Diário de Terra II – Carnaval 1999

Carnaval 1999 – Tiradentes, MG

Introdução
Cheguei cansada e faminta ao Manolo, onde os três já me esperavam para combinarmos o carnaval, faltavam duas semanas e ainda não havíamos decidido se iríamos para o sul, para o norte ou oeste do país, sendo leste só água.

Oi…tô com fome, tô com sede. Sentei, para levantar na mesma hora, tenho que lavar as mãos, a vontade era de me enfiar debaixo de um chuveiro, com água bem fria. E aí? Praonde a gente vai dessa vez? Nós resolvemos que vamos para Tiradentes, voltamos no domingo para desfilar na Portela, fantasiados de torresmo e voltamos novamente para Minas. Olhei para os três, rindo, tá bom, sério, qual é o programa? É esse mesmo. A gente vai e volta e vai de novo. Dessa vez olhei séria, vocês tão brincando? Risos… Não, é isso mesmo. Vamos voltar só para desfilar na Portela.

Achei que era alucinação minha, mas eles falavam a sério. Depois de tanta reserva, marca-desmarca, pesquisas, pedidos, o programa estava feito, ali, na minha frente. Um chopp e uma pizza, por favor. Liga para organizadora, medidas de todos, pagamento da fantasia, encontro, detalhes. Ah! E reserva a pousada tipo hotel-fazenda, lá em Tiradentes. Mais uma reserva…

Quatro dias de Folia

Domingo de carnaval em Tiradentes, com R, Z e PB. Enquanto os três se divertem nos jogos disponíveis na pousada, encontro-me ao sol, pensando na vida e escrevendo o Diário de Terra II.

Ontem mesmo, no almoço, conversávamos sobre emoções, atitudes, relacionamentos, essas coisas que nos movem e fazem nossas conversas femininas girarem sozinhas. Como os homens têm pouca tolerância ao assunto! E no entanto, eles são parte da roda que gira por si mesma.

A combinação carnavalesca deste ano é algo digno dos 20, a vinda a Tiradentes, descida para o Rio para desfilarmos na Portela, com outros 40 amigos e conhecidos, retorno novamente quando acordarmos e descida final na quarta-feira.

Chegamos em Tiradentes na sexta, ou melhor, já sábado de madrugada, após uma viagem divertida, com muita música e os critérios de escolha variando conforme a vez. PB, o infrator, mudava as regras do jogo a cada volta. No início era uma música, aumentamos para quatro por pessoa, mas como ele nunca sabia a ordem das músicas no CD, acabávamos ouvindo muito de cada uma. R resolveu tomar conta e a guerra ficou acirrada. Ela adiantava, ele voltava ao início, ela mudava de novo, ele voltava mais uma vez e assim ia até que ninguém aguentava mais.

Em Tiradentes, fomos direto ao centro histórico e ali começou o período do bicho tá pegando, the animal is taking, getting, picking, catching, whatever, que nos acompanhou por todo o período. Reinava uma folia adolescente na pracinha, onde ficamos mexendo as pernas até às três e meia, depois de termos levado o coice do king-kong plantonista do banheiro. Minha revolta foi de tal forma que, mesmo anti-violência, naquela hora, tudo o que eu queria era ter mais um metro de altura e de largura. Engolimos o desaforo e procuramos outro bar, para as cervejas da madrugada. No fim, fomos para a pousada, já rendidos ao sono que seria sempre breve pelos próximos dias.

Sábado, fomos dar uma volta e acabamos dentro da Maria Fumaça, que leva meia hora para vencer os 6 quilômetros até São João Del-Rey. Em São João, R e eu fomos ver o Teatro Municipal, onde tivemos o prazer de conversar com o Secretário de Cultura da cidade, senhor já de idade e ainda apaixonado pela história e as nossas coisas. Ele nos explicou as dificuldades que enfrenta para conseguir restaurar o teatro, de 1800 e qualquer coisa, muito mexido e em mal estado de conservação.

Enquanto isso, do lado de fora, os dois rapazes, nossos dignos acompanhantes, eram “espreiados” com tinta prateada e se recusaram a contar como a pintura havia sucedido. Coisas dos homens, cheios de mistérios.

Pegamos a Fumaça de volta, R e eu conversando, enquanto os dois dormiam e babavam, tentamos tirar uma foto, mas o Z deve ter adivinhado, tal a forma que amarrou a máquina ao próprio pulso. Em Tiradentes fomos em busca de água, numa prometida cachoeira. Encontramos longa andança e muita lama no caminho. Quando, enfim, chegamos, a cachoeira era bica e os espelhos d’água eram banheirinhas. Sedenta e cheia de calor, quase desisti, mas acreditei e quando subimos mais um pouco, achamos um laguinho divino que foi só nosso pela próxima hora.

