Bala perdida

O impacto me jogou no chão, barriga para baixo, pernas em desalinho, vestido levantado, rosto arranhado no asfalto quente, tal como o líquido que escorria pelas minhas costas, mãos e pernas paralisadas pelo medo, olhos fechados pela dor. Passos apressados ao meu redor, gritos de gente desconhecida que empurrava o meu grito mudo de volta para … Continue lendo Bala perdida

Como falar de amor?

Como falar de amor se ele adormeceu, dopado por uma dose cavalar de clonazepam? Como falar de amor se ele viajou, tirou férias de mim, retirou-se de cena e me disse, baixinho, que não sabe se volta? Como falar de amor com contas a pagar, com o buraco do peito que desceu para o bolso? … Continue lendo Como falar de amor?

Cansei

Cansei das brigas e discussões. Cansei dos mal-entendidos em que não adianta tentar explicar que não era bem aquilo. Cansei da chuva que não para de cair e deixa tudo molhado, encharcado, deixa o beco com cheiro de mistura de xixi e cerveja da semana passada. Cansei de sentir dores. Dores nos braços, nas pernas … Continue lendo Cansei

O Dom

Não sei falar. Quando falo, é demais ou de menos. Quando de menos, não me faço entender. Quando demais, acabo dizendo coisas que dão margem a múltiplas interpretações e, invariavelmente, são ofensivas, nubla o tempo, os olhos, acaba com o dia. E depois para dizer que verde não é vermelho não adianta mais. Já foi … Continue lendo O Dom

Raiva

A raiva que senti foi indescritível. Sem medidas de tempo, espaço ou tamanho. De dentro do estômago brotou a onda nauseabunda de frango, milho, cerveja e raiva, transformando-se em tsunami vomitada em seu rosto, em seu cabelo, em seu colo, tirando-me a cor do corpo e tingindo minha cara de vermelho cor-de-esmalte-descascado. Você recuou dois … Continue lendo Raiva

Copos de Cristal

Encho a boca com o primeiro gole de uísque do dia, desce forte e quente, bebo sem gelo. Dou o segundo e o terceiro goles e emito um som de repulsa e satisfação ao mesmo tempo. A lembrança do primeiro gole me vem à mente e encho novamente o copo. Caminho, ainda inteiro, até a … Continue lendo Copos de Cristal

Eu Confiei em você

Eu confiei em você. Acreditei mesmo quando todas as circunstâncias me diziam o contrário. Naquela noite chuvosa, você repetiu frases de novela em meus ouvidos e eu não assisto novela. Acreditei. Achei que seria para sempre o que durou pouco. Você cantou, contou sua história, me desarmou dos meus medos, me disse que sua procura … Continue lendo Eu Confiei em você

Nasci Velho

Nasci velho, embrutecido, antiquado, preconceituoso, reacionário mesmo. Grande juiz dos casos de valor ocorridos em minha vila. Sorriso disfarçado-disfarçava a inconveniência das pessoas ao meu redor, sempre erradas. Se sorriam, se dançavam, se viviam, erravam. Minhas rugas eram internas, de preocupação constante com o olhar do inimigo, com o exame dos outros sobre mim mesmo. Covarde, … Continue lendo Nasci Velho

Nem assim

Larguei o ciclete, o álcool, o fumo, o jogo. Joguei fora o baralho. Deixei as ruas, as drogas, as más companhias, as boas companhias, todas as companhias. Joguei fora a caderneta de telefones. Tomei banho todos os dias, usei perfume, lavei os dentes, passei minha roupa, endireitei a gola, penteei o cabelo. Joguei fora o … Continue lendo Nem assim