A casa de minha infância

A casa de minha infância tem paredes brancas e janelas de peroba-do-campo que meu avô não deixou pintar. A casa de minha infância tem portas almofadadas, lareira com lenha que queima azul para todo mundo olhar como uma T antiga, tem a poltrona do Fasanello que foi consertar e nunca mais retornou, tem mesa comprida com feijoada, arroz soltinho, couve temperada e canjiquinha que minha irmã adora. Na casa de minha infância comemos bolo de chocolate e meu irmão devora seus bombons com recheio variado, embalados em papéis coloridos. A casa de minha lembrança abre seus braços imensos e acolhe a família vinda de longe e amigos de todas as tribos. Na casa de minha lembrança o sol sempre brilha, mesmo entre a bruma da alvorada, aquece corações, pernas, braços e cervejas. A casa de minha infância guarda a trilha da cachaça, desbravada corajosamente pelo meu avô, aos risos escondidos das crianças. Na casa de minha lembrança o jipe atola na lama e só os mais fortes conseguem raiar o dia gargalhando dessas dificuldades. Na casa de minha infância desfilam os personagens da história – veludão azul marinho, a prima enxugando a calça debaixo do chuveiro, o timbau que chora muito antes de Brown se mostrar ao mundo, a estrelinha que pisca, mas não apaga, a avó de maiô marrom, fazendo pose de Bardot descoberta, a mãe linda, loura e poderosa ao sol, o pai com um livro na sombra, impedindo aproximação aventureira, o irmão que joga bola com os homens, o cão fila de 96 quilos, chamado delicadamente de Lobo. O mau. A casa de minha lembrança dorme hoje o sono tranquilo de missão cumprida, mas os ecos familiares vagueiam por aqueles campos para sempre nossos.

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50 anos

Há quarenta e um anos somos amigas. É um bocado de tempo. Costumo dizer que além de amiga-irmã ela é minha biógrafa e outro dia me sugeriram testemunha, porque presenciou tanto de mim que pode ser assim denominada. Pois é, minha irmã-amiga-testemunha faz 50 anos.

Não há festa, presente ou comemoração que possa fazer jus ao meu sentimento por ela. Quando pequenas, influenciadas pelo som de nossas mães, assistimos a um show de Frank Sinatra que ninguém assistiu: nós duas, sentadas na sala em casa, disco na vitrola antiga, poucas luzes, imaginamos o show e vimos cada faixa cantada pela voz do século passado. Aplaudimos e nos emocionamos com nosso Sinatra imaginário. Anos depois, minha amiga foi com sua mãe ao Maracanã assistir ao show, enquanto eu estava de castigo pelas notas baixas na escola. Fazer o quê?

Nossa amizade começou no colégio, com empréstimo de canetas pilots e histórias em quadrinhos que ela desenhava – e que eu ainda guardo como obras de arte – retratando nossas paixonites de crianças. Uma das lembranças mais ternas que tenho é ela caminhando, magrinha, com uma mochila retangular vermelha enorme presa às costas. Não sei como não caía para trás, mas a fotografia era bela. Juntamente com outras amigas, na hora do recreio costumávamos reproduzir as novelas da TV e minha irmã dizendo que ia “tomar um birinaite no meu cafofo” era arrasador.

Passamos juntas parte da adolescência em Friburgo, dividindo sonhos, músicas, quartos, menos namorados. Nesse quesito nossos gostos sempre foram muito diferentes e muito debatidos. Esses meninos ocuparam muito tempo de nossas conversas pela vida afora.

Já adultas, nossas noites regadas a vinho e música causavam certo ciúme em maridos e namorados, mas nada que abalasse qualquer relação. Durante alguns anos, vivemos separadas por milhares de quilômetros, por um oceano, por uma centena de quilômetros e hoje em dia por alguns bairros. Sinto-me muito privilegiada de poder encontrar minha amiga sempre que a vida corrida permite.

Choramos juntas, eu por sua mãe, ela pelo meu pai. Choramos separadas por amores perdidos, mas rimos mais que tudo na vida, um riso sem fim, de pura alegria, de deboche, dos outros e de nós mesmas. Após quarenta e um anos juntas, a coluna dos risos é infinitamente maior que a do choro.

Minha querida faz 50 anos e eu me sinto privilegiada de ter tido tanto dela em uma só vida. Sua generosidade, sua capacidade de amar, seu desprendimento, seu perdão, sua vontade de dizer não e sua impossibilidade de fazê-lo. Seus passos largos, sempre apressados, sua juba leonina balançada ao sair de casa, suas ideias, sua capacidade de resolver quase tudo para quase todos, sua conversa, sua amizade e seu amor. Eu a amo desde nossos nove anos e será sempre assim até o fim.

Parabéns, minha irmã. Você me faz ser um pouquinho melhor por existir.