O mergulho naquela água fria, de fonte limpa, ajudou a revitalizar corpo e espírito. A volta ao carro foi mais fácil e seguimos caminho até uma estalagem para almoçarmos. Feijão tropeiro, tutu, tudo a que temos direito, estando em Minas. Foi o almoço da “conferência”, como o Z chamou a nossa conversa sobre emoções, que acabou se transformando em vida de PB.

Um descanso providencial nos deixou acordados novamente para as festas da noite. Tequila, limão e sal para os foliões, no quarto masculino, promessas de uma noite animada e risonha. Encontramos uma praça cheia de adolescentes e gente feia, culminando no desdentado que sorriu para R e ela quase desmaiou de susto, mas não foi impedimento para a folia entre nós. Outro amigo nos encontrou também, e por algum tempo ficamos os cinco, juntos, dançando.

Choveu um pouco e nos abrigamos num restaurante onde, às duas da manhã, resolvemos comer alguma coisa. Uma hora mais tarde, R e eu ficamos na pousada, enquanto os dois guerreiros seguiam em busca de mais ação em São João. Disseram-nos que voltaram às 6 horas, cheios de álcool e lanças inteiras.

A viagem no domingo, para o desfile, foi tranquila. Levamos menos de quatro horas, Z dirigindo e mirando os buracos na estrada para amaciar o carro novo de PB. A cada um que acertava, ouvíamos os gemidos e lamentos do dono da máquina. Mas o melhor foi o próprio PB, correndo de chinelos, cheio de coragem, enfrentando caminhão, em busca da calota perdida. Pedimos bis.

Chegamos no Rio e fomos almoçar em minha casa, para não perdermos muito tempo e buscarmos as fantasias que estavam lá. Foi a grande sorte, pois Z esqueceu a chave de sua casa em Tiradentes e não teve como entrar. Se a fantasia estivesse lá dentro, quebrava ou ficava quebrado.

Mais tarde, A, S, os dois e J foram nos encontrar, com tequila, whisky, pilhas para a noite que prometia. A ida a pé até o metrô, nós fantasiados, foi bárbara. As pessoas nos paravam na rua, perguntavam qual a escola, diziam boa sorte, todos sorriam. A fantasia era uma estrutura nos ombros, com panos pendurados, alegorias imitando linguiças, panos de prato, biquini por baixo e na cabeça, um imenso chapéu, com folhas de couve e um leitãozinho. O motivo era a cozinha mineira. Tudo absolutamente horroroso, mas fazia um efeito interessante de longe, no conjunto e sob os holofotes do sambódromo.


Saltamos na Central e fomos andando até a concentração, onde encontramos muitos dos nossos. Foi uma farra indescritível, muito riso e alegria contagiante. No meio da farra, o flash da noite, visto por mim e devidamente relatado a R, mas não dá para registrar para a posteridade. Esse flash vai embora comigo e com quem mais sabe.

Normas rígidas imperavam na concentração. Não podíamos beber dentro do cordão, o que só incentivou Z a infringir e sumir por bastante tempo. Disse-nos que tentou ver o esquenta da bateria. PB sambava para todos os lados e J estava apavorada de se perder de todos. S alegre, A e R amorosos. Éramos 45 pessoas minimamente conhecidas na ala.

Por volta das 23 horas, o foguetório deu início ao desfile. A emoção começou, o coração pulsou mais forte, os carros começaram a andar e as alas eram revistadas, fantasias inteiras e nenhuma bebida na mão. Quando fizemos a curva, da presidente vargas para o sambódromo, aquele soco no peito, a multidão nas arquibancadas, a festa, o batuque, a vida parou ali, transformando sonho em realidade, encantando e marcando para sempre aquele momento inesquecível.

Durante o desfile, idas e vindas, diagonais no samba, dança com um e com todos, alegria, muita alegria, acabando 30 minutos depois. Como é rápido atravessar aquela avenida. Corpos suados, mentes em delírio, o encontro no fim, o despir das fantasias, peitos e pernas à mostra, a caminhada até o metrô de volta à casa.

Na estação, à espera do trem, todos jogados no chão, quase nus, acabados, emocionados. Dentro do vagão, muitas fotos da máquina de sei-lá-quem, que ainda hei de ver. Em casa, alguns tomaram banho, outros não, fomos para uma festa que só descobri ter direito a piscina quando lá cheguei. Já estava fresca e não fiquei muito tempo. Z foi comigo, R com A, PB, trêbado, solo, S e J idem. Perto das três, achei que já era hora de sair de campo e encontrar meus sonhos.

