Raiva

A raiva que senti foi indescritível. Sem medidas de tempo, espaço ou tamanho. De dentro do estômago brotou a onda nauseabunda de frango, milho, cerveja e raiva, transformando-se em tsunami vomitada em seu rosto, em seu cabelo, em seu colo, tirando-me a cor do corpo e tingindo minha cara de vermelho cor-de-esmalte-descascado. Você recuou dois passos, levantou os braços, pediu calma, olhou para as próprias roupas nojentamente molhadas, fedidamente empapadas, mas não se olhou no espelho, não viu sua cara de mentiroso nojento, de mentiroso contumaz, de mentiroso desleal. Desleal! Eu deveria ter jogado o espelho em você, para que dessa vez, pelo menos dessa única vez, você conseguisse enxergar o que todo mundo vê, menos você. E eu. Até então. Não mais. Abri a porta da casa, expulsei adão do paraíso, vassoura em punho, varri seus cacos pela escada, atirei suas coisas no jardim, tal clichê de novela, soltei os cachorros e ameacei chamar a polícia. Janelas vizinhas se entreabriram, olhos curiosos avistaram a baixaria há tanto aguardada no bairro, a notícia correria rápido antes do dia amanhecer, mas você já estaria longe, num caminho sem retorno. Desejei que seu carro espatifasse na primeira curva, ansiei para que rolasse ribanceira, enxerguei seu corpo inerte no caixão, sem mais possibilidade de fazer mal a ninguém, mesmo que esse alguém quisesse sentir a força de sua maldade, o tamanho de sua deslealdade, a sua capacidade de trair sorrindo. Com o sorriso de menino que tantas vezes achei ser meu, mas que agora jazia no fundo do poço dos desalmados. Pedi para que você morresse porque assim a dor da traição seria trocada pela dor do nunca mais, mas você saiu rápido de cena, desapareceu na bruma e não ousou voltar. Ainda vive. Ainda é capaz de levar seu sorriso sociopata a outro alguém. Morreu lentamente para mim, que já não sinto raiva, não falo seu nome, não lembro de sua voz, esqueci seu rosto.

MPV – março, 2009

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