O samba de uma só nota

Virou o mês, abril chegou. Em restrospectiva, março praticamente não existiu. Sim, mamãe fez aniversário enquanto ainda estávamos todos embriagados de álcool e emoção triste. Sim, entreguei a monografia empurrada por Sandra, Lis, Mic, Bal e ajudada por Lu Claro no final. Sim, fomos ver a expo do Escher, capitaneados por Búbi. Sim, nos entupimos de bolinhos de carne do Real chopp graças a meu irmão. Sim, Pedro e Gabi conseguiram arrancar sorrisos esquecidos em nossas almas. Sim, Shee nos obrigou diariamente a sair de casa, qualquer que fosse o tempo. Sim, Verinha, Bell, Rico, Tite, Mary, Luíza, Lolô, Dídi, Renata telefonaram. Bal me tirou de casa no timing perfeito para tomar sorvete. Cete bateu o ponto, ou melhor, todos os pontos. Álvaro contou causos. Marcio e Cris, Leda e Malcher continuam ajudando de todas as maneiras. Regina, Soninha, Carminha, Malu dão força para mamãe.

Tenho me deparado com pessoas e empresas usurpadoras. (No Houaiss: transitivo direto e bitransitivo – apossar-se de ou tomar (algo) pela força ou sem direito) Sim, elas existem. Sim, são quem menos se espera. Sim, elas dormem à noite. Conseguem manter a frieza diante da dor alheia e se apropriam do fiapo de força que nos resta. Sim, quando já estamos nos esquecendo, elas reaparecem. Sim, estou pensando em começar a mandar os palavrões por escrito. Ouço você: “calma, filhinha.”

Mesmo assim, a sala já está praticamente arrumada. Os livros estão na estante, as roupas guardadas, quadros pendurados, cafofo cheio de prateleiras, armários abarrotados de mudança. Mais de vinte caixas com roupas, louças, utensílios e livros já partiram para melhores destinos.

É no centro da cidade que tudo é resolvido e ele se tornou minha peregrinação exaustiva. Tive que ir ao seu escritório e sua mesa estava vazia. Em seu elevador, ouvi a conversa de uma moça com seu pai, combinação de encontro na fazenda. Quase escorreguei para o chão. Nos lugares que você frequentava por outros motivos e aos quais sou obrigada a ir agora, me falam de você com saudade e admiração. Minha peregrinação tem sido uma prova de força. Quando chego em casa, tomo um banho e desabo, em frente à sua fotografia que nos observa e nos guarda. Ouço novamente: “calma, filhinha.” Encontrei cartas e cartões seus para nós três. Li suas cartas enviadas para Portugal. Em todas você menciona vinhos, empadinhas, pastéis e menus preparados por mamãe. Poderíamos tranformá-las em seção de revista de gastronomia.

Ainda falta coisa. Falta separar os exames de saúde inúteis agora e arrumar a mesa de jantar, transformada em imenso escritório para separação de documentos. Ainda falta brigar com algumas empresas que emperram nossa vida impaciente. Ainda falta descobrir que outros documentos a burocracia autenticada nos obrigará providenciar. Ainda falta descobrir como será a vida sem a sua presença.

Carta ao pai

Oi, pai,

Faz quase um mês que não nos vemos e as saudades só aumentam. Hoje elas estão maiores e gostaria de ouvir sua voz. Tem sido um mês movimentado, com tantas providências a tomar, casa para arrumar, livros para dar. Separamos muitos dos seus, mas tenho a certeza que você não vai ficar chateado, por que vão fazer bem para boas pessoas. Pessoas interessadas em leitura, como você.

Nos raros momentos em que fico só, como agora, o impulso é passar a mão no telefone e discar o seu número, ramal 16. Liguei para a caixa postal do seu celular, mas você não tem mensagem personalizada, não consegui ouvir sua voz.

No aniversário de mamãe, fizemos como você indicou no bilhete que encontramos. A pulseira dela ficou bem bonita e a família inteira participou. Acho que ela gostou, mas preferiria que fosse você a colocar em seu pulso. Só usou nos dois primeiros dias e depois guardou.

