Biografia

Tenho uma amiga que adora ler biografias. Ela é uma pessoa cultíssima, viajada, interessante, mas larga qualquer coisa por uma biografia. Qualquer uma, de Marianne Faithfull a Sartre, de Jane Fonda a Nelson Rodrigues, se contou a vida e os sentimentos de alguém, ela já leu ou lerá.

Um capítulo à parte tem que ser dedicado a GOD, vulgarmente conhecido como Eric Clapton. Em francês, inglês, português, as autorizadas, não autorizadas e, agora, a recém lançada autobiografia do deus da guitarra, todas já passaram por suas mãos e foram lidas com o interesse de um amor descoberto.

Certa vez, quando ela morava em Paris, ganhou de presente um livro com a biografia de uma modelo brasileira, que se tornava famosa. Leu. O pior é que, alguns dias depois, fui visitá-la e ela disse que eu tinha que ler também. Neguei. Neguei novamente e ainda outra vez. Não perderia meu precioso tempo de passeio em Paris lendo uma bobagem daquelas. Ela venceu, óbvio. Carregou-me para o Jardim de Luxemburgo, onde eu deveria esperá-la por duas horas, aproximadamente, enquanto ela assistia a uma aula na Sorbonne.

Fiquei sentada em uma daquelas cadeirinhas verdes, com o livro dentro de uma revista, morrendo de vergonha, torcendo para não passar nenhum brasileiro perto, que me visse lendo aquilo. Não consegui avançar muito na leitura daquela tarde, meados de primavera em Paris. Olhar ao redor, anotar sensações, era muito mais interessante do que ler aquele relato autobiográfico. Mas não consegui escapar de vez. À noite, enquanto um debate político corria solto na televisão, não me restou muito mais a fazer do que terminar de ler “o livro”.

A paixão dela por biografias alheias sempre me intrigou. Achava estranho que ela ficasse lendo sobre a vida de alguém, tendo ela mesma uma vida movimentada e sendo potencial material para uma biografia.

Outro dia, quando pensava sobre isso, dei-me conta. Ela é de todas as amigas, disparado, a que tem melhor visão da vida. Consegue interpretação sutil para fatos ocorridos com todo mundo, aconselha com sabedoria e, não raro, repete as conclusões dos terapeutas acerca dos mais chegados.

Fala e fala muito, mas ouve melhor ainda. Ela diz que sou desmemoriada, mas é porque não guardo tudo o que ouço. Tem uma capacidade sobre-humana de guardar na memória fatos, diálogos, pessoas, nomes, tudo o aconteceu há trinta anos. Algumas vezes, acho que ela me enrola, por minha lembrança falha, mas, mesmo assim, prefiro acreditar nela.

Acho que essa advogada sairia uma excelente terapeuta. Quem sabe?

MPV – dezembro 2007

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