Meu carro perdeu seu charme. Após seis anos carregando garboso a placa da serra, sendo único em minha garagem, minoria no meio do trânsito caótico da cidade grande, perdeu sua identidade, rasgou minha fantasia, ficou comum junto a tantos. Agora pode-se identificá-lo pelo número, pelo amassado na mala, pelo interior, mas não mais por sua tarjeta indicativa da cidade em que viveu e onde sonhou tanto. Agora, quando subir a serra, terá dúvidas nas curvas e não mais despertará inveja nos outros automóveis, tão turistas quanto ele. Não mais será tratado com reverência, como filho da terra, como conhecedor de todas as estradas que levam ao paraíso. Será mais um para atravancar as ruas estreitas em feriados, mais um usurpador da tranquilidade alheia. Após a tarjeta de sua placa ter sido arrancada sem cerimônia pelo sujeito truculento, apenas dois elos me ligam à serra de minha vida.
Tag: Crônica
A Mesma História
Fontes seguras informam sem hesitar,
Dizem as más línguas,
Que na travessia do hemisfério Sul para o Norte
Que no voo internacional São Paulo-Miami,
Após uma semana de comemorações inesquecíveis,
Após uma semana enchendo a cara de cachaça,
A moça bonita, delicada e cheirosa,
A bebum farrista com hálito de álcool,
Que não consegue descansar em aviões,
Que nunca dorme naquela caixinha infernal de poltronas apertadas,
Encontrou uma posição confortável,
Encostou no ombro da velha gorda sentada ao lado,
E adormeceu serenamente.
E dormiu de roncar e babar no ombro da velha.
Mais tarde, foi gentilmente acordada pela doce aeromoça,
Lá pelas tantas, foi sacudida pela aeromoça impaciente,
Perguntando se a moça bonita estaria com fome,
Perguntando se a bebum queria comer,
Servindo, em seguida, um apetitoso jantar.
Entregando, em seguida, uma gororoba inominável.
No momento do jantar,
Para comer a gororoba,
A moça bonita saiu de sua posição inicial e esticou os braços, suspirando,
A bebum desencostou da velha resmungona e se espreguiçou, bocejando alto,
E calmamente apreciou o banquete.
E se atracou com a comida que não via há mais de doze horas.
Terminado o serviço de bordo,
Terminado o corre-corre das aeromoças,
A moça bonita e cheirosa se acomodou novamente para descansar.
A bebum com cheiro de álcool desmaiou novamente no ombro da velha gorducha.
Ao chegar em seu destino,
Quando chegou,
A moça bonita e cheirosa,
A farrista alcoolizada,
Espantada, exclamou em doce voz:
Espantada, berrou:
“Nossa, é a primeira vez que consigo adormecer por tanto tempo em um avião!”
“Putz! É a primeira vez que consigo desmaiar durante o voo.”
“Também… Fiquei tão cansada durante a semana…”
“Também… Bebi todas durante a semana!”
Vinte anos sem nós
E num piscar de olhos os anos voaram, passaram sem que sentíssemos, sentindo minuto a minuto que não estávamos ali onde éramos suposto estar. Não há fotos, não há lembranças, não há momentos passados, não há risos inesquecíveis. Não estivemos juntos nos casamentos, nascimentos, no crescimento, não vivemos.
Vinte anos sem nós mesmos. E agora, o outono, já no inverno, tentamos rir o que ficou preso, beber os brindes não feitos, até cair, literalmente, no chão, rolados da cama. Somos carregados no colo das emoções não vividas e choramos novamente quando o tempo voa e é hora de partir. Cada um em um canto do planeta, tentando reconstruir em breves reencontros o lego familiar que ficou sem telhado.
A lacuna irrecuperável em nossa linha da vida, essa jamais será preenchida, já passou e não estávamos lá.
Juventude
Ele cruzou o portão principal da universidade em cima de uma bicicleta comum a caminho de casa. Vestia longas bermudas cáqui e camiseta marinho, mochila colada nas costas e cabelos louros curtos balançavam enquanto pedalava contra o vento. Não devia ter mais do que dezoito anos e acompanhei seu trajeto jovem, sentada ao volante de meu carro. Passou embaixo do viaduto, subiu na calçada, onde não há ciclovia e esperou no sinal fechado, como todo mundo. Era a personificação do futuro. Bonita figura do nascer de um homem. Belo exemplar físico do que gerações de cruzamentos variados criaram para o século XXI. Parado no sinal, passou as mãos pelos cabelos e ergueu o torso da incômoda posição das pedaladas. Parado no sinal, esperando como todos, fez planos para o show de logo mais, para o encontro com os amigos, de qual caminho tomar. Avançou antes dos carros, na liberdade de seu meio de transporte, com a inquietação dos vinte anos. O mundo pertence aos vinte anos, nada de mal acontece, a estrada ainda é longa e avançar o sinal faz parte do cotidiano carioca de todas as idades. Seguiu na calçada já com ciclovia e continuou sem esforço, sem pressa, pedalando ao sol dos últimos dias de verão. Imaginei o que faz quando chove. Pega um ônibus? Porque, mesmo que tenha carro, não tinha o perfil de quem se tranca dentro de quatro portas com um motor. Suas pedaladas são sua liberdade, seu caminho, seu desvio. Não… mesmo quando chove, usa a bicicleta. Chega molhado e ri, espera embaixo da marquise, mas não abdica de seu livre pedalar. Acompanhei-o curiosa por mais algum tempo, até que ele virou à direita e eu segui para a Lagoa.