Sandra conseguiu que eu terminasse a monografia, ligou muitos dias, falamos pelo skype e finalmente coloquei um ponto final. Ficou bem longe do que eu gostaria que você lesse, mas foi o que deu para fazer. Ela é dedicada a você. Muita gente me incentivou, duas professoras e a Mic me ajudaram na formatação.

Cete arranjou toda a minha mudança, desde a embalagem à entrega aqui em casa. Leandro e Búbi passaram o carnaval aqui comigo e mamãe e trouxeram bolinho de carne e pastel de camarão do Real chopp. Foi um banquete. Bebi seu vinho naquelas noites chuvosas de Momo. Achei chato não ter você para dividir a garrafa e não teve ninguém para tentar roubar meu copo ainda cheio. Não, este ano não fui para os blocos. Não fui nem olhar. Muita chuva e saudade. Além do mais, se eu tivesse ido, com você longe, quem iria preparar os sanduíches para a filha foliã? Assisti a filmes todas as noites. De alguns você teria gostado, mas se estivéssemos juntos, eu só teria assistido aos que você escolhesse, que nem o último que vimos juntos, aquele western, lembra? Passei a gostar mais dele só por causa da sua alegria com o filme.

Muitas pessoas ligam diariamente para saber como estamos, mas acho que elas gostariam o mesmo que nós: saber como você está. Rezamos muito para que sua viagem seja tranquila, mas a falta de notícias é que faz doer.

Nesses dias de muita arrumação, temos encontrado muitas lembranças e ontem achei um cartão postal que você escreveu para o Leandro, de Madri, e os bilhetinhos que eu deixava em sua sala, quando trabalhávamos próximos um do outro. Cheguei a rir. Lembrei das suas reações. Senti mais saudade. Nas fotografias ainda não mexi. Como elas já estavam arrumadas nos álbuns e nas caixas, deixei-as lá por enquanto. Denise revelou umas fotos bem bonitas e deu para mamãe. Tem uma sua, só de rosto em que você está ótimo, com aquele semblante tranquilo que você sempre teve.

Baya, tô com saudade. Acho que ela vai aumentar.

Beijo, te amo.

Sua filha,

Sem palavras

Há dois dias, meu irmão comentou que deveríamos ter um filme para vermos, sabermos todos os que estiveram presentes conosco nos últimos dias. Quem viu quem? Quem falou com quem? Ah… Um ligou, outro enviou mensagem, uns vieram de longe, outros não arredaram pé, são tantos, foram tantos que fica até difícil agradecer as milhares de manifestações de carinho, de amizade, de amor e de luz que continuamos a receber.

É pai… Por aonde você passou, deixou um caminho de admiração, respeito e amor. Essa energia foi canalizada agora para nos dar forças e continuar sua trajetória.

A todos, amigos, conhecidos, queridos, o nosso muito obrigado por tudo. Mesmo.

Papai

Beijei sua testa ainda quente, seu cabelo carregava o perfume do dia anterior, segurei sua mão já sem a aliança, olhei para você deitado e não acreditei. Como não acredito até agora. Mamãe chorava em ondas, meu irmão telefonava com os olhos vermelhos. – Ele morreu… Como assim? Não foi isso o combinado… Foi diferente, fizemos planos, estávamos no início da execução, e agora? Continuaremos sem você, sem sua graça, sua risada, sua voz, sua presença. Que dor indescritível. Só quem já passou por ela, sabe.

