80 dias

Em alguns momentos, parece que foi ontem, nós assistindo Bravura Indômita, último filme, último western, último programa juntos. Em outros momentos, parece que ele viajou há meses, mas chegará a qualquer momento. A saudade já se sentou em meu coração, mas a dor passeia pelo corpo, cada madrugada escolhe um órgão para alfinetar.

Os planos de vida são refeitos, as brigas de rua (com empresas e gente sem vergonha e sem coração) são resolvidas na insistência ou no grito (na Justiça), as datas significativas são atordoadas com família e amigos que nos dizem sim, os hábitos diários são modificados e todos temos que nos adaptar a uma nova fase que nos foi imposta sabe-se lá por quem que levou meu pai embora antes no nosso tempo.

Saldo do período: 80 madrugadas interrompidas, 240 horas de lágrimas, 1.200 suspiros, 4 dias de dor no pescoço, 2 dias de dor na perna, 40 dias de dor na coluna, 15 problemas resolvidos, 3 problemas encaminhados, 2 por finalizar e 1 briga na justiça, 11 datas familiares já vividas, 10 ainda por vir, 3 quilos de peso a mais, 10 unhas roídas, 1 cabelo cortado, 80 dias de hoje conseguirei, 130 telefonemas para o Sul, 2 consultas médicas, muitas outras por marcar. 27 notícias de jornal à espera de comentários e conversas interessantes que nunca teremos, 80 dias de vamos em frente, seguidos de 80 noites de ainda não acredito.

Feliz aniversário

Esta noite o sono foi intermitente, até que chegou o momento da desistência. O corpo reclamará em algumas horas, mas não houve o que fazer com a cabeça desperta. E então? Como será o dia de hoje? 11 de abril, lembra? Muitos anos atrás, consegui convencê-lo a comprar uma girafa de plástico vendida pelos ambulantes na praia, com a desculpa de ser um presente para meu irmão recém-nascido, com a cara amarrotada no colo de mamãe na maternidade. Ele até que era bonitinho, meio chorão, com perninhas inquietas, um ser divertido, quase um de meus bonecos, a não ser na hora de trocar aquelas fraldas – ainda de pano. Você o iniciou no gosto pelos esportes e não pôde fazer nada quando o menino de oito, nove anos assistiu a ascensão do Flamengo como melhor time e resolveu que não seria América como o pai. Todas as noites, você chegava do trabalho, girava a chave na porta e chamava: “Cadê meus filhos? Cadê minha mulher?” e apostávamos corrida para ver quem chegava primeiro para o abraçar. Enquanto o jantar era preparado, você e meu irmão jogavam gol a gol com o dado de espuma no corredor e ele vencia a maioria das partidas. Era até engraçado ver seus frangos no gol minúsculo. Jantávamos os quatro à mesa e conversávamos sobre o dia vivido. Pequenas lembranças diárias de nossa vida em família. Os dias 11 de abril eram comemorados com bolos e festas simples, em casa, com amigos e família. Os carrinhos matchbox, bolas e camisetas dos times de futebol estavam entre os presentes preferidos e mais frequentes. Isso não o impedia de assaltar minha caixa de sapatinhos de bonecas e atirá-los pela janela em um jardim espinhoso, por pura arte de meninote, implicando com a irmã. E quando ele fez quinze anos, lembra? Fizemos uma festa surpresa, ele ganhou um relógio de presente e você inventou que iríamos jantar fora, em um restaurante no Leblon, apesar de morarmos na Barra. Família no carro, quando chegamos em frente ao restaurante, você perguntou onde estava a sua carteira. Mamãe disse que estava em casa, teríamos que voltar. Tudo combinado com a família e os amigos, entramos na casa apagada e ele viu um vulto, achou que era ladrão, tirou o relógio novo do pulso e colocou no bolso, com medo da perda. Grande surpresa quando viu todos que o esperavam. Foram muitos dias 11 de abril em anos passados que estivemos juntos, jantamos juntos, rimos juntos, fizemos fila para os parabéns matinais, com a cara amassada e o cabelo desfeito. Acho que você era quem mais gostava dessa fila de parabéns. Este ano, Búbi fez uma surpresa para ele, com nosso apoio logístico e desculpas. As crianças insistindo na saída e quando eles entraram na reunião, foi o mesmo menino surpreso de anos atrás que sorriu sem jeito. Hoje, mais um 11 de abril, jantaremos juntos em casa, primeira vez sem você em mais de quarenta anos, tentaremos não chorar, faremos um ambiente agradável, faremos tudo para ser um feliz aniversário para seu menino.

