Raiva

A raiva que senti foi indescritível. Sem medidas de tempo, espaço ou tamanho. De dentro do estômago brotou a onda nauseabunda de frango, milho, cerveja e raiva, transformando-se em tsunami vomitada em seu rosto, em seu cabelo, em seu colo, tirando-me a cor do corpo e tingindo minha cara de vermelho cor-de-esmalte-descascado. Você recuou dois passos, levantou os braços, pediu calma, olhou para as próprias roupas nojentamente molhadas, fedidamente empapadas, mas não se olhou no espelho, não viu sua cara de mentiroso nojento, de mentiroso contumaz, de mentiroso desleal. Desleal! Eu deveria ter jogado o espelho em você, para que dessa vez, pelo menos dessa única vez, você conseguisse enxergar o que todo mundo vê, menos você. E eu. Até então. Não mais. Abri a porta da casa, expulsei adão do paraíso, vassoura em punho, varri seus cacos pela escada, atirei suas coisas no jardim, tal clichê de novela, soltei os cachorros e ameacei chamar a polícia. Janelas vizinhas se entreabriram, olhos curiosos avistaram a baixaria há tanto aguardada no bairro, a notícia correria rápido antes do dia amanhecer, mas você já estaria longe, num caminho sem retorno. Desejei que seu carro espatifasse na primeira curva, ansiei para que rolasse ribanceira, enxerguei seu corpo inerte no caixão, sem mais possibilidade de fazer mal a ninguém, mesmo que esse alguém quisesse sentir a força de sua maldade, o tamanho de sua deslealdade, a sua capacidade de trair sorrindo. Com o sorriso de menino que tantas vezes achei ser meu, mas que agora jazia no fundo do poço dos desalmados. Pedi para que você morresse porque assim a dor da traição seria trocada pela dor do nunca mais, mas você saiu rápido de cena, desapareceu na bruma e não ousou voltar. Ainda vive. Ainda é capaz de levar seu sorriso sociopata a outro alguém. Morreu lentamente para mim, que já não sinto raiva, não falo seu nome, não lembro de sua voz, esqueci seu rosto.

Copos de Cristal

Encho a boca com o primeiro gole de uísque do dia, desce forte e quente, bebo sem gelo. Dou o segundo e o terceiro goles e emito um som de repulsa e satisfação ao mesmo tempo. A lembrança do primeiro gole me vem à mente e encho novamente o copo. Caminho, ainda inteiro, até a varanda, sem sol, lusco-fusco, anoitece na cidade que não dorme. O segundo copo, em três longos goles, desce mais fácil e eu o encho pela terceira e quarta vezes. Sirenes me fazem olhar para a rua movimentada e imagino como seria me desequilibrar e cair do alto de 20 andares. Acho que viraria sopinha de gente e quebraria em mínimos cacos o copo de cristal que seguro, herança de família. O que seria pior? Limpar a sujeira de meu sangue espalhado pelo pátio da piscina ou encontrar os caquinhos de cristal que ferirão as crianças descalças que forem brincar quando a área for liberada? Oops! O equilíbrio foi embora, agora tenho que me escorar nas paredes para encher, talvez, já perdi a conta, o sexto copo da noite. Vejamos: o primeiro foi lá pelas dezoito horas e são… quase oito da noite. Nada mal… Not bad at all… Seis doses do mais puro scotch em menos de duas horas… Como não comi nada durante o dia, geladeira vazia, o efeito é mais rápido e como o álcool me afeta sobremaneira – será que sou um alcóolico? – já não falo coisa com coisa. Mas não falo nada, é só meu pensamento que ecoa em minha cabeça. Acho que o vizinho ligou uma música. Ou será que fui eu que deixei o aparelho ligado desde, desde… quando mesmo? Acho melhor me afastar da grade da varanda. Tropeço em meu caminho e o copo da família espatifa no chão. Rio, gargalho muito, lá se vai o conjunto completo… Conjunto completo, herança de família, nunca mais! Continuo rindo e pego outro copo, encho á está no fim, amanhã terei que lembrar de não andar descalço por aqui.

