Primeiras impressões de São Paulo

O ano era 1989. As ordens eram não temer mudanças. Não sentir, de novo, tristes sentimentos familiares. “Acho que Deus está pregando uma peça muito feia em mim”. Justo quando tentava me reaproximar d’Ele. Olhava para o alto, procurava por Ele, sentia a Sua presença mas não O compreendia. Sensações tumultuadas, divididas, tomaram conta. Senti medo.Smile. No pré-histórico walkman, Eric, com sua voz rouca me dizia para sorrir, para lembrar, confirmando nossa existência. Era a música de Chaplin que mostrava a lição verdadeira de que a lembrança alegre, viesse como viesse, levasse aonde levasse, ficaria. Olhava para ele deitado no leito do hospital, onde passei dias, e lembrava-me de meu avô, com os mesmos olhos suplicantes: “Façam algo por mim. Não me deixem aqui”. Ansiei por uma prece, um pedido, queria acordar do pesadelo, do sonho ruim repetido. Não queria sentir novamente a proximidade do fim. Senti-me numa bifurcação, onde tive de optar pelo eterno ou pelo momento. Um frio subiu e desceu pela minha espinha. Era um lado adormecido que tentava despertar e naquele momento não havia lugar para ele em minha vida. Muitos rótulos para o mesmo turbilhão de emoções. Sentia que a sua partida mudaria definitivamente minha vida. E mudou.

O Ser invisível

Esse Ser me acompanha desde sempre. Vive comigo adormecido e desperta em horas inesperadas. Pode ser em um belo dia de sol ou debaixo do temporal, ele está lá, presente. O Ser invisível tenta me controlar, joga sujo e mente, me acorda de madrugada com dois faróis luminosos e um grito de filme de terror e quando tento voltar a dormir, ele ri de mim, debochadamente, enquanto continua sua desonesta campanha. Ele está atento a tudo e na maioria das vezes interpreta errado, blefa todo o tempo, faz o meu coração bater descompassado, pois não sei quando aparecerá novamente com suas ideias rocambolescas e tramas macabras. O Ser invisível resiste a incensos e rezas, aprofunda suas raízes podres que contaminam tudo ao redor. No entanto, esse Ser poderoso que abala certezas e enfraquece minha alma, não me derruba. Para cada noite em que ele aparecer, haverá um novo dia em que tentarei vitória com meu mantra de paz.

Infinito enquanto dura

Há quatro anos, acompanhando meu pai em sua consulta médica regular, conversando, ele contou ao médico que estava casado com minha mãe há 46 anos, sua namorada há 51, como ele gostava de enfatizar. Eles assistiam à tv de mãos dadas e liam o pensamento um do outro. Na próxima sexta-feira, dia 20 de julho de 2012, eles completariam 50 anos de casados, Bodas de Ouro. Mamãe havia começado a planejar a festa, mas não deu tempo.

Naquele dia, voltei para casa pensando nessa eternidade de sentimento. Um só amor por mais de cinquenta anos. Qual a fórmula ou como é que eles conseguiam? Não conheço quase ninguém de minha geração que ainda esteja junto de seu primeiro amor, ou em seu primeiro casamento. Frise-se o quase.

Tive grandes amores. Eles foram o que chamo de sucessos finitos. Como escreveu o poetinha Vinícius, repetido à exaustão, “(…) Eu possa dizer do amor (que tive): /que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure.” Meus amores foram infinitos em sua finitude. Não foram muitos, foram grandes. Imensos, maiores que eu mesma. Enquanto duraram, foram o paraíso, e no momento de suas mortes, o inferno. Dores de amores doem. Muito. Repetindo: Muito.

Com o passar dos anos – e dos amores – vamos amadurecendo o amor em nós. Ou eu vou, melhor falar na primeira pessoa. Mas… Talvez seja mais fácil na segunda: Você vai desconfiada/o, coloca mil barreiras, menospreza, fala com você mesma/o que não é bem daquele jeito que a banda toca. Que muita água há de correr e que tudo o que você quer é correr dali. Acende um sinal de Perigo! Piscante, luminoso, vermelho, com uma buzina infernal. Muitas vezes, você simplesmente desiste. Dá muito trabalho, tem kit abacaxi… Poucas outras, paga para ver. A essa altura do campeonato da vida, já sabendo dos riscos que corre. Mas… Sabe lá? Quem desistiu do encontro? Quem desistiu de tentar?

E quando você olha no olho, segura a mão e ouve a palavra-mais-que-perfeita no momento-mais-que-perfeito? É óbvio, que quando a esmola é demais, o santo desconfia, mas se ele estiver distraído na hora? Aí, então, com toda sua capacidade de análise de riscos e oportunidades você faz uso do seu melhor julgamento e mergulha de cabeça em um lago de profundidades desconhecidas.

É assim que surgem e são vividos os grandes amores. Na primeira pessoa do singular. No caso, plural. Ah, já não sei mais… Só sei que sexta que vem, a família reduzida, desfalcada de seu mais generoso participante, jantará em homenagem ao amor que se transforma e, dessa forma, permanece para a eternidade.

