Eu queria que fosse diferente

Correu pelas escadas a tempo de entrar no vagão do metrô, em direção ao centro. Não estava cheio, mas os assentos estavam todos ocupados. Na primeira parada, levantou alguém de um banco, no qual você sentou sem perceber. Quando o celular tremeu dentro da bolsa e você olhou para baixo, viu que o banco onde estava sentada era de cor laranja, especial para idosos, mulheres grávidas, ou com crianças de colo e você não se encaixava em nenhuma definição. “Droga”, pensou, nunca usava aqueles assentos, porque achava um absurdo alguém ter de pedir a você que se levantasse. Sentada ao seu lado, viajava outra desavisada, também não pertencente àquele banco. O trem parou e você esticou os olhos para ver quem entrava e, antes que a porta se fechasse, você deu um salto, porque uma senhora idosa se dirigiu ao local. Foi aí que tudo começou. Ela apontou para a moça com altivez e disse a você: “Pode ficar, porque ela me dará o lugar.” Você já estava em pé e não se sentou mais. A moça, que estava lendo, olhou para a velha, olhou para você e, inicialmente, você não entendeu porque a velha insistiu com a outra, já que o seu lugar estava vazio. A moça guardou seus pertences vagarosamente, a velha insistiu para que ela levantasse, você continuou em pé e então reparou: você é branca, a moça é negra; você estava arrumada para festa, a moça usava roupas do dia a dia de trabalho; você estava com cabelo feito e maquiagem nova, a moça estava com cara cansada, de quem acabou de sair do trabalho. A moça se levantou, olhou para a velha que piscou para você, indicando o lugar vazio para que você se sentasse novamente. A sua indignação foi tão grande, olhou em volta, como a pedir ajuda, que chegou em forma de velhinha bem humilde, carregada de sacolas, a quem você indicou o assento vazio. Em frente à velha preconceituosa, saltitante em sua pequeneza, você olhou longamente, com tristeza e deixou cair uma lágrima.

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Dedo, pedaços e o Pacífico

Digito com três dedos, em vez de os quatro habituais, porque uma gaveta desregulada e fora do lugar – como está quase tudo ao meu redor – resolveu sangrar a carne. Quando vi, era um líquido quente e vivo que sujava tudo: documentos, papéis, agenda, o chão. Fiquei olhando para aquele dedo pingando e me perguntei como poderia vir tanto sangue de um pedaço tão pequeno. Debaixo da água fria da torneira o sangue continuava a correr e eu, que não tomo aspirina, comecei a fazer contas do tempo de coagulação. Se eu fosse para uma mesa cirúrgica hoje, teria que beber sangue alheio pelas veias, o que abrisse, demoraria a fechar. Como o pedaço do dedo. Na pia, era como se eu estivesse olhando para uma mão que não era a minha, um dedo sem dono, jorrando as lágrimas que meus olhos secos e cansados não vertem. Até tentei chorar, fiz força, fingi ser atriz, não consegui uma lágrima, só o sangue continuava a correr. Fechei a torneira, fiz uma bandagem de lenço de papel e apertei tão forte com o esparadrapo que, se o dedo não caiu por causa da gaveta, vai cair por falta de circulação. Procurei pela casa um óleo esquisito que mamãe diz ser milagroso, não encontrei, continuei com o torniquete, levantei o braço e fiquei com ele levantado até que cansei, pensei em chamar o 911 para ver se costurava minha alma, porque o dedo não tem mais salvação. A ligação é cara (para o 911) e eu ainda não estou bem certa que eles cheguem em pouco tempo, como mostra o filme. A unha estava tão bonitinha, comprida e feita, estragou tudo… Agora tenho um dedo despedaçado, apertado num papel, falta a tipoia, aquela azul, imensa, horrorosa, para compor o visual de ferida de guerra. Cada um vive a sua guerra e as batalhas travadas em 2011 foram violentas, tristes, úmidas, exaustivas, com poucos intervalos para recuperar forças. Acho que o sangue escorrido pelo dedo era parte de meu exército querendo debandar. Estamos todos cansados. Sonhamos, eu, meus dedos e meu espírito, com mar azul e dias de sol aconchegante. Sei lá quando teremos uns dias de licença. O tema guerra é porque assisti aos dez episódios da série The Pacific, uma produção HBO e Dreamworks de 2010, sobre as batalhas dos Marines no Pacífico, durante a Segunda Guerra. Maravilhosa série, principalmente para quem gosta do assunto como eu. No início de cada capítulo, um dos três veteranos ainda vivos – a série é baseda em fatos reais, realíssimos – fazia alguns comentários emocionados sobre o que eles tinham vivido e por que teriam eles sido escolhidos para sobreviver àquilo. Um deles falou que “às vezes, a única coisa que podemos fazer é rezar e esperar”. Rezar e esperar. O bombardeio passar, o sangramento secar, o dia tranquilo chegar.