Deitei a cabeça em seu ombro enquanto vários amigos chegavam para acreditar, para ajudar, para abrir e fechar portas. O médico chegou, olhou de longe para você, atestou qualquer coisa, já não fazia diferença. A família chegou e aqui está. Levaram você para uma sala, nos levaram para a mesma sala e nosso espírito ardeu com o seu corpo. Você voltou para Niterói, como pediu, nós retornamos à casa vazia, sem você. Desde então, comemos suas empadinhas, bebemos seu vinho, olhamos seus retratos, ouvimos sua voz gravada em vídeos caseiros. Desde então, rezamos para que você esteja em paz, tentamos ficar em paz, tentamos falar palavras doces uns para os outros, quando o que desejamos mesmo é mandar tudo à merda. Eu sei que você não gosta de palavras chulas, mas o momento pede. O táxi não quer parar? Vai à merda. O jornal encrencou? Merda. O copo partiu? Merda. Milhares de providências a tomar? Merda. O vizinho reclamou? Merda. Falamos alto? Esse pede a palavra que você não gostaria de ler, então não escrevo. Mas está subentendida. Toda noite, a partir da hora em que você chegaria em casa, vem alguém e nos leva para longe ou nos faz companhia, um revezamento provavelmente articulado por você. Mamãe, abalada, reclamou: – Seu pai morreu e parece que estamos em festa! A tristeza que nos assola é tamanha que só o atordoamento alcoólico nos permite dormir algumas horas a cada dia. E quando abro os olhos no dia seguinte, não acredito, fecho de novo, gemo baixinho e vem aquela onda de embrulho no estômago. O mais estranho de tudo é olhar as pessoas na rua, alheias ao nosso sentimento de perda e ver os sorrisos, ouvir pedaços de conversas, perceber que a vida continua para elas, os blocos batucando, o Flamengo campeão, tudo isso, que não é pouco, é quase uma ofensa pessoal à nossa dor. Hoje vamos vencer mais um dia, vamos nos despedir, novamente, de você. Acho que a cada dia, iremos nos despedir um pouquinho de você, já que você não estará sentado na cabeceira, não dará sugestões, não estará presente para ver os netos crescerem. Dizem que nós nos acostumaremos com sua ausência, mas a saudade só crescerá. Não é um prognóstico positivo, uma vez que a saudade já é imensa. Vamos. Um dia de cada vez.

Insânia, Insânia e só insânia

“Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Senhor Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.” (M. Assis, O Alienista)

Meu trabalho é também sobre Machado. O de Assis, não o instrumento ceifador de árvores e pescoços. Quando leio aqueles textos, os contos, os romances, as crônicas do século XIX, fico nas nuvens. É como uma droga que me sustenta no ar e me faz respirar descompassadamente. Quando ele escreve especialmente para mim (já que se dirige ao prezado leitor, a quem o lê e quem o lê sou eu, então é para mim que escreve), chego a ruborizar. Machado me escreve e não me chamo Carolina.

Então dá uma vontade louca de escrever daquele jeito, mas olho pela janela, com meu cabelo preso, um grampo de dois reais, por causa do calor… Não… Calor é pouco, o portal do inferno, o próprio inferno que abraça o meu Rio de Janeiro nesses quatro meses do ano, olho meu vestido colorido, ouço a TV do vizinho sintonizada em um jogo qualquer e ouço também seus comentários e gritos e soluços dignos de Maracanã mesmo em obras, sinto a dor de cabeça que não me larga como se fosse um carrapato escondido, reconheço que, mesmo existindo um pouquinho daquele talento, não seria capaz de reproduzir parágrafos como aqueles no ambiente de agora. Ah, sim… Esqueci dos fogos. Soltam fogos também. O visual fogueteiro pode até ser muito bonito, se a gente pudesse ver no mute.