No dia seguinte, segunda-feira, acordei pensativa, como haveria de ficar pelos próximos dois dias. Por volta de uma da tarde, começamos a voltar a Minas. Era realmente uma aventura digna dos 20 anos e a impressão que eu tenho é que estávamos por lá. A viagem foi tranquila, sem trânsito e fomos direto para a praça. Estávamos famintos, PB queria almoçar churrasco de seis reais na estrada, mas conseguimos convencê-lo que a comida mineira cairia melhor. Almoçamos no “Vai Nessa”, não lembro o nome do restaurante, apenas do garçom que nos atendia e repetia essa frase para qualquer coisa que disséssemos.

Demos uma volta pela praça, tomamos café e chegamos no hotel já noite. Dormimos um bocado e lá pelas dez, decidimos sair para a folia. Desta vez, a tequila pré-farra foi no nosso quarto, pela absoluta impossibilidade de entrarmos nos aposentos pebelinos. Isso me faz recordar que não posso deixar de mencionar os blurps, hics, cács e grogues, emitidos em sinfonia pelo nosso amigo PB. Nossa viagem ficou marcada pelas músicas, das quais falarei mais tarde e pelos “sons” de PB.

Ficamos um pouco na varanda do ping-pong, tentando ver os raios do temporal que caía longe, bebendo tequila e falando bobagem. Como chovia muito, resolvemos ir a um bar com música ao vivo que já tínhamos visto à tarde. Conseguimos uma mesa e ficamos decidindo os drinks e o que comer. Dançamos um pouco e rimos muito, muitas estórias e Z resolvendo que éramos filhos de Baby, Zabelê, Pedro Baby, Riroca e Nanashara. R, como sempre muito implicante, imediatamente criou a corruptela de Bundalelê e Z, troféu “teasing” de todos os tempos, contra-atacou, corrompendo a Riroca para Raralho.

De certa forma, incorporamos as personagens e o auge foi a entrada de uma mulher com uma peruca completamente espetada, de diversas cores. Mamãe, gritou Zabelê, de braços abertos para a figura, mas sem que ela o visse. Depois de alguma folia, R que havia passado o dia suspirando, saudosa e feliz, rendeu-se aos encantos de Morfeu e largou-se, dormindo no sofá. Z, sumiu por bom tempo, PB e eu conversamos até que ele resolveu dar seus tiros, sem os quais não conseguia passar uma noite. Com o retorno de um misterioso Zabelê, resolvemos ir para o hotel. Ele foi nos deixar, contando que havia ido investigar o outro bar, onde rolava o show de uma cantora e poderia ser um bom programa para a noite seguinte.

Depois de nos deixar no hotel, voltou para pegar PB. O resto da noite só eles sabem. E homens têm aquele pacto do “ninguém ronca”- estória do reveillón passado em Angra.

Terça-feira de carnaval, acordei com uma dor de cabeça que não tinha forma de passar. R falou que era ressaca, eu acho que era das lentes de contato. Pedi a ela para não comentar nada com eles, no entanto, a primeira pergunta que PB fez, que cara é essa? devia estar realmente com uma expressão horrível. Ficamos na piscina, PB foi dormir e Z foi ver móveis pela cidade. Lá pelas tantas, ele já de volta e PB desperto, fomos passear pela cidade. Andamos a pé pelas ruas, vimos a Matriz, tiramos fotos, entramos na casa do inconfidente Padre Toledo. Visitamos as igrejas dos pardos e dos escravos, onde PB encontrou uma amiga do Rio. Mais passeios e fomos fazer a reserva para o show no bar descoberto na noite anterior, muito interessante, decoração charmosa, linda vista, com o dono nos contando e mostrando, com orgulho, a sua casa.

Almoçamos na mesma rua e conversávamos sobre vida e emoções quando houve uma das grandes cenas da viagem. Z falava sobre mulheres que ficam famosas e dão o pé na bunda de seus maridos, PB comentou sobre segundos casamentos que dão certo e eu brinquei, mostrando com os dedos que, no meu caso, seria o terceiro. Ele, então, para mim, num ato falho disse – Você, depois que ficou famosa, deu a b… e… todos perceberam o que ele havia dito, eu exclamei, PB, qualé, R gargalhou e Z quase caiu no chão de tanto rir. Não parávamos nunca mais. Até agora, quando lembro, volto a rir.

