Outono no Rio

Eu e Shee vagamos por um mundo em tons de cinza, bruma e cheiro de grama orvalhada, caminhamos pela estrada reta, não enxergamos seu fim, continuamos passo a passo, firmes em nosso propósito de não pararmos. Ela vai com o focinho parecendo um limpa trilhos de trem, cheirando tudo, mas firme em frente. Subimos e descemos pequenas elevações, e continuamos fortes em frente. Não tem fim essa estrada, o sol já esteve atrás de nós, já esteve por cima de nós, agora começa a baixar lá na frente, em breve virá o lusco-fusco, em seguida a escuridão, a estrada em que andamos não tem iluminação, talvez não tenha luz e continuamos em frente. É outono no Rio e eu acordo empapada em suor de tanto andar.

Juventude

Ele cruzou o portão principal da universidade em cima de uma bicicleta comum a caminho de casa. Vestia longas bermudas cáqui e camiseta marinho, mochila colada nas costas e cabelos louros curtos balançavam enquanto pedalava contra o vento. Não devia ter mais do que dezoito anos e acompanhei seu trajeto jovem, sentada ao volante de meu carro. Passou embaixo do viaduto, subiu na calçada, onde não há ciclovia e esperou no sinal fechado, como todo mundo. Era a personificação do futuro. Bonita figura do nascer de um homem. Belo exemplar físico do que gerações de cruzamentos variados criaram para o século XXI. Parado no sinal, passou as mãos pelos cabelos e ergueu o torso da incômoda posição das pedaladas. Parado no sinal, esperando como todos, fez planos para o show de logo mais, para o encontro com os amigos, de qual caminho tomar. Avançou antes dos carros, na liberdade de seu meio de transporte, com a inquietação dos vinte anos. O mundo pertence aos vinte anos, nada de mal acontece, a estrada ainda é longa e avançar o sinal faz parte do cotidiano carioca de todas as idades. Seguiu na calçada já com ciclovia e continuou sem esforço, sem pressa, pedalando ao sol dos últimos dias de verão. Imaginei o que faz quando chove. Pega um ônibus? Porque, mesmo que tenha carro, não tinha o perfil de quem se tranca dentro de quatro portas com um motor. Suas pedaladas são sua liberdade, seu caminho, seu desvio. Não… mesmo quando chove, usa a bicicleta. Chega molhado e ri, espera embaixo da marquise, mas não abdica de seu livre pedalar. Acompanhei-o curiosa por mais algum tempo, até que ele virou à direita e eu segui para a Lagoa.

Um dia casei

Um dia casei. De verdade, assinei papéis, conversei com o padre, jurei amor eterno. Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, Praça XV do Rio de Janeiro, o gráfico que imprimiu os convites, orgulhoso, quis escrever o endereço todo só para usar os algarismos romanos da praça. Casei de branco, vestido lindo e véu moderno, esperei no carro dando voltas no quarteirão para chegar na hora marcada para os sinos badalarem. Sempre adorei sinos de igreja. Ainda paro para ouvi-los. No sinal, um menino de rua se aproximou do carro para pedir uma moeda e me viu, naqueles tempos os carros não usavam o filme escurecedor de vidros que hoje em dia carregam. Ele me viu e o sorriso que deu ao murmurar maravilhado: – uma noiva!… carrego comigo até hoje (terá sobrevivido à vida nas ruas?). Quando o carro arrancou, deu um tchau e correu de volta para sua calçada. Noite estrelada, sem riscos de chuva ou trovoadas, meio de junho de um ano perdido lá atrás. As portas imensas da igreja fechadas, convidados lá dentro, alguns do lado de fora ajudavam a arrumar o vestido, quarenta metros de tule embaixo da saia rodada, lindo vestido, quando o estilista desenhou para mim, veio com meu nome escrito. Era simples e chique, sem rendas ou bordados e com uns cem mini botões do decote à barra. Um laço imenso, atrás, dava um toque bem da época. O estilista e o irmão já morreram faz tempo, os dois de aids, em épocas próximas. Uma tristeza, eles eram ótimos. Minha prima veio do sul com uma roupa de parar o trânsito e uma história que até hoje arranca gargalhadas de quem ouve. As músicas todas trocadas, nada que havia sido combinado, acabei entrando com a que falei que não queria de jeito nenhum, porque me lembrava programa de auditório da minha infância. Nervosa do jeito que eu estava, ainda assim ouvi a música tocada-trocada. Meu pai me conduziu pela nave, parecia um deputado em eleição, orgulhoso, cumprimentando o povo, em direção a um noivo sorridente. Nada do que se faz hoje em dia eu quis, achava cafonérrimo: não quis cortejo de padrinhos, não quis desfile de convidados e se pudesse, acho que teria entrado pela sacristia. Não quis pétalas caindo na cabeça, não quis fotos no altar e as músicas que quis não tive. Houve uma época em que não se podia usar música popular em casamentos na igreja, e as opções eram poucas para meu gosto de então. O padre, amigo da família, fez uma missa emocionada que só fui assistir no vídeo, claro. E, tempos depois, meu irmão distraído gravou gols por cima na fita, cortando toda a entrada e minhas lágrimas de nervoso. No altar, uma madrinha de preto. Eu havia pedido: preto, branco, vermelho, roxo, não! Lá estava ela, vestida de urubu. Outra madrinha deu o cano na hora, um padrinho ficou sozinho no altar. Dos quinze, só restam cinco em minha vida. Os queridos morreram, os outros desapareceram na bruma da estrada. Na saída, acho que a tropa do altar veio atrás de nós dois, mas aí já não importava mais. Os cumprimentos demoraram anos, e eu lembrava de minha outra prima que dizia que colocaria um boneco agradecendo quando chegasse sua vez. Lembro vagamente da festa em seguida, sem música porque também achava cafona casamento com música. E naquele tempo era música, não era o funk de hoje em dia… O matrimônio não durou muito, mas a cerimônia, proporcionada por meus pais, perdura até hoje. É uma lembrança linda, que carregarei comigo.