Pois bem, o que eu estava querendo encadear era uma conversa com o leitor deste post, algo que Machado nem imaginou ser possível existir um dia. Teria lhe facilitado muito a vida… Mas seria qualquer coisa como: você que me lê não imagina como foram minhas duas últimas semanas. Não, não se espante, porque todos estão com a saúde mais ou menos em dia, uma dieta ali, uma dorzinha aqui, mas nada que tire o sono. Por enquanto. Não de novo. Não ainda. Mas foram semanas complicadas, coisas boas e ruins aconteceram, acho que os seus dias também são assim, não, leitora? (vou modificando o gênero para agradar a todo mundo). Coisas boas em primeiro, para começar bem: a saúde, como já mencionei, o encontro com amigos, o musical maravilhoso, Hair, já assistiu? A simples existência dos meus três sobrinhos, a alegria de Shee Marie quando encontra um de seus amores. Como eu ia dizendo, caro leitor, tive notícia de gente desaparecida há muito, que eu não consegui categorizar ainda se foi bom ou ruim, mas tive reencontro maravilhoso com amigos que não via há muito. Isso foi realmente bom. O trabalho da monografia está atrasado, mas segue um rumo bacana. E isso também não sei caracterizar se é bom ou ruim. As leituras estão na categoria “bom”: Tanto de estudos para preparação do texto, quanto em geral, como por exemplo, a vida maluca do Keith Richards, que muito me fez rir e a última crônica do Arnaldo Bloch falando sobre Cisne Negro. Prezada leitora, parece até que conversamos antes dele escrever! Concordo com tudo o que ele disse. E recortei e guardei em meus alfarrábios. Ah, sim… Falando em filmes, já assisti muitos, mas queria ver também Malu de bicicleta, bravura indômita e inverno da alma… Os outros que queria assistir, já consegui. Facilidades de morar ao lado de 18 cinemas… Não! Não exagero… Abra o jornal e conte quantos cinemas existem ao meu redor… Bem, para não dizer que detesto totalmente o verão no Rio, tem uma coisa que fica na categoria “bom”: chope à noite, na calçada, em qualquer um dos inúmeros bares e restaurantes, com a brisa que vem do mar e atravessa concreto e vidro e chega até você, sentadinho àquela mesa, pós-qualquer coisa: cinema, teatro, concerto, até mesmo praia. Isso é bom demais. O que mais? Acho que das coisas boas já falei, das uncategorized também já falei, agora, prepare-se para a categoria “ruim”… Foi… Bem… Humm… Sabe que não aconteceu nada de ruim? Como diz minha irmã-maga, até mesmo o que parece ruim no primeiro momento, transforma-se em algo muito bom em seguida. Então, leitora, só me resta agradecer que a vida tenha sido tão generosa comigo nas últimas semanas… Agora vou tomar outro comprimidinho só para a dor de cabeça ir embora de vez. E começar mais uma semana de bem com tudo. Ah! Já me esquecia… O carnaval está chegando e o Rio fica mais colorido, divertido, maravilhoso. Você também gosta de carnaval, leitor?

Aquele que voa mais alto

Na reta final de concluir a escritura da monografia, descubro um documento que passa a me interessar mais pelo prazer de possuí-lo por inteiro do que pelo fato de acrescentar nova informação à tese formulada. Procuro, através da internet, mas só encontro referências e alguns trechos do doc. Como sei quem é o dono, peço ingênua ajuda ao meu tio, que me conta uma história de arrepiar os cabelos sobre o sujeito em questão.

Como meu tio é um escritor de primeira grandeza e coração largo, ao me explicar as vilanias do sujeito, completou com uma frase que fez meu coração acelerar, tão bonita a enxerguei: “espero que a terra lhe seja leve.” Que sofisticação, quanta emoção contida numa frase quase à toa. Tolice minha. Grandes escritores não escrevem frases à toa.

Agradeci e respondi que a vida já é o suficiente difícil, para procurarmos mais confusão.

Mas a frase ecoa em meus ouvidos: “espero que a terra lhe seja leve.” Espero que a terra lhe seja leve. Mais forte que um texto inteiro, mais violenta que um xingamento à mãe, mais intensa que a raiva, a frase diz tudo o que a alma de um poeta – como é meu tio – pode sentir.

Meu tio, que é amigo de meu pai há mais de 50 anos, e a quem não chamo de tio, porque sempre foi – e continua sendo – bonito demais para chamá-lo assim, tem histórias para contar. Adoro ouví-las, nos raros encontros, nos telefonemas frequentes, ler em seus livros publicados.

Que a terra lhe seja leve… Continua o eco, enquanto lembro os meus tempos de menina quando tinha que sair da sala para ele relatar torturas recebidas nos porões da ditadura. Fugiu do país, passou anos nos exílios, voltou com outras histórias, de liberdade, de neve e frio.

Sou a fiel depositária de suas cartas, desse tempo que já vai longe, assinadas como Zenon Omonte, para não complicar a vida de meu pai nos anos de chumbo do país. Meu irmão leva o nome de seu irmão, que desenhou uma caricatura de meu pai em crise alérgica, com direito a versinho, quando eram muito jovens e a vida, além do mundo, lhes pertencia e era infinita.

A terra lhe seja leve… Para quantas pessoas, ao longo da vida, terá ele desejado essa frase violentamente poética? “Aquele que voa mais alto”, como o chamava o professor de inglês do Colégio Mello e Souza, continua ensinando vida a seus pupilos, sobrinhos, amigos. Assumirei como lema seu mais recente ensinamento: Espero que a terra  seja leve a quem quer que tente escurecer a luz de meus dias.