Chegada

Desde todo o sempre havia imaginado o que sentiria, como seria a sua chegada. Imaginava cenas, contava passos, trocava olhares, antecipando a sensação do momento, antecipando a emoção sentida.

Desde o início, senti que seria meio mágico, meio trágico; senti que seria tudo ou nada, não seria meio termo. Sentia as cores, ouvia sons que fariam parte do momento; tudo seria marcado pela espontaneidade, de acordo com o imprevisível, em parceria com o desconhecido.

Desde o primeiro momento, sua chegada era aguardada, ansiada, precisada. Muito tempo depois de partir foi que encontrei seus olhos, olhei no fundo mais fundo de seus olhos e o vi, o enxerguei. Olhamos-nos rapidamente, balançamos a cabeça e soubemos, então, que nossas vidas estariam para todo o sempre ligadas de alguma forma forte e única de nós mesmos.

Quando vi seus olhos me olhando, febris, insones e incendiários, não consegui desviar, não consegui deixar de olhar. Quando entendi que nada compreendia, que não aceitava, abaixei meus olhos para mim mesma, debrucei sobre meu íntimo, descobri minha alma e viajei por lugares não visitados, revisitei lugares conhecidos, que na aurora de meus dias me impulsionaram para a frente e me fizeram crescer.

Quando pegou minha mão e entre seus dedos esquentou os meus, energia forte, ouvimos sons e trovoadas internas sacudiram a razão da impossibilidade e nos deixaram a sós, a decidir nosso tempo, a descobrir ou tentar descobrir o que viria pela frente.

Hoje, quando volto aos lugares conhecidos de tanto tempo, não sei ao certo se tudo não passou de um sonho que ainda vivo, ou se é a vida de verdade que vivo como se fosse um sonho, por vezes manchado de escuro, uma sinfonia inacabada, um sax a me guiar o caminho de volta a superfície.

Desejo 2

No momento em que você me olhou de volta, com a entrega estampada em seu rosto, eu soube. Você não voltou, chegou. Chegou a um lugar há muito procurado, há tanto almejado. Seu olhar foi de eternidade no minuto, olhar de súplica, desejo e promessa. Você me olhou de perto, bem perto, pela primeira vez, e não houve sombra ou dúvida, estava dito pelos seus olhos. A partir dali, tudo foi encaixe, quando eu segurei sua mão, perguntei porque demorara, quando envolvi seu corpo com meus braços, aconcheguei meu rosto no seu e beijei sua boca com intensidade e delicadeza. Meu beijo tinha gosto de vinho conhecido, tinha gosto de beijo novo, tinha gosto. Meu gosto. Você estremeceu e sorriu para mim, um sorriso só meu. Segurei seus cabelos e seu pescoço com firmeza, olhei de volta para você e mostrei que seu lugar era lá, perdida em meu abraço. Ou encontrada, em meus braços.

O Ser invisível

Esse Ser me acompanha desde sempre. Vive comigo adormecido e desperta em horas inesperadas. Pode ser em um belo dia de sol ou debaixo do temporal, ele está lá, presente. O Ser invisível tenta me controlar, joga sujo e mente, me acorda de madrugada com dois faróis luminosos e um grito de filme de terror e quando tento voltar a dormir, ele ri de mim, debochadamente, enquanto continua sua desonesta campanha. Ele está atento a tudo e na maioria das vezes interpreta errado, blefa todo o tempo, faz o meu coração bater descompassado, pois não sei quando aparecerá novamente com suas ideias rocambolescas e tramas macabras. O Ser invisível resiste a incensos e rezas, aprofunda suas raízes podres que contaminam tudo ao redor. No entanto, esse Ser poderoso que abala certezas e enfraquece minha alma, não me derruba. Para cada noite em que ele aparecer, haverá um novo dia em que tentarei vitória com meu mantra de paz.

