Diario de Terra I – Carnaval 1998

Carnaval 1998 – Cancún, México
 
 Voltamos para o hotel e para a praia com mar azul, azul, lindo como sempre sonho com ele. Mergulhos de alma e coração, energizando para todo o ano de 98 e inspirando bons sentimentos sem deixá-los escondidos no fundo de algum lugar que já nem sei.

Reencontramos na praia o americano com nome do meu perfume descontinuado, conversou pouco conosco, antes de irmos para o jungle tour – passeio de jet ski com mergulho em “mares de coral”. Como disse B, realizei três vontades antigas hoje: pilotei o jet ski, mergulhei vendo o fundo do mar e entornei meio dedo e tequila que me queimou o estômago e me deixou sem fome o dia inteiro.

D, no passeio de jet ski, meio falante, meio muda de pavor, comportou-se mui bien como minha carona. No início, fiquei apreensiva, já que era a primeira vez que dirigia aquilo. Depois peguei o jeito e o negócio melhorou. Adorei.

No momento em que escrevo, estamos em um dos bares temáticos do hotel e, de acordo com B, somos as únicas que não usamos pulseiras de livre bebida. Os outros estrangeiros estão com as coleirinhas que os permitem beber até cair e nós pagamos cada cerveja consumida. – a preços turísticos. Passou por nós, um americano saradão, cantando “I’m a barbie girl”, que cena! A noite, que ainda está só começando, não sabemos como será.

24 de fevereiro

Dia lindo, com sol forte e apenas algumas nuvens para embaciar o humor. Já fui dar minha saudação ao senhor mar, que hoje está bem mais forte que ontem. Bandeira vermelha nos impedindo de entrar. Molhei a mão e pedi à Iemanjá de todos os mares que nos proteja e nos dê a capacidade de sorrir sempre. Muito triste quem não consegue aproveitar os momentos maravilhosos que a vida proporciona, se apegando a coisas más. Sorrir sempre!

Aliás, foi sorrindo que, ontem, ao fim da tarde vimos um Peter Pan envelhecido entrar no bar em que estávamos – S – e passamos pela menina aprendendo a jogar tênis, com a quadra coalhada de bolinhas amarelas. Parecia um céu invertido, cheio de estrelas redondas, brilhando aleatoriamente para quem passasse.

Após o banho, um périplo by bus até o P’s, restaurante mexicano para turista ver. Garçons que pregam peças, danças e cantorias, tequila e margaritas, cerveja Sol e tudo a que temos direito. Serviço meio demorado para a fome que estávamos e para a ansiedade pelo muito por fazer.

De lá, após brigar com meu sono e ele quase vencer por instantes, fomos parar numa fila ventosa e fria em frente à LB. Não conseguimos ficar. A fila não andava, o frio congelava os ossos e resolvemos continuar em frente. Chegamos à CB, uma super disco, cheia de gente dançando sem parar, com alto astral. Cerveja Sol, conversas e encontros com outros hóspedes de nosso hotel.

A impressão que tenho é que Cancún virou território norte-americano. Muita animação e dança até o joelho doer. Após a dor, mais dança. Não dá para ficar parada. Parada, durmo. E já combinamos, as três, dormir mesmo, só no Rio, quando voltarmos. À saída da CB, tentamos o SF’s, um bar dançante já desértico àquela hora. Dúvidas sobre o que fazer e o sono, rei e senhor, foi profundamente aproveitado.

Hoje, terça-feira, 24, café mais tarde e uma dúvida intensa sobre o que fazer e aonde ir. Difícil contentar todos ao mesmo tempo. Pela hora tardia, resolvemos descansar na praia e reservar o carro para Tulúm e Xel-Há para quinta-feira. Amanhã já combinamos o passeio a Cozumel.

D, B e eu andamos, sem rumo, pela areia, voltamos e agora estamos estirados. Todos no sol, eu mais ou menos à sombra. Penso. Todos me perguntam o que escrevo. Um diário de terra. Impressões. Com esse mar à nossa frente e a música techno de um mexican guy chato, gritando ao microfone, fica mais difícil deixar o pensamento fluir.

Mas ele viaja. De vez em quando, volta ao Brasil, começa lá por cima e vai descendo, sempre pelo litoral, até chegar ao Rio, cidade do coração. Vai ao Sul e retorna ao Caribe. Afinal, estou viva e a vida acontece aqui e agora. Olho ao redor e fotografo com a memória o quadro, como aprendi a fazer, anos atrás, naquela janela em San Diego.

À minha frente, um sujeito está pendurado num parapente, puxado por uma lancha, planando lá no alto. Imagino o pensamento que existe lá em cima, preso apenas por um fio. Como já me senti. Presa por um fio. Não mais. Agora, pés, mãos, corpo e alma me levam pela vida para aproveitar os sorrisos proporcionados. Muito bom.

