O amigo de meu Pai

Mais uma tarde à frente do computador, minha mesa na última sala do instituto de cultura, onde eu trabalhava já há alguns anos. Sentada de frente para a janela, assistia ao vai e vem frenético dos carros, dos ônibus, do trânsito na rua Primeiro de Março, no centro do Rio. Uma distração da burocracia diária, um passeio para o espírito.

De lá, assisti a passeatas, discussões, atropelamentos, emissoras de tv e rádio brigando por um espaço em frente ao prédio, quando havia julgamentos que mobilizavam o público. Mobilizavam, não, mais interessavam, como uma novela que se desenrolava ao vivo. Uma selva urbana das melhores e eu de camarote.

Como era um instituto com associados, as visitas eram constantes. Alguns pedidos, alguns passatempos, conversas que o tempo levava embora. Alguns funcionários, atendíamos, ouvíamos, conversávamos.

Eu olhava pela janela,distraída, naquela tarde ensolarada, ar condicionado no máximo, quando ouvi aquele tão conhecido e carinhoso cumprimento, quase diário: “oi, minha filha.” “oi!” – levantei-me. Era ele, o amigo de meu pai, que se tornara meu amigo, meu tio, meu companheiro de trabalho, grande conversador e contador de causos.

Ele vinha com uma novidade e um sorriso de menino que iluminava seu rosto. Havia feito, gratuitamente, na clínica top de um amigo, um check-up completo. Passou um dia na clínica, milhares de exames e trazia uma pasta com todos os resultados, mostrados um a um, após o detalhamento das instalações da clínica, maravilhosas.

A partir do momento de sua chegada, a tarde estava perdida para o trabalho, porque conversaríamos muito, mas ganha para a vida, que é o que na verdade importa. Todos os que entraram na sala, naquela tarde, com diferentes graus de intimidade, viram os resultados dos exames feitos na clínica top.

Como algo tão prosaico como a realização de exames, poderia criar aquele sorriso contagiante de inocência perdurada?

Ele era assessor especial da presidência do instituto, por isso estava sempre por lá. Levava amigos, apresentava, ia sozinho, mas sempre ia. E quando aparecia, como naquela tarde, o dia mudava de cor. Os problemas desapareciam e eu ficava horas ouvindo os causos que começavam lá atrás, na Presidência da República e passava pelos anos da ESG, do Lions, do ECC, do TJ e de muitas outras siglas. Eram causos e amigos que ele ia juntando pela vida, sempre com o sorriso de menino.

A última vez que vi esse sorriso, ele estava no hospital. Casa cheia, entrava um, saía outro, como sempre fez. Despreocupado, como se aquele momento fosse mais um, entre todos, que entraria para o rol da estórias a serem contadas mais tarde.

Não o vi mais. Para sempre, até nos reencontrarmos na Casa do Pai, terei a lembrança do sorriso-menino, despreocupado, inocente, a iluminar meus dias tristes, o amigo de meu pai, meu companheiro de trabalho, meu tio, meu amigo.

Muitas saudades até lá.

MPV – novembro 2007

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