Um dia casei
Um dia casei. De verdade, assinei papéis, conversei com o padre, jurei amor eterno. Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, Praça XV do Rio de Janeiro, o gráfico que imprimiu os convites, orgulhoso, quis escrever o endereço todo só para usar os algarismos romanos da praça. Casei de branco, vestido lindo e véu moderno, esperei no carro dando voltas no quarteirão para chegar na hora marcada para os sinos badalarem. Sempre adorei sinos de igreja. Ainda paro para ouvi-los. No sinal, um menino de rua se aproximou do carro para pedir uma moeda e me viu, naqueles tempos os carros não usavam o filme escurecedor de vidros que hoje em dia carregam. Ele me viu e o sorriso que deu ao murmurar maravilhado: – uma noiva!… carrego comigo até hoje (terá sobrevivido à vida nas ruas?). Quando o carro arrancou, deu um tchau e correu de volta para sua calçada. Noite estrelada, sem riscos de chuva ou trovoadas, meio de junho de um ano perdido lá atrás. As portas imensas da igreja fechadas, convidados lá dentro, alguns do lado de fora ajudavam a arrumar o vestido, quarenta metros de tule embaixo da saia rodada, lindo vestido, quando o estilista desenhou para mim, veio com meu nome escrito. Era simples e chique, sem rendas ou bordados e com uns cem mini botões do decote à barra. Um laço imenso, atrás, dava um toque bem da época. O estilista e o irmão já morreram faz tempo, os dois de aids, em épocas próximas. Uma tristeza, eles eram ótimos. Minha prima veio do sul com uma roupa de parar o trânsito e uma história que até hoje arranca gargalhadas de quem ouve. As músicas todas trocadas, nada que havia sido combinado, acabei entrando com a que falei que não queria de jeito nenhum, porque me lembrava programa de auditório da minha infância. Nervosa do jeito que eu estava, ainda assim ouvi a música tocada-trocada. Meu pai me conduziu pela nave, parecia um deputado em eleição, orgulhoso, cumprimentando o povo, em direção a um noivo sorridente. Nada do que se faz hoje em dia eu quis, achava cafonérrimo: não quis cortejo de padrinhos, não quis desfile de convidados e se pudesse, acho que teria entrado pela sacristia. Não quis pétalas caindo na cabeça, não quis fotos no altar e as músicas que quis não tive. Houve uma época em que não se podia usar música popular em casamentos na igreja, e as opções eram poucas para meu gosto de então. O padre, amigo da família, fez uma missa emocionada que só fui assistir no vídeo, claro. E, tempos depois, meu irmão distraído gravou gols por cima na fita, cortando toda a entrada e minhas lágrimas de nervoso. No altar, uma madrinha de preto. Eu havia pedido: preto, branco, vermelho, roxo, não! Lá estava ela, vestida de urubu. Outra madrinha deu o cano na hora, um padrinho ficou sozinho no altar. Dos quinze, só restam cinco em minha vida. Os queridos morreram, os outros desapareceram na bruma da estrada. Na saída, acho que a tropa do altar veio atrás de nós dois, mas aí já não importava mais. Os cumprimentos demoraram anos, e eu lembrava de minha outra prima que dizia que colocaria um boneco agradecendo quando chegasse sua vez. Lembro vagamente da festa em seguida, sem música porque também achava cafona casamento com música. E naquele tempo era música, não era o funk de hoje em dia… O matrimônio não durou muito, mas a cerimônia, proporcionada por meus pais, perdura até hoje. É uma lembrança linda, que carregarei comigo.
Igreja e Deus
Sobre o Brasil de um modo geral, o que mais me deixou – e à minha família – estarrecida, católica por formação, mas seguindo o que considero, livremente, os mandamentos de Deus e não da Igreja, foi a polêmica em torno do aborto da menina de nove anos, estuprada pelo padastro, e as declarações daquele homem sem espírito cristão que atualmente ocupa o arcebispado de Recife. Mandou muito bem Merval Pereira em sua coluna de sábado.
Sexta fui a uma missa, encomendada (e paga, lógico) em memória de dez anos de morte da mãe de minha irmã e a homilia do padre foi na defesa da excomunhão dos médicos e equipe! Primeiro, a inadequação do tema ao motivo da missa; segundo a virulência das palavras do padre, que levavam em consideração o ato isoladamente – o aborto autorizado pela justiça – sem levar em consideração as circunstâncias, ou o risco de vida para a menina. No meio do discurso medieval, indignada, fechei olhos e ouvidos e comecei a rezar para minha família, amigos e mesmo para a menina e sua família.
Quando ele terminou, abri os olhos e fixos nele, pensei: esse padreco vai enumerar os requisitos para a comunhão. Não deu outra: Há mais de vinte anos eu não ouvia os “deveres” para poder comungar em uma missa e ele mandou: “os que quiserem receber a Comunhão, devem estar há mais de uma hora em jejum, devem ter se confessado e devem estar em conformidade com os mandamentos e leis da Igreja”.
Bom, pensei: o jejum já tinha horas e a fome começara a bater; confessar, eu me confesso diariamente em minhas orações e em conformidade com os Mandamentos e Leis de Deus, estava. A Igreja é dos homens. Deus é outra conversa. Preenchi os requisitos. Comunguei.
MPV – março 2009