Dentro da noite fria

Dentro da noite fria, um calor percorreu dedos e entrelaçou mãos, antecipando momentos e acelerando emoções. Ao primeiro toque houve o reconhecimento do sempre, o esclarecimento da espera, o encontro de toda a busca. Um certo receio de enxergar além da alma se apossou. Mas tão breve como veio, foi-se pois era promessa de vida. Chegava o momento eterno. Quando, de mãos dadas e coração disparado, o olhar se encontrou, foi a urgência do tempo, foi a saudade do nunca e foi o beijo suspirado que ficaram impressos na pele. 

Desejo

 ”…Em um mundo onde o tempo é uma qualidade, os eventos são marcados pela cor do céu, o tom do sinal sonoro do barqueiro no Aare, o sentimento de felicidade ou medo quando uma pessoa entra em um recinto. (…) Em vez disso, eventos deslizam pelo espaço da imaginação, materializados por um olhar, um desejo.
Da mesma forma, o período que separa dois eventos é longo ou curto, dependendo do que antecede tais eventos, da intensidade da luz, do grau de luz e sombra, da visão dos participantes. (…)”
Alan Lightman
Einstein’s Dreams

Fiquei sem jeito. Você recusou meu convite e eu não soube mais como me comportar. Coloquei a mão no bolso, virei o rosto, sorri sem graça. É difícil me deixarem sem jeito, fiquei. Mas você não percebeu nada disso. Já tinha caminhado, sozinha, na escuridão. Mais cedo, vi como você me olhava com mal disfarçado interesse, como se me visse pela primeira vez e pensei que você aceitaria. Você andava pela sala e eu a olhava com meus pequenos olhos azuis, prestava atenção em seus mínimos movimentos, vi quando tirou o casaco, como jogou a cabeça para trás quando riu, passou a mão pelos cabelos, a língua no canto da boca, sugando a última gota de vinho. Sentei-me ao seu lado, enchi seu copo com vontade de beijá-la, sentir o gosto do vinho em sua boca, e você, ainda sorrindo, pousou, delicadamente, a sua mão na minha perna, numa fração de segundo, nossos dedos se esbarraram, você retirou a mão e um arrepio percorreu meu corpo. Nossos joelhos se encostaram e, dessa vez, você deixou ficar. Meu coração acelerou, eu queria abraçá-la, sentir a quentura de sua mão novamente, entrelaçar nossos dedos, encostar meu corpo no seu e, numa dança sensual, sentir o cheiro de sua pele, beijar seu pescoço, sentir sua entrega. No entanto, paralisei, falamos sobre nada, fatos banais, alguém chamou seu nome e você levantou. Deixei-me ficar, esperei que voltasse, mas você não voltou. Até hoje, não mais voltou.

A dama e a bandeira

Pedro era um rapaz muito envergonhado. Estava sempre com os olhos grudados no chão, caminhava devagar com as mãos nos bolsos, falava baixo e pouco. Só conversava se puxassem conversa com ele, nunca tomava a iniciativa. Não se olhava no espelho e evitava locais que pudessem refletir sua figura: achava-se esquisito. Gostava mesmo da internet com câmera desligada e dos jogos no computador.

Certo dia, por curiosidade, resolveu passear pelas páginas de amigos no site de relacionamentos e encontrou um nome novo: Carol. Carol… Carol quem seria? No lugar da foto tinha uma carta comum de baralho, uma dama de copas. Tentando lembrar se a conhecia, apoiou o cotovelo na mesa e, olhando para o teto, esbarrou no teclado abrindo uma janela de conversa. Entrou em pânico, mas antes que pudesse desligar o computador, Carol respondeu com um “oi” todo florido. Pedro prendeu a respiração e por pouco não apertou o botão power. Respondeu um “olá”, e em seguida pediu desculpas. Carol quis saber por que ele pedira desculpas, Pedro não soube responder. Ele perguntou por que ela perguntara aquilo, Carol engasgou no teclado. Passaram horas fazendo perguntas para o outro, até que chegou a noite e chegou a hora do jantar e chegou a hora de dormir.

