No dicionário

Tudo é intenso, que tem muita força, veemente.

Ah, a força! Sendo forte, é valente, robusto, substancioso, sólido, rijo, consistente. Enérgico. Pode-se dizer também vigoroso, decidido e resoluto; diligentemente ativo.

Ah, O ativo! Aquele que atua, progride, não interrompe. A não ser que o sono chegue. Ou que o zelador tranque a porta.

Sendo veemente, é impetuoso, violento, intenso, caloroso, entusiástico, frenético, fervoroso, animado, arrojado. Após duas garrafas de espumante ou nenhuma.

Se, no entanto, for arrojado pode despertar o audaz e destemido, passar o dia valente, ousado, e valoroso. Chegar à tarde arrebatado, fogoso, impetuoso, como um namorado.

Contudo se houver surpresa, sentirá um sobressalto proveniente de um caso imprevisto e rápido; experimentará admiração, pasmo e espanto. Anoitecerá um prazer com que não contava, um acontecimento repentino. Será o prazer inesperado.

Tudo nos dicionários. Tudo na vida. Um dia após o outro. Surpresa após surpresa. Espera após espera. Encontro e reencontro.

 

Desejos para 2013

Em 2013,
Para os distantes, presença.
Para os europeus, longos braços pelo oceano;
Para os americanos, asas para os trópicos;
Para os que não vejo há muito, encontro;
Para os que vi e perdi, reencontro;
Para os não enxergo, saudade;
Para os que não entendem, compreensão;
Para as novas amizades, continuação;
Para os zangados, sorrisos gentis;
Para os felizes, eternidade;
Para os mestres, gratidão;
Para os que não desistem, firmeza;
Para os sempre presentes, amor;
Para as crianças, inocência;
Para os animais, cuidados;
Para a família, união;
Para cada um e todos, paz e saúde.

Florbela

Este ano ganhei de meu primo-Rico o passaporte do festival de cinema do Rio, foram 427 sinopses lidas, cinquenta filmes escolhidos e 28 assistidos. Conseguimos fazer uma maratona digna de anotação e de nota. Ele conseguiu ver mais filmes, alguns que eu gostaria de ter assistido mas não consegui. Dos 28 que assistimos juntos não gostamos de dois, o que mostra que nossas opções foram bem acertadas na maior parte.

Tentei fazer uma lista com os preferidos, mas foram tão diversos, já que nossa escolha se baseou em critérios como dificuldade de entrar em circuito e tema, que resolvi escrever sobre eles à medida que apareça a vontade ou o assunto. Hoje pensei muito em Florbela Espanca e o filme que retrata alguns anos de sua vida me comoveu.

Os amores de Florbela Espanca” é uma produção portuguesa, dirigido por Vicente Alves do Ó (adoro os nomes portugueses) e mostra a vida da poeta (ela se dizia poeta e não poetisa) a partir da primeira separação e os anos vividos com o segundo marido.

Sempre fui fascinada por sua poesia, à qual fui apresentada muito cedo, quando ainda não conhecia a sua vida angustiada e breve. Ganhei sua fotobiografia, o que só aumentou minha veneração pelo romântico e torturado espírito que morreu no mesmo dia que nasceu, com um intervalo de 36 anos.

O soneto número X da série “he hum não querer mais que bem querer” (Camões), de 1930, hoje embalará meu sono. Que embale o seu também.

“Eu queria mais altas as estrelas,

Mais largo o espaço, o sol mais criador,

Mais refulgente a lua, o mar maior,

Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas

Das almas, mais rosais a abrir em flor,

Mais montanhas, mais asas de condor,

Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,

‑ Quanto mais funda e lúgubre a descida

Mais alta é a ladeira que não cansa!”

E, acabada a tarefa…em paz, contente,

Um dia adormecer, serenamente,

Como dorme no berço uma criança!

Um domingo acolhedor

Sabe aquele domingo que não é verão mas já está quente, que você olha para o armário sem saber o que vestir, e fica na dúvida se leva, de novo no braço, o casaco para passear?

Sabe aquele domingo em que o mundo invade as praias da cidade, em que línguas variadas são ouvidas no mercado, e você fica na dúvida de que sorvete comprar?

Sabe aquele domingo em que o maior dilema a ser resolvido é se sobe no táxi que conduzirá à melhor companhia ou se deita na rede que você não tem pendurada na varanda que não existe?

Sabe aquele domingo em que você é recebida de braços abertos por amigas queridas, em que joga conversa para dentro, bebe cerveja e se delicia com moqueca de peixe feita na hora por mãos de fada?

Sabe aquele domingo em que a conversa flui, mas se ficar em silêncio ninguém reclama, em que você se sente tão acolhida que poderia tirar uma soneca no sofá?

Pois é, todos os dias poderiam ser domingos assim.

Como era gostoso o meu francês

 Cinema sempre foi a maior diversão para a família. Assim como os livros. E a música.

A primeira vez que vi o “Como era gostoso meu francês” foi no cinema, com mamãe e Denise, minha prima. Éramos crianças, o filme era censura livre (sim, era censura, não faixa indicativa), história ficcionada do Brasil e era cinema nacional de primeira grandeza.

