Everlasting Love

Você chegou em um sábado, no mês de outubro, era dia 19. A primeira vez que o vi, através de um vidro instransponível, você esperneava com miúdas pernas, em cima de uma mesa, onde enfiavam um tubo por sua garganta para tirar o sangue acumulado em sua barriga. Foi amor à primeira vista.

Depois colocaram uma roupa branca e delicada em você e sapatos de crochê vermelhos, para dar sorte. Tinha uma carinha meio amassada, mas, a meus olhos, parecia e era um príncipe.

Seu primeiro Natal foi uma noite quente, exaustivamente quente, sua roupa empapada de suor foi colocada à parte e você dormiu com pouco cabelo grudado à testa.

O susto que nos deu com uma febre em acelerada ascensão, ficou marcada em minha memória. Era véspera do meu aniversário, eu vinha direto da praia e passei para vê-lo. Acabamos no hospital, onde após o desespero do desconhecido, e tudo ter ficado bem, cedi ao choro convulsivo. No dia seguinte, meu presente foi passar o dia com você, engatinhando e rindo e brincando como se nada tivesse acontecido na noite anterior.

Quando retornei de uma viagem, você engatinhou em minha direção na velocidade de um raio, sorridente, com poucos dentes, e consegui tirar uma foto antes de você alcançar seu objetivo, que era o meu colo, na cama.

Já muitos anos se passaram, após aquele nosso primeiro encontro, nossa primeira foto, você em meus braços e eu dizendo baixinho ao seu ouvido: “não chore no meu colo, por favor, não chore”.

Hoje, chamo por você quando você passa, e digo que tenho um segredo importantíssimo para falar em seu ouvido. Você se aproxima, relutante já pela idade, e eu falo: “eu te amo”. E você, na maioria das vezes, responde um “eu também” de forma encabulada e escapatória.

Já basta para encher meu coração de um amor sem fim, sem cobranças, sem julgamentos. Você é o meu everlasting love, que durará para sempre, aqui, lá e em qualquer lugar, juntos, perto, separados pela distância, no dia a dia, em todos os momentos.

As três metarmofoses

Foi numa tarde de 31 de dezembro, há muitos anos, que fui intimada a ler o texto de Nietzsche, Das Três Metamorfoses. Tinha que ser uma tradução específica de uma determinada editora, para que eu pudesse apreender em nossa língua, o que havia sido escrito no original alemão.

No texto, descritos, os espíritos livres e o camelo, o leão e a criança. O camelo, o espírito que suporta todos os fardos; o leão, o espírito conquistador e libertário; a criança, o espírito da inocência e do novo começo.

Esse texto me acompanha desde então. Me assombra, me conduz, me guia e me ampara a cada nova fase de minha vida, mês após mês, dia após dia. Às vezes, ele permanece escondido no livro, quando menos espero, pula em meu colo, outras vezes, quando procuro outro texto, meus olhos se fixam nele.

Suportar os fardos, manter-me livre e continuar cultivando a inocência. Ordens da irmã, que mandou-me ler o livro e do filósofo que colocou em palavras a soma do meu espírito.

Friedrich W. Nietzsche – Das Três Metamorfoses

“Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Muitos fardos pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais pesadas, pede a sua força.

“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoelha como um camelo e quer ficar bem carregado.

“O que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de suportação, “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre?

Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a própria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?

Ou será isto: apartar-se da nossa causa, quando ela celebra o seu triunfo? Subir para altos montes, a fim de tentar o tentador?

Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à verdade, padecer fome na alma?

Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?

Ou será isto: entrar na água suja, se for água da verdade, e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos?

Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele nos quer assustar?”

Todos esses pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio deserto.

Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.

Procura, ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.

Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.

“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves!”

Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim.

Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga, suportador e respeitador?

Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.

Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso, meus irmãos, precisa-se do leão.

Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de rapina e tarefa de animal rapinante.

Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina, precisa-se do leão.

Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?

Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.

Sim, meus irmãos, para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.

Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito tornou-se camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Assim falou Zaratustra. E achava-se, nesse tempo, na cidade chamada A Vaca Pintalgada”.

Texto: Assim Falou Zaratustra
Os Discursos de Zaratustra – Das Três Metamorfoses
Foto: Friedrich W. Nietzsche, 1844-1900

A Caixinha Mágica

Minha sobrinha mais velha tem uma caixa-para-quando-estiver-triste. Nunca precisou ser usada, mas ela está lá, ao alcance da mão e da primeira lágrima. Dentro dessa caixa, objetos pessoais e intransferíveis que têm o poder de fazê-la feliz. Músicas, cartas, acessórios e chicletes, renovados conforme a validade.

L., que fará, em breve, quatorze anos, foi criada em berço de ouro, mas o ouro do amor. Sua mãe, tio-padrinho, avó e tia-avó têm lhe passado o melhor dos mundos de amor. Com sabedoria instintiva e intuitiva, eles formaram com ela uma aliança de afeto, cuidado e incentivo que a fizeram engatinhar, dar os primeiros passos, caminhar acompanhada para que, em breve, ela mesma possa alçar seus vôos solo nesse mundo alucinado em que vivemos.

