Matar os leões do dia

Tentei escrever amenidades. Juro que tentei. Mas os leões da savana carioca não deixam. Tudo começou com a busca de documentos necessários para dar início ou fim às atividades de papai. Desde o óbvio ao mais estranho. Vou contar e dar nomes aos bois:  Nos primeiros dez dias, no meio da dor e das lágrimas, meu irmão percorreu cartórios (só em um dia foram nove e ele chegou com a calça jeans furada de tanto roçar uma perna na outra, andando) para tirar as mais estafúrdias certidões, retrato da burocracia deste grande país, onde os bons pagam pelos maus, onde o ex-presidente se gaba de não saber ler e passa a ganhar milhões por uma hora de palestra, onde as chuvas ceifam vidas e onde as obras prometidas não começam ou param assim que os jornalistas encontram outro foco de notícias.

Desde fevereiro de 2010 (quinze meses!) a Oi, sim uma das empresas campeãs de reclamações, cobra o Velox cancelado em janeiro do ano passado na conta de telefone de papai. A última conta veio cobrando 103 reais de um serviço desligado há quinze meses. Tenho 9 protocolos de contestação e ninguém resolve nada;

A Tecval, empresa de consertos de eletrodomésticos, levou quase dois meses para consertar a lava-louças e conseguimos que viessem esta semana após muita chateação e ameaças de processos legais. A máquina foi consertada e vamos ver se está mesmo funcionando;

Cartões e contas de bancos – aqui acho melhor não mencionar as bandeiras e marcas – peregrinação diária: jurídico, cancelamento, protocolos que se acumulam e espera;

A atendente da Qualicorp, empresa de administração do plano de saúde pessoa jurídica à qual meu pai era ligado, sugeriu que eu fingisse que papai continuava vivo para não perder benefícios (que não perdemos na migração), queria que pagássemos uma fatura ainda por vencer porque a comunicação do óbito não poderia ultrapassar um mês (foi feita com 32 dias) e enrolou mais um pouco até receber meus gritos de desespero e ameaças de processo;

O seguro do carro de papai não pode mudar de titularidade por enquanto, mas eu tive que mudar o tal do condutor principal, pois caso acontecesse algo, a seguradora poderia não pagar. Mas isso eu descobri sozinha, olhando para o documento do carro. A nossa corretora de seguros conseguiu identificar quem era o responsável por aquele seguro, entrei em contato, mandei documentos e modificamos o perfil do condutor. Saímos de um homem com quase 74 anos para uma mulher de 48 e tivemos que pagar mais 140 reais. Como assim? Um homem de 74 anos dirigindo é mais seguro do que uma mulher de 48, com carteira há 30 anos? Renato Russo, por favor, comece a entoar “que país é esse?”…

O Club Municipal, de servidores públicos, tem a maior burocracia, juntamente com a Apsa, administradora de imóveis. Na Apsa, os atendentes são educados, já no Club Municipal são casca mesmo. Falo com os dois e as providências (por parte deles) são sempre adiadas, porque os processos estão em algum lugar entre o céu e a terra e ainda não chegaram aonde deveriam chegar.

Assinatura de O Globo. Eles erraram. Esqueceram de cobrar um mês. Queriam que eu pagasse dobrado no mês seguinte. Foram em torno de 6 telefonemas até que falei para mamãe: quando o jornal parar de chegar, passaremos a ler na internet. O setor de cobrança resolveu, mas esqueceu de comunicar ao atendimento. Isso porque é uma empresa de comunicação…

A Net mudou a titularidade, foi eficiente e rápida, marcou de vir buscar os equipamentos que estavam em minha casa e eles estão guardados até hoje em uma sacola na parte de cima do armário;

Falando em casa onde morava, melhor deixar para lá… Isso não merece nem minha lembrança. Quem, mesmo?

De setor para setor, dentro das empresas, as informações se modificam, algumas empresas avisam que a ligação será gravada, mas não enviam a gravação para você quando solicitada e cada dia que acordo, penso: com quem mesmo terei que reclamar hoje? Os leões estão vivos, rondam, rugem e me cutucam todas as madrugadas, pontualmente às 3h36min. Algumas vezes, viro um pouco e durmo. Outras vezes, permaneço acordada imaginando como tudo poderia ser diferente na vida e no país da dificuldade.

“Olá, boa tarde! Como posso dificultar seu dia hoje?”

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