Carol, no jeito de ser, era parecida com Pedro. Tinha vergonha dos seus cabelos ruivos que chamavam muita atenção e olhava para baixo quando caminhava. Não tinha o costume de conversar no computador, nem no telefone. Era uma moça muito quieta e quando escreveu o “oi” florido para o Pedro foi sem querer: queria ver como era aquele “oi” cheio de flores em volta. Mas Pedro respondeu em vez de desligar.

No dia seguinte, quando Carol ligou o computador, Pedro já estava lá à espera dela. Conversaram, fizeram perguntas um para o outro e começaram a respondê-las. No terceiro dia, Carol chegou antes de Pedro e conversaram, contaram histórias das famílias, falaram de amigos, trocaram ideias sobre livros, revistas, músicas e filmes. Descobriram que gostavam dos mesmos livros, liam as mesmas revistas, baixavam as mesmas músicas e compravam os mesmos filmes.

Muito tempo se passou desde o primeiro encontro no computador. Pedro e Carol eram amigos, mas nunca tinham se visto. No computador, Carol era a dama de copas e Pedro era a bandeira do Flamengo. O vermelho e o preto predominavam, gostavam das mesmas cores.

Um belo dia, descobriram que frequentavam a mesma sorveteria, pediam sempre o mesmo sabor, era possível que já tivessem passado um pelo outro sem saber. Marcaram um encontro: Pedro sugeriu o dia, Carol disse a hora. Pedro acreditou que a iniciativa de marcar o encontro havia sido dele, Carol pensou que fora dela. Pedro e Carol vestiriam camisetas vermelhas para que pudessem se reconhecer.

No dia marcado, na hora combinada, Pedro e Carol chegaram praticamente ao mesmo tempo em uma sorveteria com muitas outras pessoas vestidas de vermelho. Tinha mãe com bebê no colo,

tinha avô com bigodes grandes, tinha pais e filhos, tinha muita gente, todos vestidos de vermelho, saídos de uma festa no clube ao lado.

Pedro, com as mãos nos bolsos, e Carol, com os olhos no chão, pareciam fazer parte da turma da festa no clube. Pedro com os olhos baixos e Carol com os braços cruzados foram se distanciando do balcão, foram andando para fora da sorveteria, foram caminhando para a beira da calçada até que esbarraram um no outro. “Desculpa!” exclamaram ao mesmo tempo em que se olharam. Pedro ficou encantado com aquela moça de cabelos vermelhos e olhos verdes, tão bonita que parecia ter saído de um dos contos de fadas que sua irmã mais nova costumava reler. Carol olhou para Pedro e sentiu faltar uma batida no coração quando ele sorriu ao pedir desculpas. Ele era mais alto que ela, tinha os cabelos castanhos claros e olhos cor de mel. Carol nem imaginava que aquele rapaz bonito era o Pedro com quem ela conversava. Um rapaz bonito daquele jeito nunca olharia para ela, a desengonçada de cabelos vermelhos. Não passou pela cabeça de Pedro que aquela moça linda era a Carol-dama de copas. Uma moça formosa assim não olharia para ele, sujeito tão esquisito.

Nenhum dos dois disse nada, distanciaram-se um do outro, ainda olharam em volta. A sorveteria continuava cheia de pessoas vestindo vermelho. Nunca se encontrariam ali. Não era o dia, não era para acontecer.

Pedro começou a caminhar com as mãos nos bolsos, de volta para casa, quando ouviu alguém gritar seu nome:

– “Pedro!” Quando ele se virou, estava Rodrigo, seu amigo de infância, ao lado da moça de cabelos vermelhos.

– “Que coincidência!” disse Rodrigo para ele. – “Encontrar você e Carol aqui na sorveteria hoje!”

Carol e Pedro se olharam. A dama da copas e a bandeira do Flamengo deram lugar a uma bela moça de cabelos vermelhos e a um rapaz bonito com um sorriso contagiante. Pedro e Carol, envergonhados, mas satisfeitos, pediram um sundae de floresta negra, o sabor preferido dos dois, e conversaram de verdade pela primeira vez.