Setenta anos

Setenta anos. Mamãe faz setenta anos. Data redonda tem mais peso, simbolismo maior. Mamãe de setenta tem carótida entupida, sente dor na perna, diz que está cansada e caminha na Lagoa, tem os cabelos enroladinhos como um anjo louro, pequenino, a pele de porcelana, o nariz com poucas rugas, avermelhado pelo remédio da discórdia. Mamãe de setenta quase foi barrada no caixa dos idosos porque uma velhinha achou-a muito novinha. E olha que mamãe de setenta nunca fez plástica!
Mamãe de setenta não quer festa, ou celebração com grande turma, só a família diminuta e o calor do Rio. E a cunhada-irmã que chegou de surpresa, vinda dos pampas, trazendo movimento e alegria para a casa. O telefone não para, ela atende com satisfação e certo orgulho. Mamãe faz setenta.
Pela manhã, mamãe de setenta, ganhou presentes, beijos e latidos. À tarde sentiu dor na perna. À noite comemorará conosco sete décadas, sete dezenas de vida, parabéns para mamãe de setenta. Tenho que ir. Mamãe de setenta já ligou exigindo minha presença mais cedo.

MPV – março 2009

Escondidinha

Vôo 1954, com destino ao Sul, reunião parcial de família, de 25 de dezembro à primeira semana de janeiro do ano que já bate à porta. Assim que o 737-800 alcança sua altitude de cruzeiro, pego o MP3 player emprestado do meu irmão, com minhas músicas preferidas, as que meu sobrinho chama carinhosamente de “bandas velhas”, Elton, Eric, Beatles, Rolling, Sheryl (não tão velha assim), começo a ouvir, fecho os olhos e vou, lentamente, saindo do meu corpo sentado na desconfortável poltrona 5B, subo para o compartimento de bagagem de mão e me escondo lá dentro. Dou uma última olhada e meu corpo continua na mesma posição, só meu espírito inquieto escapou da prisão para explorar as dependências da caixinha voadora. Passeio pelas fileiras, observando os outros passageiros, cada um com suas manias e maneiras de enfrentar um voo de menos de duas horas, um cutuca o nariz, não sei onde irá aquela meleca; outro faz palavras cruzadas, enquanto murmura as respostas; uma jovem adormecida, encosta a cabeça no ombro do vizinho que a olha de soslaio; um bebê chora baixinho, deve estar com dor de ouvido; uma criança fala a palavra “para” sem parar, irritando todos ao redor; uma senhora bem bonita folheia displicentemente as páginas de uma revista bacana; um casal discute a relação, não sei se a deles ou de ausentes; a velhinha com terço na mão acredita que haverá salvação se todos cairmos no mar; um adolescente com cara de quem não toma banho há três dias, cutuca as unhas negras que não ficarão limpas nem com muito sabão e escovinha. Pessoas múltiplas convivem um tempo obrigatório para chegarem ao seu destino.
Após 90 minutos, o Comandante avisa que aterrissaremos em instantes no aeroporto Salgado Filho e retorno ao meu corpo, desligo a música, coloco o assento na posição correta, aguardo o pouso cada vez mais torto (antigamente os pilotos tinham mais habilidade, mas pelo visto, esses voaram para fora do país e das companhias brasileiras) e piso, pela terceira vez no ano, na cidade que guarda parte saudosa de mim mesma com minha família.

Verão? Que Verão?

Quase Natal. Verão no calendário do Rio de Janeiro. Só no calendário. Turistas branquelos como eu andando pelas ruas da cidade com moletons amarrados na cintura. Desde domingo, para sair de casa, carrego guarda-chuva na bolsa e visto casaco de couro. Não chega a ser lã, é certo, mas é um casaco, no mês fervilhante, na estação do inferno. Ontem esqueci o guarda-chuva em casa e só me dei conta na rua. Tive que andar uns três quarteirões até encontrar um camelô vendendo o dito que dura, no máximo, cinco chuvas de menor potência e sem vento.

Normalmente, em outros anos, estaríamos todos resfriados de tanto entrar em ambientes congelantes por causa do ar-refrigerado regulado em temperatura de inverno nórdico e sair para a rua e encarar um calor trópico-africano. E as praias pululando de gente rosada e/ou torrada.

Não dá para acreditar nesse clima. Ainda bem que vou para Zurich e já me disseram que a praia lá tá ótima.

Árvore de Natal

Outra noite, voltando para casa, comecei a reparar nos edifícios pelos quais passava, todos, todos, com as portarias piscando pelas luzes penduradas nas árvores de Natal dos condomínios. Todas acesas! Cada uma em seu formato, umas feias, outras horrorosas, outras ainda com neve artificial mostrando o clima atual do Rio e o mau gosto dos síndicos, ou dos decoradores oficiais de portarias.