O Dom

Não sei falar. Quando falo, é demais ou de menos. Quando de menos, não me faço entender. Quando demais, acabo dizendo coisas que dão margem a múltiplas interpretações e, invariavelmente, são ofensivas, nubla o tempo, os olhos, acaba com o dia. E depois para dizer que verde não é vermelho não adianta mais. Já foi dito e interpretado daquela maneira. Mas não era nada daquilo que eu queria dizer. Era algo que passava por aquele caminho, mas fazia um desvio que amenizava a situação. Mas como meu discurso fraco-infantil saiu daquele jeito, ouço o que não mereço ouvir. E aí? E depois? Recolho minha bolsa e passo o resto do dia entre lágrimas e bolo de chocolate. A tristeza é tão grande que a temperatura do corpo cai e eu não sinto calor nesse Rio de Inferno. Ele percebe minha tristeza e me acompanha com o olhar quando vou fungando do quarto para o banheiro. Um amigo diz que não sabe como alguém que se expressa tão claramente na escrita pode dizer tanta bobagem em voz alta. Minha terapeuta dizia que comigo a sessão era dividida em duas partes: o que eu falava no consultório e o que eu levava escrito. Já são dois especialistas na minha humilde pessoa dizendo que algo está errado em minha oratória. Estou investigando um modo de quietude. Quando tiver que argumentar fraco-infantilmente, calar-me-ei. Se for imperativa a minha argumentação, que seja por escrito. Demora um pouco mais, em compensação os olhos permanecerão secos. De ambos os lados.

Igreja e Deus

Sobre o Brasil de um modo geral, o que mais me deixou – e à minha família – estarrecida, católica por formação, mas seguindo o que considero, livremente, os mandamentos de Deus e não da Igreja, foi a polêmica em torno do aborto da menina de nove anos, estuprada pelo padastro, e as declarações daquele homem sem espírito cristão que atualmente ocupa o arcebispado de Recife. Mandou muito bem Merval Pereira em sua coluna de sábado.

Sexta fui a uma missa, encomendada (e paga, lógico) em memória de dez anos de morte da mãe de minha irmã e a homilia do padre foi na defesa da excomunhão dos médicos e equipe! Primeiro, a inadequação do tema ao motivo da missa; segundo a virulência das palavras do padre, que levavam em consideração o ato isoladamente – o aborto autorizado pela justiça – sem levar em consideração as circunstâncias, ou o risco de vida para a menina. No meio do discurso medieval, indignada, fechei olhos e ouvidos e comecei a rezar para minha família, amigos e mesmo para a menina e sua família.

Quando ele terminou, abri os olhos e fixos nele, pensei: esse padreco vai enumerar os requisitos para a comunhão. Não deu outra: Há mais de vinte anos eu não ouvia os “deveres” para poder comungar em uma missa e ele mandou: “os que quiserem receber a Comunhão, devem estar há mais de uma hora em jejum, devem ter se confessado e devem estar em conformidade com os mandamentos e leis da Igreja”.

Bom, pensei: o jejum já tinha horas e a fome começara a bater; confessar, eu me confesso diariamente em minhas orações e em conformidade com os Mandamentos e Leis de Deus, estava. A Igreja é dos homens. Deus é outra conversa. Preenchi os requisitos. Comunguei.

MPV – março 2009

Setenta anos

Setenta anos. Mamãe faz setenta anos. Data redonda tem mais peso, simbolismo maior. Mamãe de setenta tem carótida entupida, sente dor na perna, diz que está cansada e caminha na Lagoa, tem os cabelos enroladinhos como um anjo louro, pequenino, a pele de porcelana, o nariz com poucas rugas, avermelhado pelo remédio da discórdia. Mamãe de setenta quase foi barrada no caixa dos idosos porque uma velhinha achou-a muito novinha. E olha que mamãe de setenta nunca fez plástica!
Mamãe de setenta não quer festa, ou celebração com grande turma, só a família diminuta e o calor do Rio. E a cunhada-irmã que chegou de surpresa, vinda dos pampas, trazendo movimento e alegria para a casa. O telefone não para, ela atende com satisfação e certo orgulho. Mamãe faz setenta.
Pela manhã, mamãe de setenta, ganhou presentes, beijos e latidos. À tarde sentiu dor na perna. À noite comemorará conosco sete décadas, sete dezenas de vida, parabéns para mamãe de setenta. Tenho que ir. Mamãe de setenta já ligou exigindo minha presença mais cedo.

MPV – março 2009