O samba de uma só nota

Virou o mês, abril chegou. Em restrospectiva, março praticamente não existiu. Sim, mamãe fez aniversário enquanto ainda estávamos todos embriagados de álcool e emoção triste. Sim, entreguei a monografia empurrada por Sandra, Lis, Mic, Bal e ajudada por Lu Claro no final. Sim, fomos ver a expo do Escher, capitaneados por Búbi. Sim, nos entupimos de bolinhos de carne do Real chopp graças a meu irmão. Sim, Pedro e Gabi conseguiram arrancar sorrisos esquecidos em nossas almas. Sim, Shee nos obrigou diariamente a sair de casa, qualquer que fosse o tempo. Sim, Verinha, Bell, Rico, Tite, Mary, Luíza, Lolô, Dídi, Renata telefonaram. Bal me tirou de casa no timing perfeito para tomar sorvete. Cete bateu o ponto, ou melhor, todos os pontos. Álvaro contou causos. Marcio e Cris, Leda e Malcher continuam ajudando de todas as maneiras. Regina, Soninha, Carminha, Malu dão força para mamãe.

Tenho me deparado com pessoas e empresas usurpadoras. (No Houaiss: transitivo direto e bitransitivo – apossar-se de ou tomar (algo) pela força ou sem direito) Sim, elas existem. Sim, são quem menos se espera. Sim, elas dormem à noite. Conseguem manter a frieza diante da dor alheia e se apropriam do fiapo de força que nos resta. Sim, quando já estamos nos esquecendo, elas reaparecem. Sim, estou pensando em começar a mandar os palavrões por escrito. Ouço você: “calma, filhinha.”

Mesmo assim, a sala já está praticamente arrumada. Os livros estão na estante, as roupas guardadas, quadros pendurados, cafofo cheio de prateleiras, armários abarrotados de mudança. Mais de vinte caixas com roupas, louças, utensílios e livros já partiram para melhores destinos.

É no centro da cidade que tudo é resolvido e ele se tornou minha peregrinação exaustiva. Tive que ir ao seu escritório e sua mesa estava vazia. Em seu elevador, ouvi a conversa de uma moça com seu pai, combinação de encontro na fazenda. Quase escorreguei para o chão. Nos lugares que você frequentava por outros motivos e aos quais sou obrigada a ir agora, me falam de você com saudade e admiração. Minha peregrinação tem sido uma prova de força. Quando chego em casa, tomo um banho e desabo, em frente à sua fotografia que nos observa e nos guarda. Ouço novamente: “calma, filhinha.” Encontrei cartas e cartões seus para nós três. Li suas cartas enviadas para Portugal. Em todas você menciona vinhos, empadinhas, pastéis e menus preparados por mamãe. Poderíamos tranformá-las em seção de revista de gastronomia.

Ainda falta coisa. Falta separar os exames de saúde inúteis agora e arrumar a mesa de jantar, transformada em imenso escritório para separação de documentos. Ainda falta brigar com algumas empresas que emperram nossa vida impaciente. Ainda falta descobrir que outros documentos a burocracia autenticada nos obrigará providenciar. Ainda falta descobrir como será a vida sem a sua presença.

Carta ao pai

Oi, pai,

Faz quase um mês que não nos vemos e as saudades só aumentam. Hoje elas estão maiores e gostaria de ouvir sua voz. Tem sido um mês movimentado, com tantas providências a tomar, casa para arrumar, livros para dar. Separamos muitos dos seus, mas tenho a certeza que você não vai ficar chateado, por que vão fazer bem para boas pessoas. Pessoas interessadas em leitura, como você.

Nos raros momentos em que fico só, como agora, o impulso é passar a mão no telefone e discar o seu número, ramal 16. Liguei para a caixa postal do seu celular, mas você não tem mensagem personalizada, não consegui ouvir sua voz.

No aniversário de mamãe, fizemos como você indicou no bilhete que encontramos. A pulseira dela ficou bem bonita e a família inteira participou. Acho que ela gostou, mas preferiria que fosse você a colocar em seu pulso. Só usou nos dois primeiros dias e depois guardou.

Sandra conseguiu que eu terminasse a monografia, ligou muitos dias, falamos pelo skype e finalmente coloquei um ponto final. Ficou bem longe do que eu gostaria que você lesse, mas foi o que deu para fazer. Ela é dedicada a você. Muita gente me incentivou, duas professoras e a Mic me ajudaram na formatação.

Cete arranjou toda a minha mudança, desde a embalagem à entrega aqui em casa. Leandro e Búbi passaram o carnaval aqui comigo e mamãe e trouxeram bolinho de carne e pastel de camarão do Real chopp. Foi um banquete. Bebi seu vinho naquelas noites chuvosas de Momo. Achei chato não ter você para dividir a garrafa e não teve ninguém para tentar roubar meu copo ainda cheio. Não, este ano não fui para os blocos. Não fui nem olhar. Muita chuva e saudade. Além do mais, se eu tivesse ido, com você longe, quem iria preparar os sanduíches para a filha foliã? Assisti a filmes todas as noites. De alguns você teria gostado, mas se estivéssemos juntos, eu só teria assistido aos que você escolhesse, que nem o último que vimos juntos, aquele western, lembra? Passei a gostar mais dele só por causa da sua alegria com o filme.