Mais tarde, já na piscina quilométrica do hotel, B solicita-me que faça a anotação que Blade Runner está à nossa frente na outra margem. Sinto um interesse disfarçado. Deixa o Blade Runner aparecer pela frente para ver se o tubarão carioca com sangue alagoano não ataca. Ataca, tira pedaço e só deixa os ossinhos não digeridos.

25 de fevereiro

Fim do dia no ferry boat que nos levará de volta a Cancún, após um dia de muita água e peixes em Cozumel. O entardecer é lindo, mas hoje fica para depois. Falta contar a noite de ontem, terça-feira.

Depois da piscina, B, D e eu fomos ao shopping ver coisas. Passeamos e trocamos dinheiro, além de fazermos um lanche rápido. Aprendi, no primeiro dia, que as meninas não comem e eu sinto fome nas horas certas. Isso quer dizer que passei fome nos dois primeiros dias, porque nunca estávamos em algum lugar onde eu pudesse me alimentar nas horas costumeiras. A partir do meu aprendizado, passei a aproveitar qualquer momento em que houvesse onde e o quê comer, para não ficar com fome mais tarde.

De volta ao hotel, nos arrumamos para o jantar – oba, mais comida! – Jantamos no S’s, restaurante italiano. Fomos nós três e outros quatro amigos que estavam viajando conosco. Como eu já havia me fartado no lanche, pedi apenas um minestrone, bem gostoso, por sinal. De lá, partimos para o SF’s, onde colocamos no pulso, uma pulseira que, mais tarde mostrou-se quase impossível de ser retirada, e compramos um copo longo e engraçado que consegui guardar na mochila.

Depois de lá, B, D e eu voltamos ao S’s, o mesmo da primeira noite em Cancún, ainda não relatada. Novamente, não gostamos do local. Por que fomos, então? Dúvidas sobre aonde ir e acabamos na fila da D’O, onde reencontramos o restante de nosso grupo. E B encontrou L, o meu perfume, afinal existente. Após uma espera não muito longa, mas eterna para a nossa curta paciência, entramos no templo da dança e conseguimos um lugar privilegiado, só nosso, onde nossos corpos bailavam sozinhos ao som das músicas.

O sono estava estacionado do lado e fora, à nossa espera, enquanto a estória que não existia, começava a se formar lá dentro. Não dá para falar tudo, então sugiro a música “samedi soir sur la tèrre” de Francis Cabrel, para ilustrar a noite caribenha. Fomos dormir às quatro e duas horas depois, a telefonista do hotel martelava nossos ouvidos para recomeçarmos o dia.

Sonâmbulas, mas decididas, fomos ao café e às 7h30min entramos em nosso transporte para Cozumel. No trajeto de ida, a surpresa, pela segunda vez. Na verdade, o que compramos não era aquilo mesmo. Mais dólares para o passeio completo. Fomos para um barco que nos levou para três recifes de coral. Milhares de peixes de cores indescritíveis e o mergulho de superfície, com máscara. A visão ao vivo e a cores de uma moréia, pertinho de nós. Sensação maravilhosa e experiência fantástica. Amei. No barco, comida mata-fome cozinhada e servida pela tripulação e uma soneca ao balanço das ondas. Acordei ao som da macarena. Onde estou?

O mar é um mundo à parte. Desconhecido e surpreendente, exerce um fascínio sempre crescente e um sentimento de aconchego e compreensão. É como se ele me abraçasse e me recebesse com um sorriso amigo. A sensação quando o vejo e o toco, quando mergulho e furo suas ondas é que ele vai buscar energia no centro da existência e me transmite naquele momento de contato. É a renovação, a continuação e o infinito.

Noite de quarta-feira – fomos os sete jantar no PO’B, um bar restaurante de New Orleans, com música e garçons piadistas. Aliás, parece ser qualidade fundamental para a profissão por aqui. Piadas, risos, intimidade e dança. Porque todos dançam. Sobem no balcão e realizam coreografias ensaiadas. De lá fomos a vários locais, e terminamos na CB, a que mais gostei, entre todas. B e D sonolentas, pulga dançando, voltamos para o hotel mais cedo.

26 de fevereiro

Quinta-feira, fomos o sete alugar dois carros para irmos ver as ruínas de Tulúm. Estrada ruim, levamos hora e meia para chegarmos. À beira do mar, aquelas pedras que já significaram vida para alguém, estão imponentes, esperando a nossa visita. De acordo com as informações, a cidade deixou de ter vida há 450 anos. Praticamente o mesmo tempo de existência do Brasil. Um lugar morria, outro nascia.

De lá, fomos visitar Xel-Ha, um parque com uma lagoa construída com ligação para o mar. Nadávamos entre os peixes e descansávamos nas imensas bóias, onde nos “amarramos” umas às outras, sendo levadas pela correnteza. Muito riso e diversão.