OI – empresa. A quem enganar?

Estava pronta para escrever minha cartinha para mamãe, pelo dia que se aproxima. A OI não deixou. A culpa do adiamento é da OI. Reclamações com a OI.

Em janeiro de 2010, pedimos o cancelamento do Velox instalado na casa de papai. O motivo? Simplesmente não funcionava. O serviço era péssimo, intermitente e o modem queimou. Entrei em contato com a OI e solicitamos troca do modem. A resposta? A instalação gratuita do modem era somente para novos assinantes (????????) – Nunca entendi promoções super-especiais somente para novos clientes – A atendente me indicou duas saídas: que eu comprasse um modem novo – em torno de 120 reais naquela época – e chamasse um técnico para instalar, ou que cancelasse o serviço no cpf de papai e fizesse novo contrato no cpf de mamãe. Achei aquilo tão absurdo, que resolvi cancelar o serviço e pronto.

Muito bem, o serviço – de um modem que já estava pifado – foi cancelado, o protocolo anotado, a vida seguiu em frente, certo? Não…

15 meses depois, vou morar com mamãe, papai morreu. Entre a perda, o choro-nosso-de-cada-dia e a ausência, as contas que passei a monitorar. Quando recebi a conta da OI, com vencimento em 20 de abril, levei um susto com o valor. Em uma casa sem adolescentes, sem internet, sem interurbanos, como poderia ser aquele valor? Fui investigar item a item até que me deparei com 103 reais de Velox (?) Como assim, Velox? Esse serviço foi cancelado em janeiro de 2010, portanto há 14, 15 meses…

Liguei no dia 13 de abril, às 16h48 para a OI, protocolo 20111048643111, falei com Leonardo, expliquei a situação. Ele teria aberto uma contestação, eu não deveria pagar a conta com vencimento dia 20/04 e eu deveria esperar contato da OI em 5 dias úteis. No dia 20/04/2011, às 10h50, liguei e uma resposta eletrônica automática avisou que minha solicitação teria resposta no dia 27.

Liguei no dia 27/04/2011, às 14h20, protocolo 20111054169137, falei com Késsia e a ligação gentilmente caiu, APÓS eu explicar o caso.

Liguei novamente no mesmo 27/04, às 14h25, protocolo 201110554170874, falei com Eliatan. Ele me informou que o registro de 13 de abril fora feito em 20/04/2011 e seria fechado naquele dia (??). Que ele teria que contestar conta a conta nesses 15 meses e que ele faria isso. Em 48 horas a OI entraria em contato comigo e o protocolo daquela conversa era o 20111054185857.

Ainda sem respostas, liguei para OI no dia 2/5/2011, às 12h30, protocolo 20111056339556, falei com Fernanda. Ela disse que teria que passar a ligação para o pessoal do Velox. A ligação caiu.

No mesmo 2 de maio, liguei às 12h45, protocolo 20111056347393, falei com Aline. Disse que o registro de cancelamento do serviço tinha sido feito em 26/04/2011 e teria que passar a ligação para o pessoal do Velox. às 12h50, falei com Eliane, protocolo 217173529148 e disse que eu deveria aguardar resposta da contestação, mas só uma conta estava contestada.

No dia 5/5/2011, liguei para a OI às 11h45, protocolo 20111058135688, falei com Aline que me informou haver uma contestação da conta de março aberta, portanto não poderia fazer a contestação das outras contas (que afinal não havia sido aberta) no mesmo número de telefone fixo. Como eu não tinha outro fixo para ela abrir a contestação (????), ela instituiu o número de um telefone público da OI (21) 31519108 para fazer a contestação. Ainda me informou que o protocolo da contestação da conta com vencimento em março era o 217175947967.

Na mesma hora, entrei no site da OI e enviei um e-mail para o ombudsman do Velox, contando minha dificuldade com o atendimento que dava início a um novo processo a cada ligação minha. Esse e-mail teve o protocolo 219198705887.

Hoje, perto das 12 horas, ligou-me Rui, da Ouvidoria da OI/Velox. Ele me informou que o “sistema” acusa o cancelamento do serviço no dia 26/04/2011 e que a última conta estaria em avaliação. Que em 48 horas, eu receberei um telefonema da OI. Em um tom misto de desconfiança e reprovação, perguntou se o cancelamento do serviço foi mesmo pedido em janeiro de 2010, como NINGUÉM havia percebido nas contas? – Ele não deve ter idosos em casa.

Expliquei que as contas eram pagas pelo meu pai, idoso-idôneo e honesto, com hábitos de outros tempos, em que conta cobrada era conta devida. Nem passava pela cabeça dele tentar ler as letrinhas miúdas do relatório de contas para ver se a cobrança estava correta. Pedi que checasse com o “sistema” se houve movimentação de dados naquele Velox e ele veria que eu estava com a razão, desde janeiro de 2010, o Velox de papai não mais trabalhou, porque não existia.

