo o desprezo do meu olhar em sua nuca. Ela se volta  para mim com um sorriso amarelo e eu olho para seu-meu livro em minhas mãos.

Meu tempo com você é mágico, é iluminado, porém emprestado – como você escreve em suas histórias. Você me conduzirá e me emprestará um pouco da sua ousadia, fundamental para que eu viva minha vida daqui para frente, enquanto eu, atrevida, levarei seu-meu livro até o fim, até que suas páginas amarelas e secas comecem a rasgar. Ou não.

 

Temgenteescrevendo

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Dez para meia-noite

Domingo de verão, sol derretendo asfalto e ele na cama, não se sentia bem. Parecia um resfriado sem febre, podia ser garganta inflamada pelo entra e sai do ar-refrigerado, não se sentia bem. A família estava reunida em casa, uns conversavam, outros assistiam a qualquer coisa na TV, só ele que não se sentia bem. Na hora do almoço, fez grande esforço para se levantar e se sentar à cabeceira, gostava de todos reunidos, faria tudo por aquelas pessoas, estava pesaroso de não se sentir bem. Terminada a refeição, levantou-se para voltar para cama, não sem antes explicar que não se sentia bem. Todos perguntaram o que era e ele fez por menos, uma indisposição, uma dor no corpo, só não se sentia bem. Fim de tarde, família se despedindo, ele perguntou à filha se não dormiria lá e ela achou melhor voltar para casa pelo trabalho que daria na segunda de manhã. Ele se despediu dos filhos e netos, estava triste pois não se sentira bem todo o dia. Casa vazia, eram dez para meia-noite quando comentou com a mulher que sentia o corpo muito mole, uns arrepios e calafrios, só podia ser uma gripe daquelas, provavelmente não iria trabalhar no dia seguinte, iria descansar, ninguém o faria levantar daquela cama. E não levantou mesmo. Nunca mais.

 

Temgenteescrevendo

 

A casa de minha infância

A casa de minha infância tem paredes brancas e janelas de peroba-do-campo que meu avô não deixou pintar. A casa de minha infância tem portas almofadadas, lareira com lenha que queima azul para todo mundo olhar como uma T antiga, tem a poltrona do Fasanello que foi consertar e nunca mais retornou, tem mesa comprida com feijoada, arroz soltinho, couve temperada e canjiquinha que minha irmã adora. Na casa de minha infância comemos bolo de chocolate e meu irmão devora seus bombons com recheio variado, embalados em papéis coloridos. A casa de minha lembrança abre seus braços imensos e acolhe a família vinda de longe e amigos de todas as tribos. Na casa de minha lembrança o sol sempre brilha, mesmo entre a bruma da alvorada, aquece corações, pernas, braços e cervejas. A casa de minha infância guarda a trilha da cachaça, desbravada corajosamente pelo meu avô, aos risos escondidos das crianças. Na casa de minha lembrança o jipe atola na lama e só os mais fortes conseguem raiar o dia gargalhando dessas dificuldades. Na casa de minha infância desfilam os personagens da história – veludão azul marinho, a prima enxugando a calça debaixo do chuveiro, o timbau que chora muito antes de Brown se mostrar ao mundo, a estrelinha que pisca, mas não apaga, a avó de maiô marrom, fazendo pose de Bardot descoberta, a mãe linda, loura e poderosa ao sol, o pai com um livro na sombra, impedindo aproximação aventureira, o irmão que joga bola com os homens, o cão fila de 96 quilos, chamado delicadamente de Lobo. O mau. A casa de minha lembrança dorme hoje o sono tranquilo de missão cumprida, mas os ecos familiares vagueiam por aqueles campos para sempre nossos.

Fora de área

Eu queria te falar do meu dia hoje, das últimas semanas, o que tenho feito, notícias boas, sentimentos de luz, que fazem meu rosto brilhar. Eu queria te contar o que se passa em meu coração, o que tem me feito sorrir,  do trabalho, da caminhada na praia.

Como é bom ver o mar, olhar as ondas quebrando, forte, fraca, forte, fraca, crianças correndo e se esparramando na espuma, os times de garotos que chegam para jogar a pelada na areia no fim da tarde, turistas que passeiam ao longo do ano no calçadão, extasiados com tamanha beleza.