Friburgo

Friburgo faz parte da minha vida desde minha infância. Fui apresentada à cidade por meus tios e primas, quando o Banco do Brasil achou que lá seria o primeiro posto da carreira de meu padrinho. Tenho fotos em preto e branco, brincando no quintal com as primas, andando de charrete puxada a bode na pracinha, só não tenho dos cavalos, porque morria de medo deles.

Quando meus tios/padrinhos se mudaram de Friburgo para Brasília, o lado daqui da família já estava enamorada da cidade, a melhor, maior e mais bonita das serras do Rio de Janeiro e lá construímos uma parte importante de nossas vidas.

Naquele tempo, a viagem era uma “viagem”, pegávamos o carro e meu pai escolhia qual o caminho a seguir: íamos até à praça XV, onde pegávamos a balsa de automóveis, atravessámos a baía em direção à Niterói, seguíamos pela Alameda São Boaventura em direção a Itaboraí, chegávamos à Rio-Friburgo e subíamos a serra dos nossos sonhos; ou seguíamos para Caxias, rodávamos pela Rio-Teresópolis, entrávamos em Parada Modelo, chegávamos a Cachoeiras de Macacu, passávamos pela casa com persiana do lado de fora da janela e subíamos a serra dos nossos sonhos. A ponte Rio-Niterói ainda não existia.

Na maioria das vezes, a viagem era feita à noite, com o céu cada vez mais estrelado, conforme nos afastávamos das luzes da cidade grande, e eu deitava esticando o pescoço para olhar pelo vidro traseiro do opala e imaginar quem vivia naquelas luzes distantes. Era uma diversão, quando criava histórias de pura magia.

Nos álbuns de fotografias familiares, não há uma data sequer que não tenhamos passado em Friburgo, férias, feriados, nascimentos, mortes, aniversários, começos, descobertas e recomeços. Posso dizer que minha vida, com intervalos, foi passada na cidade, onde ri, chorei, namorei, brinquei, perdi e achei.

Muito tempo depois das andanças de charrete, no meio de umas férias, a família foi a Porto Alegre para os quinze anos de minha prima que, àquela altura, já tinha se mudado mais uma vez por causa de meu padrinho. Era 1979 e quando retornamos à cidade, o impacto visual que tivemos, dias depois da inundação, após chuvas de verão, foi impressionante. Quando chegamos, as ruas já estavam lavadas, o comércio funcionava normalmente, o carnaval estava confirmado, mas a imagem do fusca laranja acorrentado ao poste na Avenida Comte. Bittencourt, perto do Paissandu, ficou marcada para sempre.

Isso foi há 32 anos e ano sim, outro também, vivemos chuvas, inundações e desabamentos de menor ou maior grau. Entre 2003 e 2008, os verões vividos em Friburgo deixaram chuvas, incômodos e alguns estragos. Em 2007, no dia 10 de janeiro, saí de carro e máquina na mão, fotografando a destruição das chuvas de dois dias antes. Revi essas fotos hoje, dia 13 de janeiro de 2011, dois dias depois de uma tsunami pluvial ter arrasado a cidade de minha vida inteira.

Essas chuvas começaram na noite de terça-feira e desde ontem as poucas notícias que leio, ouço e vejo sobre Friburgo são escritas nos pretéritos perfeito e imperfeito, o que me causa uma incômoda estranheza. A cidade está lá, debaixo de lama e detritos, mas está lá. É tempo presente. Ontem consegui falar ao telefone (fixo, os celulares estão fora do ar) e saber algumas notícias, hoje não mais: só ouço aquele tum-tum-tum indefinido de telefone inexistente. A cidade está sem luz, sem água, sem telefones, sem internet, o comércio está fechado, imagino que minha sobrinha não tenha tido aula novamente, mas não consigo falar com ela. A TV não mostra, nem menciona os arredores do centro de Friburgo, o que só aumenta a aflição. Os jornalistas sabem que existe algo além da Praça Getúlio Vargas e do teleférico no Suspiro, se não mencionam é porque nada aconteceu, ou não conseguem chegar lá? Sumidouro entrou na soma dos mortos. E Bom Jardim, Lumiar, São Pedro, Macaé de Cima, Duas Barras? Conselheiro Paulino, Braunes, Cônego, Amparo? Como estão essas localidades e bairros?

No momento em que escrevo, estão ao vivo, na TV, o governador do estado e a presidente do país. Relatam o que já foi relatado, prometem o que já foi prometido, citam prefeitos antigos negligentes, chamam-nos de populistas (?!), discordam de percentuais de repasses de verba em listas de ONGs que acompanham os gastos públicos e comprometem-se com a prevenção unida à reconstrução.

Quem acredita?

Bom… Após nove horas tentando, consegui falar com um número fixo de telefone. Minha sobrinha continua bem, a família em choque, mas com saúde e unida. Acompanharemos os próximos dias e, apesar de já ter vivido muito nesse país, uma parte de mim ainda precisa ter esperança de que algo mudará.