E agora? O que fazer? Pelo andar da carruagem e dos telefonemas de “não é comigo”, a OI quer continuar com a picaretagem e tentar me vencer pelo cansaço. Nem pensar. Essa eu não engulo.

Eu odeio a OI!

Matar os leões do dia

Tentei escrever amenidades. Juro que tentei. Mas os leões da savana carioca não deixam. Tudo começou com a busca de documentos necessários para dar início ou fim às atividades de papai. Desde o óbvio ao mais estranho. Vou contar e dar nomes aos bois:  Nos primeiros dez dias, no meio da dor e das lágrimas, meu irmão percorreu cartórios (só em um dia foram nove e ele chegou com a calça jeans furada de tanto roçar uma perna na outra, andando) para tirar as mais estafúrdias certidões, retrato da burocracia deste grande país, onde os bons pagam pelos maus, onde o ex-presidente se gaba de não saber ler e passa a ganhar milhões por uma hora de palestra, onde as chuvas ceifam vidas e onde as obras prometidas não começam ou param assim que os jornalistas encontram outro foco de notícias.

Desde fevereiro de 2010 (quinze meses!) a Oi, sim uma das empresas campeãs de reclamações, cobra o Velox cancelado em janeiro do ano passado na conta de telefone de papai. A última conta veio cobrando 103 reais de um serviço desligado há quinze meses. Tenho 9 protocolos de contestação e ninguém resolve nada;

A Tecval, empresa de consertos de eletrodomésticos, levou quase dois meses para consertar a lava-louças e conseguimos que viessem esta semana após muita chateação e ameaças de processos legais. A máquina foi consertada e vamos ver se está mesmo funcionando;

Cartões e contas de bancos – aqui acho melhor não mencionar as bandeiras e marcas – peregrinação diária: jurídico, cancelamento, protocolos que se acumulam e espera;

A atendente da Qualicorp, empresa de administração do plano de saúde pessoa jurídica à qual meu pai era ligado, sugeriu que eu fingisse que papai continuava vivo para não perder benefícios (que não perdemos na migração), queria que pagássemos uma fatura ainda por vencer porque a comunicação do óbito não poderia ultrapassar um mês (foi feita com 32 dias) e enrolou mais um pouco até receber meus gritos de desespero e ameaças de processo;

O seguro do carro de papai não pode mudar de titularidade por enquanto, mas eu tive que mudar o tal do condutor principal, pois caso acontecesse algo, a seguradora poderia não pagar. Mas isso eu descobri sozinha, olhando para o documento do carro. A nossa corretora de seguros conseguiu identificar quem era o responsável por aquele seguro, entrei em contato, mandei documentos e modificamos o perfil do condutor. Saímos de um homem com quase 74 anos para uma mulher de 48 e tivemos que pagar mais 140 reais. Como assim? Um homem de 74 anos dirigindo é mais seguro do que uma mulher de 48, com carteira há 30 anos? Renato Russo, por favor, comece a entoar “que país é esse?”…

O Club Municipal, de servidores públicos, tem a maior burocracia, juntamente com a Apsa, administradora de imóveis. Na Apsa, os atendentes são educados, já no Club Municipal são casca mesmo. Falo com os dois e as providências (por parte deles) são sempre adiadas, porque os processos estão em algum lugar entre o céu e a terra e ainda não chegaram aonde deveriam chegar.

Assinatura de O Globo. Eles erraram. Esqueceram de cobrar um mês. Queriam que eu pagasse dobrado no mês seguinte. Foram em torno de 6 telefonemas até que falei para mamãe: quando o jornal parar de chegar, passaremos a ler na internet. O setor de cobrança resolveu, mas esqueceu de comunicar ao atendimento. Isso porque é uma empresa de comunicação…

A Net mudou a titularidade, foi eficiente e rápida, marcou de vir buscar os equipamentos que estavam em minha casa e eles estão guardados até hoje em uma sacola na parte de cima do armário;

Falando em casa onde morava, melhor deixar para lá… Isso não merece nem minha lembrança. Quem, mesmo?

De setor para setor, dentro das empresas, as informações se modificam, algumas empresas avisam que a ligação será gravada, mas não enviam a gravação para você quando solicitada e cada dia que acordo, penso: com quem mesmo terei que reclamar hoje? Os leões estão vivos, rondam, rugem e me cutucam todas as madrugadas, pontualmente às 3h36min. Algumas vezes, viro um pouco e durmo. Outras vezes, permaneço acordada imaginando como tudo poderia ser diferente na vida e no país da dificuldade.

“Olá, boa tarde! Como posso dificultar seu dia hoje?”