Bala perdida

O impacto me jogou no chão, barriga para baixo, pernas em desalinho, vestido levantado, rosto arranhado no asfalto quente, tal como o líquido que escorria pelas minhas costas, mãos e pernas paralisadas pelo medo, olhos fechados pela dor. Passos apressados ao meu redor, gritos de gente desconhecida que empurrava o meu grito mudo de volta para a garganta. O tiro não tinha endereço certo, fora disparado para o primeiro alvo que cruzasse a sua trajetória e meus pulmões estavam em seu caminho. Senti um gosto de sangue em minha boca e louca vontade de tossir, impossível em minha imobilidade de terror. O socorro demoraria a chegar e eu seria mais uma estatística. Não haveria tempo de falar o que adiei, de ouvir o que deixei para depois, de olhar o céu estrelado da infância ou ver um arco-íris após a chuva. Consegui abrir um olho e enxerguei um sapato vermelho ao lado de meu corpo. Não era Dorothy.

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