Mais um carnaval…

Nada mais atual que a música de Chico, mais um carnaval para nos distrair das mazelas do país, nossa mãe não gentil, com a brava gente brasileira que quer a pátria livre sem morrer pelo Brasil. Vamos lá, pátria amada, idolatrada, salve salve, salve-se quem puder.

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Até o próximo carnaval

Carnaval sempre foi assunto sério em família. Brincamos o carnaval desde pequenos, em suas mais diferentes formas, blocos de rua, bailinhos de salão, escola de samba, festa em casa. Papai inventava blocos que nunca saíam de sua imaginação e de sua gaiatice: BBMB foi o Bloco dos bolas murchas das Braunes, um bloco implicante com filhos e sobrinhas adolescentes que sambavam nos bailinhos até o dia amanhecer, seguiam para a canja da sustância, no restaurante do clube, e passavam o dia dormindo, restabelecendo forças para a noite seguinte. Empurra que pega veio depois, ninguém empurrou, o bloco não pegou e ninguém saiu das brincadeiras em casa. Meu padrinho não viajava para férias em família sem o timbau, muitos anos antes do instrumento correr mundo no ritmo da timbalada. Batucava e fazia contraponto com a mão da aliança, era um som único para nós. Eu cresci com o rock na cabeceira, mas carnaval era outra coisa, outro momento, era a nossa folia. Alguns anos depois, papai foi o chef que preparava os melhores sanduíches para depois dos ensaios do Suvaco do Cristo, aos domingos, no Horto. Mangueirense, torcia pela escola como para o próprio time de futebol, sempre com muita parcialidade, chegou a ligar para mim, de férias no México, só para dizer que Mangueira havia sido a campeã daquele ano.

Vivi outros carnavais divertidos em ensaio da Portela, no ensaio do Salgueiro com Bono na pista e meus amigos tentando o suicídio coletivo por insolação ou correndo atrás da calota perdida em direção a Tiradentes em carnaval já relatado aqui. Sassaricando na Glória e com Monobloco na Cinelândia. Vivi muitos carnavais, sinto saudades deles e anseio pelo próximo em que estarei presente.

Faz dois anos que o carnaval passa pela esquina e não me carrega. Vejo a alegria do povo nas ruas, me divirto com algumas fantasias, torço para a chuva não estragar a festa, escolho um livro e fico quieta no meu canto. Quem sabe o próximo me arrebatará.

A música de um carnaval distante

Quem é você?

‑ Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

‑ Quem é você, diga logo…
‑ Que eu quero saber o seu jogo…
‑ Que eu quero morrer no seu bloco…
‑ Que eu quero me arder no seu fogo.

‑ Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
‑ O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
‑ Eu tenho um pandeiro.
‑ Só quero um violão.
‑ Eu nado em dinheiro.
‑ Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
‑ Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
‑Eu sou tão menina…
‑ Meu tempo passou…
‑ Eu sou Colombina!
‑ Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

O som de um carnaval distante

Digi (58)

Ecos de um carnaval distante

1975 - Brasilia

é carnaval…

Os Filhos de Beibe e seus Companheiros de Riso

Uns dizem que ela-pé-quebrado, sentou na janela e viu a banda passar. A banda, a bunda, os braços, os beijos perdidos de um carnaval distante. Dizem também que quis entrar numa festa-de-sabão, suas amigas impediram. Ainda contam que desmaiou quando o desdentado sorriu pra ela no meio da praça, foi parar no pronto-socorro, amônia no nariz e glicose na veia. Contam que a vaquinha perambulou por castos pastos até cansar de ruminar. Relatos confiáveis informam que albaneses sequestraram os vídeos das festas da Mariozim e cobram fortuna em euros como resgate. Quiseram tirar fotos, ninguém sabe, ninguém viu.

Uns dizem que ele namorou todas as meninas de Perequê, até hoje é cabra procurado na cidade, não passa nem pela estrada. Dizem também que ele chegou vestido de hipopótamo faltando uma orelha, fala arrastada, e não sabe onde deixou ficar um pedaço de si. Ainda contam que ele bebia xiboquinha nas barracas da feira, insistia para provarem, não havia drink igual. Contam que ele saiu revoltado da concentração da Escola e foi sambar em outra avenida com lata de cerveja na mão. Relatos confiáveis informam que faz parte das perguntas de formulários de seguros: se ele está presente, o seguro sai mais caro. Quiseram tirar fotos, ninguém sabe, ninguém viu.

Uns dizem que ele abraçava todos os postes pelo caminho. Não se sabe se era amor ou bebedeira. Dizem também que ele foi arrastado pelo veleiro, em ventos de calmaria, mas pediu pelamordedeus para parar porque a sunga ficou para trás. Ainda contam que ele fez um pacto do “ninguémronca” e não houve guerreiro corajoso para denunciar. Contam que eram três rapazes elegantes, com três meninas: uma não gostava de carnaval, outra não gostava de namorar e outra se chamava Rodrigão. Estão correndo delas até hoje. Relatos confiáveis informam que o leão do blurps e arghs desmaiou em um banco de praça depois de esmurrar a porta de um quarto de hotel e não saber onde estava hospedado. Quiseram tirar fotos, ninguém sabe, ninguém viu.

Uns dizem que ele abriu o bote inflável na sala e toda a areia de Mambucaba estava lá dentro. A faxineira olhou praquilo, pediu as contas e foi trabalhar em outra freguesia. Dizem também que ele vendeu o mesmo barco para os velhinhos do asilo inúmeras vezes. Ainda contam que parou o barco na praia ao lado, ficou inebriado com tanta gente feia e passou mal durante dias. Contam que eram três rapazes elegantes, com três meninas: uma não gostava de carnaval, outra não gostava de namorar e outra se chamava Rodrigão. Estão escondidos delas até hoje. Relatos confiáveis informam que ele deixou a vassoura na mão do irmão e se arrancou da casa antes da faxina geral. O irmão tentou levantar voo, mas era uma vassoura sem poderes. Quiseram tirar fotos, ninguém sabe, ninguém viu.

Uns dizem que ele pegou o isopor cheio de cerveja da festa que não aconteceu e levou para a mansão dos pobres. Ainda procuram pela bebida, o isopor ele guardou na garagem. Dizem também que ele chegou com moça de boa família, do tamanho dele, trazendo uma rede da vizinha, pendurou na parede e ficou lá com elas, a moça, a rede e a vizinha, por dias a fio. Ainda contam que, vestido de elefante, deu um urro monumental e expulsou os filisteus do ônibus cheio das suas meninas. Contam que eram três rapazes elegantes, com três meninas: uma não gostava de carnaval, outra não gostava de namorar e outra se chamava Rodrigão. Estão fugindo delas até hoje. Relatos confiáveis informam que ele dirigia na contramão da estrada, propositalmente, só sairia se aparecesse carro. Quiseram tirar fotos, ninguém sabe, ninguém viu.

Uns dizem que a narradora era uma espiã infiltrada. Dizem também que ela mantinha diários secretos. Ainda contam que existem fotos comprometedoras escondidas num bunker em serras fluminenses. Contam que ela decidiu fazer um filme com os vídeos resgatados dos albaneses. Relatos confiáveis informam que ela começou em Laranjeiras e não parou de dançar até hoje. Quiseram tirar fotos, ninguém sabe, ninguém viu.

MPV – janeiro 2009