Eu queria te contar dos três navios cargueiros que passaram, ao largo, vagarosamente, apitando, enquanto eu estava lá sentada, sem vontade de ir embora. Será que seus tripulantes olhavam para nós, como eu olhava para eles? Para eles, uma visão de areia e concreto, com os prédios da orla, para mim, o mar infinito, milhas e milhas de oceano já descobertos, mas não navegados.

Hoje, vendo o mar, tive vontade de furar suas ondas, receber a energia, tive vontade de sentar na areia, como eu fazia, quando as areias ainda eram limpas, há muito tempo. Eu adoro areia. A sensação de pisar nela e afundar o pé, de ter mais trabalho para caminhar, vencer os metros que separam o calçadão da água. E depois do mergulho, esperar secar em pé, com rosto escondido do sol e sentar na areia, senti-la embaixo de mim. Mas estava frio.

Agora, é esperar o verão, chegar do trabalho com a luz do dia, trocar de roupa, caminhar até a praia, molhar os pés e os pulsos, jogar água na nuca e mergulhar no mar, me soltar, me embrulhar nas ondas e deixar o espírito criança surgir e tomar conta de mim. Voltarei com a alma lavada.

 

Eu queria te falar tudo isso, mas você estava fora de área.

Pérolas podres

Atiram-te pérolas podres e tu as recebes como habituais. Não mais. Tens já um baú com pérolas podres que de nada te servem. Já causaram dor, já causaram sofrimento, hoje causam enfado e tristeza que tu não mais aceitas. Nada fizestes para mereceres palavras tão duras, carregadas de tamanho desamor. Não mais. As pérolas que não puderes ou quiseres devolver, serão jogadas ao vento para não contaminarem teus dias, teus pensamentos e teu ser. Em contato com o vento, as pérolas arremessadas para teus ouvidos serão transformadas em pombas brancas de paz. És forte e serás mais a cada vez que repetires teu mantra de amor. A cada vez que repelires as pérolas podres, a cada manhã que despertares e sentires que és dona de ti mesma. O teu espírito seguirá livre e forte, tuas atitudes serão positivas e teu sorriso triunfará. Ainda mais.

12 anos hoje

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Eu tive uma filha de quatro patas e pelo avermelhado que estaria fazendo doze anos hoje. Ela conseguiu tirar o melhor de mim em todos os sentidos. Fez-me rir com suas estrepolias e o olhar pidão, esteve presente nos momentos mais difíceis, queria aconchego e proximidade — e teve — e, com a cabeça deitada em minha perna, mostrava que tudo seria resolvido e a dor que eu sentia passaria — fosse o que fosse. Ela me ensinou a enxergar o mundo louco e tresloucado em que vivemos com mais gentileza. Foram muitas as histórias de companheirismo intenso e hoje sinto saudades de seu cheiro, do barulho de seus passinhos, do rebolar, da cara sonsa após travessuras, dos passeios, até mesmo do gelo que me dava quando eu descumpria algum trato ou horário costumeiro. Sinto saudades suas, Sheemarie. Esteja bem, iremos nos reencontrar.

Bala perdida

O impacto me jogou no chão, barriga para baixo, pernas em desalinho, vestido levantado, rosto arranhado no asfalto quente, tal como o líquido que escorria pelas minhas costas, mãos e pernas paralisadas pelo medo, olhos fechados pela dor. Passos apressados ao meu redor, gritos de gente desconhecida que empurrava o meu grito mudo de volta para a garganta. O tiro não tinha endereço certo, fora disparado para o primeiro alvo que cruzasse a sua trajetória e meus pulmões estavam em seu caminho. Senti um gosto de sangue em minha boca e louca vontade de tossir, impossível em minha imobilidade de terror. O socorro demoraria a chegar e eu seria mais uma estatística. Não haveria tempo de falar o que adiei, de ouvir o que deixei para depois, de olhar o céu estrelado da infância ou ver um arco-íris após a chuva. Consegui abrir um olho e enxerguei um sapato vermelho ao lado de meu corpo. Não era Dorothy.