Muitas pessoas ligam diariamente para saber como estamos, mas acho que elas gostariam o mesmo que nós: saber como você está. Rezamos muito para que sua viagem seja tranquila, mas a falta de notícias é que faz doer.

Nesses dias de muita arrumação, temos encontrado muitas lembranças e ontem achei um cartão postal que você escreveu para o Leandro, de Madri, e os bilhetinhos que eu deixava em sua sala, quando trabalhávamos próximos um do outro. Cheguei a rir. Lembrei das suas reações. Senti mais saudade. Nas fotografias ainda não mexi. Como elas já estavam arrumadas nos álbuns e nas caixas, deixei-as lá por enquanto. Denise revelou umas fotos bem bonitas e deu para mamãe. Tem uma sua, só de rosto em que você está ótimo, com aquele semblante tranquilo que você sempre teve.

Baya, tô com saudade. Acho que ela vai aumentar.

Beijo, te amo.

Sua filha,

Sem palavras

Há dois dias, meu irmão comentou que deveríamos ter um filme para vermos, sabermos todos os que estiveram presentes conosco nos últimos dias. Quem viu quem? Quem falou com quem? Ah… Um ligou, outro enviou mensagem, uns vieram de longe, outros não arredaram pé, são tantos, foram tantos que fica até difícil agradecer as milhares de manifestações de carinho, de amizade, de amor e de luz que continuamos a receber.

É pai… Por aonde você passou, deixou um caminho de admiração, respeito e amor. Essa energia foi canalizada agora para nos dar forças e continuar sua trajetória.

A todos, amigos, conhecidos, queridos, o nosso muito obrigado por tudo. Mesmo.

Papai

Beijei sua testa ainda quente, seu cabelo carregava o perfume do dia anterior, segurei sua mão já sem a aliança, olhei para você deitado e não acreditei. Como não acredito até agora. Mamãe chorava em ondas, meu irmão telefonava com os olhos vermelhos. – Ele morreu… Como assim? Não foi isso o combinado… Foi diferente, fizemos planos, estávamos no início da execução, e agora? Continuaremos sem você, sem sua graça, sua risada, sua voz, sua presença. Que dor indescritível. Só quem já passou por ela, sabe.

Deitei a cabeça em seu ombro enquanto vários amigos chegavam para acreditar, para ajudar, para abrir e fechar portas. O médico chegou, olhou de longe para você, atestou qualquer coisa, já não fazia diferença. A família chegou e aqui está. Levaram você para uma sala, nos levaram para a mesma sala e nosso espírito ardeu com o seu corpo. Você voltou para Niterói, como pediu, nós retornamos à casa vazia, sem você. Desde então, comemos suas empadinhas, bebemos seu vinho, olhamos seus retratos, ouvimos sua voz gravada em vídeos caseiros. Desde então, rezamos para que você esteja em paz, tentamos ficar em paz, tentamos falar palavras doces uns para os outros, quando o que desejamos mesmo é mandar tudo à merda. Eu sei que você não gosta de palavras chulas, mas o momento pede. O táxi não quer parar? Vai à merda. O jornal encrencou? Merda. O copo partiu? Merda. Milhares de providências a tomar? Merda. O vizinho reclamou? Merda. Falamos alto? Esse pede a palavra que você não gostaria de ler, então não escrevo. Mas está subentendida. Toda noite, a partir da hora em que você chegaria em casa, vem alguém e nos leva para longe ou nos faz companhia, um revezamento provavelmente articulado por você. Mamãe, abalada, reclamou: – Seu pai morreu e parece que estamos em festa! A tristeza que nos assola é tamanha que só o atordoamento alcoólico nos permite dormir algumas horas a cada dia. E quando abro os olhos no dia seguinte, não acredito, fecho de novo, gemo baixinho e vem aquela onda de embrulho no estômago. O mais estranho de tudo é olhar as pessoas na rua, alheias ao nosso sentimento de perda e ver os sorrisos, ouvir pedaços de conversas, perceber que a vida continua para elas, os blocos batucando, o Flamengo campeão, tudo isso, que não é pouco, é quase uma ofensa pessoal à nossa dor. Hoje vamos vencer mais um dia, vamos nos despedir, novamente, de você. Acho que a cada dia, iremos nos despedir um pouquinho de você, já que você não estará sentado na cabeceira, não dará sugestões, não estará presente para ver os netos crescerem. Dizem que nós nos acostumaremos com sua ausência, mas a saudade só crescerá. Não é um prognóstico positivo, uma vez que a saudade já é imensa. Vamos. Um dia de cada vez.