Cheguei em casa e descobri que a portaria de meu prédio não tem decoração de Natal! Não tem árvore, papai noel, enfeite, nem cores vermelha e verde, nada. Resolvi subir ao último andar, descer pelas escadas e vi que nenhuma porta tem guirlanda, flâmula de Boas Festas, nada, nada, nada. Levei um susto. Roubaram o Natal do meu edifício! Acho que por lá, o calendário pula de 23 de dezembro para 2 de janeiro.

Não… tem alguma coisa errada… eu vi uma “caixinha” de Natal na mesa da portaria… De qualquer jeito, pedi uma cópia do estatuto do condomínio para saber se, pelo menos, a gente pode desejar Feliz Natal a quem encontrar pelos corredores.

Graves cartas grávidas do exílio

Sempre escrevi cartas. Sempre gostei de lê-las, as minhas, as respostas às minhas, as dos outros – quando permitido, claro – as respostas às dos outros. Sempre escrevi cartas, repletas de saudades, muita curiosidade, com alguma expectativa, prenhes de perguntas. Perguntas para mim mesma, perguntas para os destinatários, perguntas objetivas, perguntas sem resposta.

Sempre gostei de cartas, Paul Eluard a Gala, Fernando Pessoa para vários, Rodolfo Konder para meus pais, Mario de Andrade para Fernando Sabino, correspondências entre Fernando Sabino e Clarice Lispector, Hannah Arendt e Mary McCarthy, Rainer Maria Rilke e Franz Kappus, minha irmã e eu, extratos de vida descritos em pequenos pedaços de papel.

Quando me exilei voluntariamente em Lisboa, nos anos 90, escrevi caminhões de cartas para minha família, depois catalogadas por ordem cronológica e hoje são uma perfeita fotografia daquele período. Nada melhor do que reler uma carta para sentir novamente o gosto, o cheiro, rever o lugar ou situação descrita, o aperto no coração, a sensação de alegria, o que quer que tenha motivado a escrita da missiva. Em alguns momentos, cartas graves, em outros, alegres, em muitos, breves.

No curto espaço de tempo entre o correio a galope e a mensagem instantânea, existiu o correio eletrônico e desse tempo, não tão longe assim, também guardo, em papel impresso, as cartas trocadas por esse meio, com amigos e amores. Elas têm o seu valor, claro, mas nada que substitua a surpresa de pegar o envelope embaixo da porta ao entrar em casa, após um dia exaustivo de trabalho e calor, olhar o remetente, observar o selo ou carimbo, a data e o local da postagem, calcular quanto tempo levou para chegar.

Ai, cartas! Empoeiradas graves cartas grávidas do exílio que me fazem fungar e espirrar agora.

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Dois trechos de cartas que eu gostaria de ter escrito:

Carta de Fernando Sabino para Clarice Lispector – Nova York, 10 de junho de 1946

“Tenho feito descobertas importantes, por exemplo: o pecado é simplesmente tudo o que Cristo não fez. Tenho conhecido sujeitos famosos, por exemplo: Duke Ellington. Tenho tido muita saudade de minha filha. Tenho tido muito pouco dinheiro. Tenho tido muitas oportunidades de ficar calado. Tenho tido muita decepção com os Correios. Tenho tido cansaço, saudade e calma. Tenho bebido muito, muito, muito. Tenho lido os suplementos dominicais. Tenho tido vontade de voltar. Tenho escrito muitas cartas para você. Tenho dormido muito pouco. Tenho xingado muito o Getúlio. Tenho tido muito medo de morrer. Tenho faltado muita missa aos domingos. Tenho tido muita pena de Helena ter se casado comigo. Tenho tido dor de dente. Tenho certeza que não volto mais. Tenho contado muito nos dedos. Tenho franzido muito o sobrolho. Tenho falado muito com os meus botões. Tenho tido muita vontade de brincar. Tenho feito muitas manifestações de apreço ao Senhor Diretor. Clarice, estou perdido no meio de tantos particípios passados.”

Carta de Fernando Sabino para Clarice Lispector – Nova York, 6 de julho de 1946

“Viver devagar é que é bom, e entreviver-se, amando, desejando e sofrendo, avançando e recuando, tirando das coisas ao redor uma íntima compensação, recriando em si mesmo a reserva dos outros e vivendo em uníssono. Isso é que é viver, e viver afinal é questão de paciência.”

Ida e Volta

Na ida, mormaço na praça da Paz, um casal muito, muito, muito velhinho, sentado no banco de jardim, os dois de cabelos totalmente brancos, mãos dadas no colo dela, conversavam baixinho segredos de vida inteira. Podiam ser casados, amigos, amantes, ou tudo ao mesmo tempo.

Na volta, chuva forte na praça da Paz, o banco vazio e molhado, ninguém à vista, nem mãos dadas, ou abrigadas, aninhadas onde quer que estivessem. Para onde foram os dois?