No dicionário

Tudo é intenso, que tem muita força, veemente.

Ah, a força! Sendo forte, é valente, robusto, substancioso, sólido, rijo, consistente. Enérgico. Pode-se dizer também vigoroso, decidido e resoluto; diligentemente ativo.

Ah, O ativo! Aquele que atua, progride, não interrompe. A não ser que o sono chegue. Ou que o zelador tranque a porta.

Sendo veemente, é impetuoso, violento, intenso, caloroso, entusiástico, frenético, fervoroso, animado, arrojado. Após duas garrafas de espumante ou nenhuma.

Se, no entanto, for arrojado pode despertar o audaz e destemido, passar o dia valente, ousado, e valoroso. Chegar à tarde arrebatado, fogoso, impetuoso, como um namorado.

Contudo se houver surpresa, sentirá um sobressalto proveniente de um caso imprevisto e rápido; experimentará admiração, pasmo e espanto. Anoitecerá um prazer com que não contava, um acontecimento repentino. Será o prazer inesperado.

Tudo nos dicionários. Tudo na vida. Um dia após o outro. Surpresa após surpresa. Espera após espera. Encontro e reencontro.

 

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O que interessa a Lenine, me interessa também.

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

Desejos para 2013

Em 2013,
Para os distantes, presença.
Para os europeus, longos braços pelo oceano;
Para os americanos, asas para os trópicos;
Para os que não vejo há muito, encontro;
Para os que vi e perdi, reencontro;
Para os não enxergo, saudade;
Para os que não entendem, compreensão;
Para as novas amizades, continuação;
Para os zangados, sorrisos gentis;
Para os felizes, eternidade;
Para os mestres, gratidão;
Para os que não desistem, firmeza;
Para os sempre presentes, amor;
Para as crianças, inocência;
Para os animais, cuidados;
Para a família, união;
Para cada um e todos, paz e saúde.

Um domingo acolhedor

Sabe aquele domingo que não é verão mas já está quente, que você olha para o armário sem saber o que vestir, e fica na dúvida se leva, de novo no braço, o casaco para passear?

Sabe aquele domingo em que o mundo invade as praias da cidade, em que línguas variadas são ouvidas no mercado, e você fica na dúvida de que sorvete comprar?

Sabe aquele domingo em que o maior dilema a ser resolvido é se sobe no táxi que conduzirá à melhor companhia ou se deita na rede que você não tem pendurada na varanda que não existe?

Sabe aquele domingo em que você é recebida de braços abertos por amigas queridas, em que joga conversa para dentro, bebe cerveja e se delicia com moqueca de peixe feita na hora por mãos de fada?

Sabe aquele domingo em que a conversa flui, mas se ficar em silêncio ninguém reclama, em que você se sente tão acolhida que poderia tirar uma soneca no sofá?

Pois é, todos os dias poderiam ser domingos assim.

Trinta anos outro dia

– Vou lá fora separar os docinhos antes que acabem – exclamei e saí da mesa onde uma caneca de chope esquentava à minha frente. Quando cheguei ao balcão, procurando os docinhos, encontrei Sabina e Rogério e senti a mesma alegria de encontro inesperado que sinto sempre que os vejo. Falamos rapidamente, eles em pé ao balcão, eu com a família me esperando. Despedimo-nos com promessas de encontros futuros planejados, escolhi os docinhos e meu irmão foi me pescar no mar de gente fora do restaurante por causa de minha demora.

Quando cheguei à mesa, fui falando animada sobre o encontro e comecei a lembrar dos últimos trinta anos. Sabina foi a minha primeira entrevistadora de emprego. Éramos muito jovens, crianças que somos até hoje. Ela psicóloga do Cantão, aplicava os testes que, àquela altura, só eram aplicados em multinacionais, e dividia a tarefa das entrevistas com uma equipe do departamento de RH. Rogério era o artista que sempre foi, responsável pelo design das campanhas promocionais da empresa e de muitas outras.

Ao longo da vida, nossos encontros sempre foram inusitados, mas muito agradáveis. Sabina foi ao meu casamento na igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, na praça XV e me disse que foi a única vez em que lá entrou. Quem nunca foi, não perca a visita. É linda.

Depois disso, saí do Cantão e fui rodar mundo. Eu trabalhava nos escritórios provisórios antes da inauguração do Cascais Shopping, em Portugal, quando ela entrou em minha sala inesperadamente. Assuntos profissionais a levaram até lá e uma não sabia o paradeiro da outra. Minha memória, que só retém coisas boas, me indica que o jantar aquela noite foi divertido, saudoso e cheio de surpresas.