Quando nos enchemos das bóias, tentamos furar os pés num caminho pedregoso até o mirante no extremo da lagoa. Parada para fotos e no retorno, almoço em Playa Del Carmem, um restaurante mexicano com comida apenas razoável. Ainda não comi nada que me tirasse o fôlego, em matéria de sabor, ou de pimenta. Os restaurantes são turísticos, com ambiente agradável e visual simpático, mas o descuido com a qualidade da comida tem sido imperdoável.

Na volta à Cancún, à noite, pegamos uma estrada em obras e esburacada, sem iluminação, com retas intermináveis, promovendo o sono no carro. B dormiu de verdade, se não me engano, roncou e babou também, enquanto D tentava, num esforço sobre-humano, manter-se acordada e conversando comigo, para que eu não dormisse ao volante.

No hotel, exaustas, uma soneca de quarenta minutos e a ordem imperativa para que eu entrasse no banho, sob pena de ser abandonada sozinha no quarto. Fomos ver do que exatamente se tratava a “foam party”, para a qual havíamos sido convidadas pelos americanos. Não dá para descrever o que é para quem nunca viu pessoalmente. O pior quadro pintado não chega perto do que presenciamos pelo vidro da boate. Homens e mulheres ensopados de espuma e água até os olhos, bebendo e dançando à noite, numa quinta-feira (poderia ser qualquer noite, na realidade), esfregando espuma um no outro e achando a maior graça nisso. Recebeu o maior cocar para o programão de índio. Obviamente, as três moçoilas protagonistas desse relato de viagem, arrumadinhas em seus vestidinhos, fizemos meia-volta e fomos procurar outras paragens menos indígenas.

Estivemos em alguns lugares que não nos cativou e fomos parar na D’O, onde ficamos dançando e nos divertindo, até que começou, sem aviso prévio para nós, o segundo programão de índio da noite – A Noite do Biquini. Mulheres mostrando o corpo em micro-biquinis e contorcionismos de quem assina o playboy channel. Os homens presentes, levados de volta a idade da pedra (chegaram a sair??) gritavam, assoviavam, batiam palmas, abriam a boca em expressão de pasmo, filmavam e fotografavam.

Um delírio ululante que durou uma hora, distribuiu prêmios para as três primeiras colocadas – sim, era um concurso e sim, havia júri – escolhidas pela pressão pública e pela onda politicamente correta, já que eram de nacionalidades diferentes: mexicana, canadense, americana. Respirei aliviada por não haver nenhuma representante tupiniquim pagando aquele mico para gringo ver.

Depois disso, o melhor era ir dormir. A noite de quinta-feira ficou conhecida como a noite do orangotango, já não era mais mico.

27 de fevereiro

Sexta-feira, pegamos o carro para passar o dia em Playa Del Carmem. Andamos pela areia, até encontrarmos um bar confortável e é onde escrevo no momento, com as pernas em cima da mesa e olhando para esse mar com várias tonalidades de azul, naquela moleza pré-menstrual.

Depois do descanso e da preguiça, fomos comer uma pizza em um restaurante na 5ª Avenida. Adeus à Búzios dos anos 80, charmoso balneário caribenho que infelizmente não conhecemos por mais tempo. Novamente, aquela estrada à noite, muito contra a minha vontade, mas o lugar aprazível era como um ímã, nos impedindo de partir.

De volta ao hotel, somente tempo para o banho e saímos para jantar no HBS, último brinde de tequila e música alta. Pela primeira vez na semana, a noite estava quente e a brisa também era quente. Fomos dançar na D’O, mas a faixa etária havia abaixado sensivelmente. O que estava acontecendo? Em seguida, em um dos andares mais altos, uma mulher embriagada resolveu que já era hora de ficar pelada e tirou tudo, para nosso escândalo. Outra cena de playboy channel que no Rio, pelo menos onde frequentamos, não costumamos assistir. O garçon nos explicou que aquela cena não era nada perto do que aconteceria a partir daquele sábado, com o início do “spring break” americano. Ah! Era isso!

As desnudas continuaram seu show, os garçons fingindo que impediam, a galera aos uivos (maracanã perderia feio, na disputa), pedindo mais, mas já não havia lugar nem para o espanto, nem para a curiosidade. Cansou. Abandonei o barco e as meninas ainda ficaram mais um pouco para as últimas despedidas.

28 de fevereiro

Último dia, sábado, tiramos a manhã para arrastarmos malas de um lado para o outro, fechar a conta e fazermos compras. Voltamos para o hotel a tempo da minha despedida de Netuno, último mergulho naquele mar azul e ainda preguiçamos na piscina.

A invasão do hotel e da cidade pelos teenagers americanos foi contundente e nos fez agradecer o nosso carnaval ter caído uma semana antes de março, início do spring break dos bárbaros.

Últimos momentos de pernas para o ar, algumas fotos, o banho e o descanso no clube, alta traição das meninas, ao me fotografarem sonecando e o retorno à casa. A viagem, apesar de longa, não foi sentida, tendo eu dormido profundamente no avião desconfortável, completamente vencida pela exaustão.

MPV, março 1998

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