O casal mentira

Tudo aconteceu muito rápido, eles se conheceram e não gostaram um do outro. Mesmo assim, em menos de três meses estavam casados e foram morar em um apartamento, em Copacabana, que ambos detestaram à primeira vista. Ele a achava feia, sem graça e meio pançuda. Quando falava com ela dizia que era a mulher mais sensual do mundo. Ela acordava mais cedo para não ter de enfrentar o bafo de onça do marido descabelado. Seguia para um banheiro e só saía depois de ouvir correndo a água do chuveiro do outro. O café da manhã era o primeiro festival de mentira do dia. Ele a chamava de chuchuzinho e ela respondia com um sorriso encaretado que ele era o seu ursinho careca.

O casal mentira seguia cada um para o seu trabalho, um oásis no meio do conto assombrado que se propuseram a viver. À noite, quando se reencontravam, o festival esquentava, ele ligava a TV para um futebol e perguntava se ela queria ajuda na cozinha. Ela seguia para os afazeres do jantar e respondia que apreciava a companhia do marido, mas preferia a cozinha na solidão. Tudo mentira. Ele não queria entrar na cozinha e ela não queria a sua companhia. Se um dos dois resolvesse falar a verdade, haveria congelamento de expectativas e gestos.

Quando terminavam a noite na cama, o festival atingia o ápice. Ele era sem paciência e ela era demorada. Revezavam nos gozos sem combinação. Um dia ele perseverava na pançuda, no outro ela fingia bem fingido para acabar logo e o urso descansar. A mentira era a verdade da vida dos dois, até certo dia em que ela perdeu a hora e ele acordou com gosto de menta. Levantaram juntos, ele entrou na cozinha e a ajudou a fazer café, saíram ao mesmo tempo para  trabalho e quando voltaram à noite, pediram a separação ao mesmo tempo. Para eles, viver na mentira havia sido mais fácil.

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Chegada

Desde todo o sempre havia imaginado o que sentiria, como seria a sua chegada. Imaginava cenas, contava passos, trocava olhares, antecipando a sensação do momento, antecipando a emoção sentida.

Desde o início, senti que seria meio mágico, meio trágico; senti que seria tudo ou nada, não seria meio termo. Sentia as cores, ouvia sons que fariam parte do momento; tudo seria marcado pela espontaneidade, de acordo com o imprevisível, em parceria com o desconhecido.

Desde o primeiro momento, sua chegada era aguardada, ansiada, precisada. Muito tempo depois de partir foi que encontrei seus olhos, olhei no fundo mais fundo de seus olhos e o vi, o enxerguei. Olhamos-nos rapidamente, balançamos a cabeça e soubemos, então, que nossas vidas estariam para todo o sempre ligadas de alguma forma forte e única de nós mesmos.

Quando vi seus olhos me olhando, febris, insones e incendiários, não consegui desviar, não consegui deixar de olhar. Quando entendi que nada compreendia, que não aceitava, abaixei meus olhos para mim mesma, debrucei sobre meu íntimo, descobri minha alma e viajei por lugares não visitados, revisitei lugares conhecidos, que na aurora de meus dias me impulsionaram para a frente e me fizeram crescer.

Quando pegou minha mão e entre seus dedos esquentou os meus, energia forte, ouvimos sons e trovoadas internas sacudiram a razão da impossibilidade e nos deixaram a sós, a decidir nosso tempo, a descobrir ou tentar descobrir o que viria pela frente.

Hoje, quando volto aos lugares conhecidos de tanto tempo, não sei ao certo se tudo não passou de um sonho que ainda vivo, ou se é a vida de verdade que vivo como se fosse um sonho, por vezes manchado de escuro, uma sinfonia inacabada, um sax a me guiar o caminho de volta a superfície.

Desejo 2

No momento em que você me olhou de volta, com a entrega estampada em seu rosto, eu soube. Você não voltou, chegou. Chegou a um lugar há muito procurado, há tanto almejado. Seu olhar foi de eternidade no minuto, olhar de súplica, desejo e promessa. Você me olhou de perto, bem perto, pela primeira vez, e não houve sombra ou dúvida, estava dito pelos seus olhos. A partir dali, tudo foi encaixe, quando eu segurei sua mão, perguntei porque demorara, quando envolvi seu corpo com meus braços, aconcheguei meu rosto no seu e beijei sua boca com intensidade e delicadeza. Meu beijo tinha gosto de vinho conhecido, tinha gosto de beijo novo, tinha gosto. Meu gosto. Você estremeceu e sorriu para mim, um sorriso só meu. Segurei seus cabelos e seu pescoço com firmeza, olhei de volta para você e mostrei que seu lugar era lá, perdida em meu abraço. Ou encontrada, em meus braços.

Madrugada

Acordei no meio da madrugada escura com as cortinas balançando ao vento que soprava pela janela aberta. Décimo andar de vizinhança concreta, o cheiro da maresia me invadiu completamente. Perfume de mar tomou conta de mim e eu me vi flutuando por cima dos prédios para mergulhar nas ondas de Copacabana. Virei para o lado e adormeci embalada pelo aroma de minha infância.