Denise e eu entramos na sala de um jeito e saímos de outro. Nunca tínhamos visto tanto homem pelado juntos, na verdade, nunca tínhamos visto homem pelado, meu irmão, mais criança que nós, não contava. Foi um descortinar de um mundo novo, eu caí de amores por Arduíno Colassanti e até hoje lembro de como ficamos entusiasmadas com aquele filme de “adultos”.

No estudo da obra do grande mestre de nosso cinema, Nelson Pereira dos Santos, já tive oportunidade de ver e rever vários de seus filmes que, aos poucos, chegam ao mercado em DVD.

As informações de bastidores das filmagens, obtidas por intermédio do próprio diretor, de sua produtora executiva e em livros sobre sua obra são sempre um ponto a mais, como a questão de ter de pintar diariamente os corpos dos atores com urucum e a semente ser difícil de achar, a trabalhosa preparação do elenco, a construção da imensa taba indígena perto de Paraty, entre outros.

Quando o filme foi lançado no Brasil, em 1972, após difícil argumentação com os censores que não queriam ver homens pelados nas telas, as sessões lotaram, no entanto o público não entendia – naquele momento – quem era o herói da história. De acordo com o próprio Nelson, em entrevista para a Folha de São Paulo, anos depois, “não entenderam que o herói era o índio e não o mocinho, a tal ponto estavam influenciados pelos bangue-bangues de John Wayne”.

O DVD vendido no site da produtora vem com extras sobre as filmagens, a história de Cunhambebe, o índio brasileiro hoje e filmografia de Nelson. Programão imperdível.

Trinta anos outro dia

– Vou lá fora separar os docinhos antes que acabem – exclamei e saí da mesa onde uma caneca de chope esquentava à minha frente. Quando cheguei ao balcão, procurando os docinhos, encontrei Sabina e Rogério e senti a mesma alegria de encontro inesperado que sinto sempre que os vejo. Falamos rapidamente, eles em pé ao balcão, eu com a família me esperando. Despedimo-nos com promessas de encontros futuros planejados, escolhi os docinhos e meu irmão foi me pescar no mar de gente fora do restaurante por causa de minha demora.

Quando cheguei à mesa, fui falando animada sobre o encontro e comecei a lembrar dos últimos trinta anos. Sabina foi a minha primeira entrevistadora de emprego. Éramos muito jovens, crianças que somos até hoje. Ela psicóloga do Cantão, aplicava os testes que, àquela altura, só eram aplicados em multinacionais, e dividia a tarefa das entrevistas com uma equipe do departamento de RH. Rogério era o artista que sempre foi, responsável pelo design das campanhas promocionais da empresa e de muitas outras.

Ao longo da vida, nossos encontros sempre foram inusitados, mas muito agradáveis. Sabina foi ao meu casamento na igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, na praça XV e me disse que foi a única vez em que lá entrou. Quem nunca foi, não perca a visita. É linda.

Depois disso, saí do Cantão e fui rodar mundo. Eu trabalhava nos escritórios provisórios antes da inauguração do Cascais Shopping, em Portugal, quando ela entrou em minha sala inesperadamente. Assuntos profissionais a levaram até lá e uma não sabia o paradeiro da outra. Minha memória, que só retém coisas boas, me indica que o jantar aquela noite foi divertido, saudoso e cheio de surpresas.

Anos depois, eu estava com um grupo de amigos em viagem programada para Ilha Grande. Quando olhei o salão, achei ter visto Rogério, mas fiquei na dúvida: é-não é, vou-não vou, fui. Não só era Rogério, como era ele com Sabina, também estavam no grupo para a viagem. Diversão e riso, apesar de pouco termos nos esbarrado durante os dias na ilha.

Depois disso, eu estava na Cabritinha Vadia, um restaurante-pousada em Rio Bonito de Cima, para os lados de Lumiar, cujos donos eram o sueco Ulf e a mineira Regina, que proporcionavam inesquecíveis tardes com comida sueca-mineira e caipirinhas de maracujá, quando entraram Sabina e Rogério, com casa perto e refúgio frequente. Surpresa e mais sorrisos.

Do tempo em que trabalhamos na mesma empresa, guardo maravilhosos momentos que contei para a família quando voltei à mesa e pedi outro chope na pressão para comemorar o encontro. Um dos melhores é que certo dia, no departamento de arte, não sei como nem porquê, comentei que nunca havia provado comida japonesa. Naquela época os restaurantes eram poucos e não havia entrega em casa. Na mesma hora, Rogério mandou encomendar o almoço da galera de promoções e design em uma peixaria na rua das Laranjeiras que entregava em domicílio. Usamos a mesa larga e comprida onde os trabalhos eram apresentados para o banquete e foi a primeira vez em que segurei os hashi e comi peixe cru. De lá para cá nunca mais parei, adoro!

Da mesma forma, adoro esses nossos encontros não programados pelas cidades da vida. Eles contam um pouquinho da história que vamos escrevendo sem destino. Até o próximo.

Foto: Campeonato Redley de Body Board, camiseta e boné: arte Rogério Martins.