 

Para os fãs, com amor

Na primeira sessão, do primeiro dia em cartaz fui assistir ao novo Woody Allen. Ah, é aquela coisa, né, para quem é fã desde a mais tenra idade e acompanhou várias faces do mesmo autor, Woody é para sempre com amor.

Seu mais recente é uma comédia, para rir bastante, com sua participação como ator em mais um personagem cheio de neuroses – que adoro -, muitas imagens de Roma e tramas paralelas que quase se esbarram. Baldwin se encontrando com ele mesmo trinta anos mais jovem (essa é a minha interpretação) e confirmando que sua escolha fora a mais correta: trocou a insegurança de uma aventura de tirar o fôlego trinta anos antes, por uma vida organizada. Poderá não ter sido tão emocionante, mas terá demonstrado a serenidade dos acertos. As cenas com Benigni, cidadão comum que é alçado ao posto de celebridade sem ter feito nada para isso são um reflexo bem conhecido de nossos dias, vidas expostas nas ruas, nas redes, aqui mesmo. Afinal, o que ele comeu de café da manhã naquele dia não deixa de ser como uma das milhões de postagens de facebook e afins. O cantor de ópera que só canta no chuveiro e as produções – o personagem de Woody é um produtor de musicais “muito à frente de seu tempo”, uma crítica para aqueles que querem reinventar a roda – levadas aos grandes teatros com o tenor (?) pelado dentro de um box de chuveiro e grande orquestra e atores rende aquele tipo de gargalhada pela vergonha alheia. As cenas são ótimas. Penélope Cruz faz quase uma figuração de luxo, mas é Penélope, e o encontro dela com seus clientes em um evento super careta, com famílias conservadoras rende mais risos. Creio ter ouvido alguns risos do tipo “nervosos”, na sala de cinema, como a dizer “já passei por isso” ou “Deus me livre passar por algo semelhante”. Outra cena interessante é a de Milly, que perde-se em Roma e é encontrada por um grande ator italiano que tudo faz para seduzi-la. Ela é casada. Mas será que uma fugidinha com seu ídolo seria considerada infidelidade? Afinal, uma chance como aquela, para pessoas comuníssimas como Milly, não apareceria outra vez… Há quem diga que o filme está repleto de clichés, eu acredito em tarde com poesia, risos, assuntos do dia a dia, Woody – sempre ele -. Faltaram só o vinho e a pipoca. Assim que sair em dvd.

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta

“A senhora é tão moça, tão aquém de todo começar que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma muito estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez, depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar – como uma maneira de ser particularmente feliz e pura. Eduque-se para isto, mas aceite o que vier com toda a confiança. Se vier só da sua vontade, de qualquer necessidade de seu ser íntimo, aceite-o e não o odeie.”

O filme mais bonito

 Desde janeiro nos cinemas, o filme A música segundo Tom Jobim  é classificado como documentário nas categorias de cinema, mas para mim é o filme da vida. Da minha vida.

Em 90 minutos, por meio da música do maestro e do olhar delicado do mestre Nelson, faço uma viagem no tempo, com imagens que começam nos anos 1960 e atravessam três décadas de pura poesia.

Voo no tempo e lembro-me que o vinil do show antológico com Vinícius, Toquinho e Miúcha gastou no antigo aparelho de som três em um, em tardes amenas e ensolaradas passadas em família em Friburgo.

Tempos depois, eu trabalhava em uma empresa de moda que adotou o mico-leão dourado no Zoo do Rio e pediu autorização ao Tom para modificar a letra do refrão de Borzeguim para “deixa o mico vivo” e imprimir em uma camiseta para venda em todas as lojas. Meu xodó até hoje. A jornalista responsável pelo acordo me chamou para irmos à casa de Tom finalizar o contrato, o que não recusei. Naquela noite, cheguei em casa e falei para meu marido na época que nunca mais lavaria minhas bochechas que Tom havia beijado. Emoção de fã no encontro com o ídolo.

Passarim foi o primeiro cd brasileiro que comprei, em uma loja no shopping do Rio, onde encontrei meu pai para jantar. Lembro-me de mostrar a nova mídia, um tipo de vinil metálico em miniatura, tocado só de um lado. Esse cd atravessou oceano e subiu serras, em minhas idas e vindas pela vida. Repousa, hoje, na estante organizada até a próxima investida no aparelho de som.

Anos depois, eu trabalhava em Lisboa, sempre ouvindo música, quando minha amiga me deu a notícia de sua partida. Não pude acreditar. Como assim? Ídolos não morrem nunca. Mamãe confirmou e meu irmão enviou do Brasil tudo o que saiu sobre ele na imprensa, desde reportagens inteiras a emocionadas homenagens. Antonio Brasileiro marcou meus últimos momentos na terrinha, entre caixas de mudança e vida por empacotar.

Em 1996, a publicação da biografia escrita por sua irmã foi lida e relida. Belas histórias que se misturaram às do Rio, cantado e arrebatado por Tom em sua poesia musicada.

E agora, tantos anos depois, Nelson transformou a poesia musicada em poesia filmada, perpetuando os sonhos da menina que nunca deixou de cantarolar minha alma canta / vejo o Rio de Janeiro / estou morrendo de saudades / Rio, seu mar / praia sem fim / Rio, você foi feito pra mim.