Anos depois, eu estava com um grupo de amigos em viagem programada para Ilha Grande. Quando olhei o salão, achei ter visto Rogério, mas fiquei na dúvida: é-não é, vou-não vou, fui. Não só era Rogério, como era ele com Sabina, também estavam no grupo para a viagem. Diversão e riso, apesar de pouco termos nos esbarrado durante os dias na ilha.

Depois disso, eu estava na Cabritinha Vadia, um restaurante-pousada em Rio Bonito de Cima, para os lados de Lumiar, cujos donos eram o sueco Ulf e a mineira Regina, que proporcionavam inesquecíveis tardes com comida sueca-mineira e caipirinhas de maracujá, quando entraram Sabina e Rogério, com casa perto e refúgio frequente. Surpresa e mais sorrisos.

Do tempo em que trabalhamos na mesma empresa, guardo maravilhosos momentos que contei para a família quando voltei à mesa e pedi outro chope na pressão para comemorar o encontro. Um dos melhores é que certo dia, no departamento de arte, não sei como nem porquê, comentei que nunca havia provado comida japonesa. Naquela época os restaurantes eram poucos e não havia entrega em casa. Na mesma hora, Rogério mandou encomendar o almoço da galera de promoções e design em uma peixaria na rua das Laranjeiras que entregava em domicílio. Usamos a mesa larga e comprida onde os trabalhos eram apresentados para o banquete e foi a primeira vez em que segurei os hashi e comi peixe cru. De lá para cá nunca mais parei, adoro!

Da mesma forma, adoro esses nossos encontros não programados pelas cidades da vida. Eles contam um pouquinho da história que vamos escrevendo sem destino. Até o próximo.

Foto: Campeonato Redley de Body Board, camiseta e boné: arte Rogério Martins.

50 anos

Há quarenta e um anos somos amigas. É um bocado de tempo. Costumo dizer que além de amiga-irmã ela é minha biógrafa e outro dia me sugeriram testemunha, porque presenciou tanto de mim que pode ser assim denominada. Pois é, minha irmã-amiga-testemunha faz 50 anos.

Não há festa, presente ou comemoração que possa fazer jus ao meu sentimento por ela. Quando pequenas, influenciadas pelo som de nossas mães, assistimos a um show de Frank Sinatra que ninguém assistiu: nós duas, sentadas na sala em casa, disco na vitrola antiga, poucas luzes, imaginamos o show e vimos cada faixa cantada pela voz do século passado. Aplaudimos e nos emocionamos com nosso Sinatra imaginário. Anos depois, minha amiga foi com sua mãe ao Maracanã assistir ao show, enquanto eu estava de castigo pelas notas baixas na escola. Fazer o quê?

Nossa amizade começou no colégio, com empréstimo de canetas pilots e histórias em quadrinhos que ela desenhava – e que eu ainda guardo como obras de arte – retratando nossas paixonites de crianças. Uma das lembranças mais ternas que tenho é ela caminhando, magrinha, com uma mochila retangular vermelha enorme presa às costas. Não sei como não caía para trás, mas a fotografia era bela. Juntamente com outras amigas, na hora do recreio costumávamos reproduzir as novelas da TV e minha irmã dizendo que ia “tomar um birinaite no meu cafofo” era arrasador.

Passamos juntas parte da adolescência em Friburgo, dividindo sonhos, músicas, quartos, menos namorados. Nesse quesito nossos gostos sempre foram muito diferentes e muito debatidos. Esses meninos ocuparam muito tempo de nossas conversas pela vida afora.

Já adultas, nossas noites regadas a vinho e música causavam certo ciúme em maridos e namorados, mas nada que abalasse qualquer relação. Durante alguns anos, vivemos separadas por milhares de quilômetros, por um oceano, por uma centena de quilômetros e hoje em dia por alguns bairros. Sinto-me muito privilegiada de poder encontrar minha amiga sempre que a vida corrida permite.

Choramos juntas, eu por sua mãe, ela pelo meu pai. Choramos separadas por amores perdidos, mas rimos mais que tudo na vida, um riso sem fim, de pura alegria, de deboche, dos outros e de nós mesmas. Após quarenta e um anos juntas, a coluna dos risos é infinitamente maior que a do choro.

Minha querida faz 50 anos e eu me sinto privilegiada de ter tido tanto dela em uma só vida. Sua generosidade, sua capacidade de amar, seu desprendimento, seu perdão, sua vontade de dizer não e sua impossibilidade de fazê-lo. Seus passos largos, sempre apressados, sua juba leonina balançada ao sair de casa, suas ideias, sua capacidade de resolver quase tudo para quase todos, sua conversa, sua amizade e seu amor. Eu a amo desde nossos nove anos e será sempre assim até o fim.

Parabéns, minha irmã. Você me faz ser um pouquinho melhor por existir.