Distância menor

A distância encurta a cada dia. Passos longos, vigorosos e mais rápidos me levam ao destino e retorno triunfante.

Hoje teve bônus: O sol, tímido, deixava um rastro de luz e, na esquina de casa, olhei para o mar e ele me chamou. Tirei tênis e meia, camiseta e short, mergulhei, furei suas ondas, voltei a ser criança.

Fonte de energia vital, o mar e suas profundezas me fizeram renovar. Voltei para casa pingando e feliz.

O Jornal nas bancas

Hoje contei: eram oito pessoas na lateral da banca, lendo as primeiras páginas de jornais pendurados: do lado esquerdo, só esportes, do lado direito, assuntos variados. Como num cinema, enfileirados, olhavam figuras sangrentas e fotos de times e liam notícias escritas no dia anterior.

Uma coisa inesperada

Até os meus vinte anos, minha vida foi programada, e parcialmente vivida, de acordo com a expectativa genética de meus antecessores. A partir de lá, tudo mudou, nada mais do vivido estava no roteiro original. Posso bem dizer que cansei de me surpreender comigo mesma e minha infinita capacidade de mudar de ideia acerca de tudo. Se eu mesma me surpreendia com minhas atitudes, o que dirão os outros que nunca estiveram dentro de minha cabeça e nem partilharam de meu espírito livre.

Casei, descasei, mudei, voltei, reatei, mudei, busquei, estudei, formei, mudei, enjoei, criei laços indissolúveis e dissolvi laços inúteis, mudei. Na realidade, para mim, tudo isso foi e tem sido vida. Arrependimentos, lágrimas e muitos momentos aos quais dou o nome de Conjunto da Obra, minha vida escolhida e roteirizada por mim, divertida para mim.

Agora, mais uma vez, sorrio, me surpreendo comigo mesma, por uma coisa inesperada. E ouço ecoar repetidamente o refrão de Gil, “Hoje eu me sinto / como se ter ido fosse necessário para voltar / tanto mais vivo / de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”.

PS: Sempre fui porque sabia para onde voltar.

Everlasting Love

Você chegou em um sábado, no mês de outubro, era dia 19. A primeira vez que o vi, através de um vidro instransponível, você esperneava com miúdas pernas, em cima de uma mesa, onde enfiavam um tubo por sua garganta para tirar o sangue acumulado em sua barriga. Foi amor à primeira vista.

Depois colocaram uma roupa branca e delicada em você e sapatos de crochê vermelhos, para dar sorte. Tinha uma carinha meio amassada, mas, a meus olhos, parecia e era um príncipe.

Seu primeiro Natal foi uma noite quente, exaustivamente quente, sua roupa empapada de suor foi colocada à parte e você dormiu com pouco cabelo grudado à testa.

O susto que nos deu com uma febre em acelerada ascensão, ficou marcada em minha memória. Era véspera do meu aniversário, eu vinha direto da praia e passei para vê-lo. Acabamos no hospital, onde após o desespero do desconhecido, e tudo ter ficado bem, cedi ao choro convulsivo. No dia seguinte, meu presente foi passar o dia com você, engatinhando e rindo e brincando como se nada tivesse acontecido na noite anterior.

Quando retornei de uma viagem, você engatinhou em minha direção na velocidade de um raio, sorridente, com poucos dentes, e consegui tirar uma foto antes de você alcançar seu objetivo, que era o meu colo, na cama.

Já muitos anos se passaram, após aquele nosso primeiro encontro, nossa primeira foto, você em meus braços e eu dizendo baixinho ao seu ouvido: “não chore no meu colo, por favor, não chore”.

Hoje, chamo por você quando você passa, e digo que tenho um segredo importantíssimo para falar em seu ouvido. Você se aproxima, relutante já pela idade, e eu falo: “eu te amo”. E você, na maioria das vezes, responde um “eu também” de forma encabulada e escapatória.

Já basta para encher meu coração de um amor sem fim, sem cobranças, sem julgamentos. Você é o meu everlasting love, que durará para sempre, aqui, lá e em qualquer lugar, juntos, perto, separados pela distância, no dia a dia, em todos os momentos.

As três metarmofoses

Foi numa tarde de 31 de dezembro, há muitos anos, que fui intimada a ler o texto de Nietzsche, Das Três Metamorfoses. Tinha que ser uma tradução específica de uma determinada editora, para que eu pudesse apreender em nossa língua, o que havia sido escrito no original alemão.

No texto, descritos, os espíritos livres e o camelo, o leão e a criança. O camelo, o espírito que suporta todos os fardos; o leão, o espírito conquistador e libertário; a criança, o espírito da inocência e do novo começo.

Esse texto me acompanha desde então. Me assombra, me conduz, me guia e me ampara a cada nova fase de minha vida, mês após mês, dia após dia. Às vezes, ele permanece escondido no livro, quando menos espero, pula em meu colo, outras vezes, quando procuro outro texto, meus olhos se fixam nele.

Suportar os fardos, manter-me livre e continuar cultivando a inocência. Ordens da irmã, que mandou-me ler o livro e do filósofo que colocou em palavras a soma do meu espírito.

Friedrich W. Nietzsche – Das Três Metamorfoses

“Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Muitos fardos pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais pesadas, pede a sua força.

“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoelha como um camelo e quer ficar bem carregado.

“O que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de suportação, “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre?

Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a própria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?

Ou será isto: apartar-se da nossa causa, quando ela celebra o seu triunfo? Subir para altos montes, a fim de tentar o tentador?

Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à verdade, padecer fome na alma?

Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?

Ou será isto: entrar na água suja, se for água da verdade, e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos?

Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele nos quer assustar?”

Todos esses pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio deserto.

Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.

Procura, ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.

Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.

“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves!”

Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim.

Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga, suportador e respeitador?

Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.

Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso, meus irmãos, precisa-se do leão.

Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de rapina e tarefa de animal rapinante.

Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina, precisa-se do leão.

Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?

Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.

Sim, meus irmãos, para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.

Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito tornou-se camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Assim falou Zaratustra. E achava-se, nesse tempo, na cidade chamada A Vaca Pintalgada”.

Texto: Assim Falou Zaratustra
Os Discursos de Zaratustra – Das Três Metamorfoses
Foto: Friedrich W. Nietzsche, 1844-1900