Eu Confiei em você

Eu confiei em você. Acreditei mesmo quando todas as circunstâncias me diziam o contrário. Naquela noite chuvosa, você repetiu frases de novela em meus ouvidos e eu não assisto novela. Acreditei. Achei que seria para sempre o que durou pouco. Você cantou, contou sua história, me desarmou dos meus medos, me disse que sua procura terminara. Acreditei. No entanto, você não gostava de sol, não gostava de céu, não gostava de mim. Eu confiei em você quando me impediu de ir embora, desfez minha sacola, quando me sentou em seu colo e chorou em meu ombro. Repetiu que sua procura terminara, sua vida seria outra e eu estaria nela para sempre. No entanto, você não gostava de sol, não gostava de céu, não gostava de mim. Eu confiei em você quando me escreveu cartas de amor, eternizou nossos momentos em fotos agora sem cor, quando sorriu e riu para mim, me enlaçando em seus braços. No entanto, você não gostava de sol, não gostava de céu, não gostava de mim. Finalmente acreditei.

Ela disse que era tarde demais

Eram jovens, bonitos, cheios de vida. Tudo conspirava contra, mas eles tiveram força para continuar. Ele sonhava com céus, estrelas e nuvens brancas. Ela carregava uma segurança incompatível com sua idade. Ele sorria sempre e agia como um menino. Ela enxergava os próximos vinte anos. Ele vivia nas nuvens. Ela sonhava com a vida. Ele voava em seus pensamentos. Ela pensava em voos apaixonados. Ele tornou-se distante. Ela voou para longe. Ele voltava sem estar. Ela tornou-se ranzinza. Ele deixou de rir. Ela passou a chorar. Ele não via TV. Ela reclamava de tudo. Ele tentou encontrá-la. Ela disse que era tarde demais.

Nasci Velho

Nasci velho, embrutecido, antiquado, preconceituoso, reacionário mesmo. Grande juiz dos casos de valor ocorridos em minha vila. Sorriso disfarçado-disfarçava a inconveniência das pessoas ao meu redor, sempre erradas. Se sorriam, se dançavam, se viviam, erravam. Minhas rugas eram internas, de preocupação constante com o olhar do inimigo, com o exame dos outros sobre mim mesmo. Covarde, ao ponto de não querer ver, medroso de olhar o outro lado dos conceitos que nasceram comigo, o velho e embrutecido.

Em um processo lento e tortuoso para mim, instantâneo para quem me conhecia, fui rejuvenescendo e aprendendo a ver com os olhos dos outros os casos alheios. Deu-se o inverso em minha vida. Aqueles a quem julgara por tantos anos, passaram a me julgar, todos que sorriam franziram os cenhos e com os punhos cerrados ao alto, brandiram nomes e correram a me encarcerar.

Já era tarde. A sucessão de mudanças já havia atingido o ponto do não retorno. Covardes e preconceituosos, deixei-os pela estrada, busquei novos campos, conheci outros lados, invoquei novos conceitos, e dentre eles, o mais sagrado: a abertura total dos olhos, a busca do desconhecido, a curiosidade a me guiar, fazendo-me um novo homem, um homem novo, jovem no espírito, leve, sem rugas.

O caminho não é fácil e as tentações de peso são inúmeras. Mas nunca novamente serei o homem velho que era quando nasci.

Nem assim

Larguei o chiclete, o álcool, o fumo, o jogo. Joguei fora o baralho. Deixei as ruas, as drogas, as más companhias, as boas companhias, todas as companhias. Joguei fora a caderneta de telefones. Tomei banho todos os dias, usei perfume, lavei os dentes, passei minha roupa, endireitei a gola, penteei o cabelo. Joguei fora o espelho. Não xinguei, esqueci o palavrão, tentei falar bonito, comprei flores. Joguei fora minha arma. Arrumei casa, escovei chão, limpei privada e pia, arranhei a mão na ponta quebrada do azulejo. Joguei fora o lixo. Comprei jornal, arrumei emprego, cumpri horário. Joguei fora o ócio. Usei telefone, me inscrevi no vestibular, estudei com afinco, me formei na faculdade. Joguei fora a ignorância. Recebi convite, mudei de emprego, fiquei rico. Joguei fora a simplicidade. Fiz amigos, casei, tive filhos. Joguei fora a irresponsabilidade. Fiquei importante, fiquei esnobe, fiquei arrogante. Joguei fora minha vida. Joguei fora, joguei fora, joguei, comprei um baralho, masquei chiclete, voltei a beber, a fumar, traí todo mundo, meus amigos, minha família, minha empresa. Nem assim.