L. escreveu aos quatro anos, leu aos cinco, criou suas primeiras e próprias estórias aos oito e continua amadurecendo em seu universo mágico da imaginação e, sem pressa, se prepara para Ser. Não tem as certezas absolutas dos adolescentes, o que a qualifica para diversas oportunidades que aparecerão e a farão optar pelos melhores caminhos para sua felicidade.

Ontem, com muito orgulho por minha parte, em um jantar japonês regado a risadas, conversávamos sobre literatura. Ela agora está na fase dos romancistas britânicos dos séculos XVIII e XIX, lidos no original, claro. Compara e critica traduções para o português e risca, com severa crítica, os erros da revisão dos textos.

Sua mais recente preocupação é com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, o que em sua opinião – e na minha também – empobrecerá a língua que, nos últimos setenta anos, terá sofrido sua terceira grande modificação. É pouco tempo para tanta intrusão.

A existência de L. em minha vida só me fez querer ser melhor. Seu primeiro abraço, registrado em foto para a posteridade, ganhei quando ela tinha quatro anos e, de lá para cá, nossas afinidades só cresceram, assim como meu amor por ela.

Ela é a minha caixinha mágica. Suas cartas, bilhetinhos, fotos, desenhos estão comigo, ao alcance da mão ou de alguma lágrima que teime em cair. A minha caixinha já usei.

Irmãos

Minha família é grande sem o ser. Minha mãe, filha única, tem (ou teve) muitos tios e tias que não víamos, por inúmeros motivos. Meu pai tem uma irmã e três sobrinhas, minhas primas queridas, com as quais cresci e farreei. Eu tenho uma irmã (como já mencionei antes, de pais e mães diferentes) e um irmão (mesmos pai e mãe) seis anos mais novo que eu.

Com o passar do tempo, a diferença de idade entre nós dois diminuiu, mas não a de temperamento. Com, praticamente, uma geração entre nós dois, somos muito diferentes em quase tudo. Nos últimos anos, brigamos um com o outro, brigas que não estavam na sinopse inicial de nossa vida em comum. Isso leva tempo para ser superado, mas gosto de lembrar uma frase de um filminho bobo, blockbuster de sua época, em que um dos personagens principais diz “I thought we were invincible./But now I know that the things people in love do to each other they remember./If they stay together, it’s not because they forget, it’s because they forgive” (“eu achava que éramos invencíveis./Mas agora sei que coisas que pessoas que se amam fazem umas às outras são lembradas./Se elas permanecem juntas, não é por que elas esquecem, é por que elas perdoam”).

Assim, invoco os sentimentos que nos fizeram crescer juntos em idades tão diferentes e busco a esperança do futuro nos sábios ensinamentos de meu pai sobre família. Ao mesmo tempo, recordo épocas em que meu irmão ainda era mais baixo que eu, suas peraltices pela casa, implicâncias variadas; gol a gol no corredor, com bola de espuma; sua coleção de camisas de times de futebol, hoje passada ao seu filho mais velho; o relógio vendido oito vezes ao meu pai; suas festas à fantasia; as flores à primeira namorada; seu olhar embevecido ao me ver de noiva; seu primeiro carro; a entrada para a faculdade, e sua bela monografia de conclusão de curso; o nascimento de seus dois filhos, sobrinhos mais que queridos.

Certa vez, conversando com ele, disse que, pela lei natural das coisas, nós dois, juntos, é que choraremos, juntos, por nossos pais e juntos, somente nós dois, juntos, sentiremos o sentimento da hora, juntos. E isso, juntos, fará toda a diferença. Juntos. Como dizia Nietzsche, “às vezes é preciso fechar a mão por amor”, mas se nós permanecemos juntos é por que temos o dom de perdoar. Em mão dupla.

PS: Diálogo do filme Indecent Proposal, 1993

Novo é o ato da Descoberta

A coluna de José Castello, hoje no Prosa e Verso do jornal O Globo vem com o título “Schnitzler de algemas”. Fala sobre o escritor austríaco (1862-1931) e sobre um de seus romances, “Crônica de uma vida de mulher” (Editora Record, tradução e prefácio de Marcelo Backes).

Na introdução, escreve: “Schnitzler afirmava que a psicanálise não era nova, só Freud era, de fato, novo. Da mesma maneira como, por exemplo, a América não era nova, mas Cristóvão Colombo, sim. O novo não é o que se revela, pois, na verdade, sempre esteve ali. Novo é o ato da descoberta, dizia”.

Saindo da alta intelectualidade, tanto do autor, como do articulista, e voltando para os sentimentos do dia-a-dia, descobrir, para mim, sempre foi a palavra mágica.
Por que descobrir traz o novo, mesmo que o novo seja velho, ou antigo.

Descobrir uma música, ou outra versão da música preferida; descobrir um livro, um autor, descobrir uma vila na calçada de prédios, descobrir um caminho, ao caminhar trajetos diferentes todos os dias; descobrir uma amiga, atrás da velha conhecida; descobrir um sentimento dormindo no sofá; descobrir uma receita para ingrediente antigo; trazer o novo para a vida.