Depois do almoço, fomos andar pela praça, eles queriam se enfiar num bloco que dava voltas, nós duas queríamos paz, marcamos uma hora de encontro e fomos para o carro. Pouco tempo depois, chegaram os dois e fomos de volta à pousada, para descansarmos um pouco antes da noite.

Voltamos à cidade e fomos para o bar, já cheio à hora que chegamos. Fomos para a nossa mesa reservada e R e eu bebemos whisky, enquanto eles bebiam cerveja e outros drinks. Com o nosso pedido, Z descreveu como seria a cena de nosso retorno à pousada bêbadas, de gatinhas, sem blusa e descalças, sapatos numa mão e cigarro noutra. Viagem sideral.

PB pediu um “ovni” de coloração azul que rendeu o outro grande acontecimento de risos. Entretido no show e de costas para a mesa, não viu quando R pegou o seu copo e escondeu, Z encheu outro copo apenas com a bebida azul (sem álcool), eu coloquei o copo no pratinho original, R o canudinho no lugar e ficamos à espera. Z teve um ataque de risos que o obrigou a levantar da mesa, nós duas rimos muito e PB não entendia nada. Lá pelas tantas, olhou o copo e fez uma cara de grande reconhecimento. Mas ele achou que tivéssemos bebido o drink. Pegou o copo e começou a beber o que tinha no copo, sem reparar que havíamos trocado. Quando ele acabou com a bebida, Z falou que gostaria de ter provado o drink e R esticou o copo original, serve esse aqui? Foi, então, que PB percebeu o que havíamos feito. Gargalhadas quase atrapalharam o show que já havia começado. Na saída do bar, depois do show, o encontro com um amigo efusivo, cheio de alegria por nos ver lá.

Fomos para outro bar, mas estava devagar para uma terça-feira de carnaval, ou melhor, para qualquer dia da vida, pois um bar com música ao vivo que às duas da manhã manda um “sentimental eu sou…” é dose. Z ficou na praça, PB foi nos deixar na pousada. As duas dormimos mais de quatro horas, pela primeira vez em cinco dias.

A quarta-feira amanheceu tranquila, muita gente indo embora cedo, nós demorando a acordar. Eles quase perderam o café, eu já havia batido na porta, mas não ouvia resposta, R, então, perguntou se eu achava bom que ela fosse “esmurrar” a porta do quarto e eu disse sim, eles resolvam depois se levantam ou não. Chegaram na última badalada e ainda conseguiram comer conosco. R, Z e eu fomos para a piscina, enquanto um exausto PB voltou para a cama.

Mudamos de lado na piscina, R e eu no sol, Z na espreguiçadeira e na sombra, travesseiro na cabeça, uma moleza que fazia gosto. Comentei que achava ter sido mordida por pulga no quarto, ele disse que pulga não existia mais e R, tem certeza? Pulga pode ser um animal em extinção, mas eu vejo sempre por aí…Como ficou marcado em nossa temporada carnavalesca, as mulheres e principalmente as muito amigas, têm uma linguagem própria que somente nós entendemos. Para desespero e profunda curiosidade deles, além da linguagem verbal específica, conseguimos estabelecer longos diálogos telepáticos, emitindo opiniões e tomando decisões sobre o que, com quem, como, onde e quando fazer qualquer coisa.

Mais tarde, acordamos PB, fomos para a cidade, vimos uma outra pousada que também fica afastada, fomos para a loja de móveis, onde Z encomendou sua mesa, palpitamos, vimos o armário que podia ser um bar. Voltamos para a pousada, tomamos banho e arrumamos as coisas para seguirmos viagem. Resolvemos almoçar em Tiradentes e só saímos de lá às 18 horas.

Durante o almoço, retrospectiva dos dias, as melhores piadas, R e eu nos olhamos e pensamos sobre as estórias que só nós sabemos, eles não entenderam, foi mais engraçado ainda, pois não sabiam do que ríamos. Lá vêm vocês novamente com essa lingua que a gente não entende…Rimos mais, enumeramos as situações, a fama, o drink, filhos de Baby. Falamos também sobre as músicas do período, parque da juraci e lenha, resposta, give me love e ainda lembro, patience, sweetest thing, linha do equador e pierrot, olodum, nando reis, titãs, ciclete e outras, muitas outras..

O retorno foi como qualquer outro, cansados, mas felizes. R e eu fomos comer pizza na Cobal, falamos mais e mais. O assunto, inesgotável como a própria vida, enquanto nos dispomos a vivê-la e não apenas contemplá-la. Emoções, sentimentos, ações, a vida encantada.

Até o próximo carnaval.

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3 pensamentos sobre “Diário de Terra II – Carnaval 1999

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