Feriado no Rio

Feriado no Rio, sol, céu, mar. Ruas cheias, estradas cheias, mercados cheios. Quem saiu ainda não voltou, quem chegou está por aqui, quem ficou descansou depois da praia.

Ontem, feriado no Rio, sol, céu, mar, fiquei com a velha frase de Hermann Hesse ecoando em meus ouvidos “…Podemos compreender uns aos outros. Mas só cada um de nós sabe o sentido de si mesmo.”

Hoje, continuação do feriado no Rio, sol, céu, mar, eu reescreveria a frase da seguinte forma: “Não conseguimos compreeender uns aos outros se não sabemos o sentido de nós mesmos.”

Então, feriado no Rio, sol, céu, mar, a ordem é encontrar o sentido de si mesmo, tentar compreender uns aos outros e dar um mergulho, por que ninguém é de ferro…

O sorriso é o que importa

– O Sorriso é o que importa! disse-me Paulo, responsável pela barraca na areia de Copacabana, em frente à Hilário de Gouveia.

Depois da caminhada matinal, resolvi espiar o mar de perto, bem gelado àquela hora e Paulo se aproximou oferecendo uma cadeira. Agradeci, e falei que só queria dar um mergulho, perguntei se ele poderia olhar meus pertences e ele disse para eu colocá-los na barraca, ficava mais seguro.

Deixei tudo lá e me joguei naquele mar de correnteza forte, mergulhei e me embrulhei em ondas, até cansar e resolver sair. De volta à barraca, em pé, esperei secar, enquanto ouvia causos contados por Paulo. Eram estórias curiosas, engraçadas, sobre frequentadores, turistas torrados e outras gentes. Falou que era bom fisionomista, não esquecia cliente e bom com os números também, guarda tudo na cabeça. Ele contava e sorria mais que tudo. Quando me despedi e sorri de volta, ele disse: “O sorriso é o que importa!”

Amanhã, se não chover, voltarei.

80 anos de Nelson

Espumante, espumante, espumante, água pra hidratar; salame italiano, bacalhau feito pelo anfitrião, polenta cortada na linha; risos; a dona da voz no cd, a dona da voz no almoço; foto posada, foto armada, foto-fofoca; risos; espumante, espumante, coca-cola; música anos 70, misturada a Cartola; vermelho no rosto pelo calor e o sol, que sol! o sol se pôs; risos; começa tudo de novo, espumante, coca-cola. Espumante, bacalhau, risos. Por que fui embora mesmo? Ah… a pilha duracell acabou…

Uma coisa inesperada

Até os meus vinte anos, minha vida foi programada, e parcialmente vivida, de acordo com a expectativa genética de meus antecessores. A partir de lá, tudo mudou, nada mais do vivido estava no roteiro original. Posso bem dizer que cansei de me surpreender comigo mesma e minha infinita capacidade de mudar de ideia acerca de tudo. Se eu mesma me surpreendia com minhas atitudes, o que dirão os outros que nunca estiveram dentro de minha cabeça e nem partilharam de meu espírito livre.

Casei, descasei, mudei, voltei, reatei, mudei, busquei, estudei, formei, mudei, enjoei, criei laços indissolúveis e dissolvi laços inúteis, mudei. Na realidade, para mim, tudo isso foi e tem sido vida. Arrependimentos, lágrimas e muitos momentos aos quais dou o nome de Conjunto da Obra, minha vida escolhida e roteirizada por mim, divertida para mim.

Agora, mais uma vez, sorrio, me surpreendo comigo mesma, por uma coisa inesperada. E ouço ecoar repetidamente o refrão de Gil, “Hoje eu me sinto / como se ter ido fosse necessário para voltar / tanto mais vivo / de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”.

PS: Sempre fui porque sabia para onde voltar.

Everlasting Love

Você chegou em um sábado, no mês de outubro, era dia 19. A primeira vez que o vi, através de um vidro instransponível, você esperneava com miúdas pernas, em cima de uma mesa, onde enfiavam um tubo por sua garganta para tirar o sangue acumulado em sua barriga. Foi amor à primeira vista.

Depois colocaram uma roupa branca e delicada em você e sapatos de crochê vermelhos, para dar sorte. Tinha uma carinha meio amassada, mas, a meus olhos, parecia e era um príncipe.

Seu primeiro Natal foi uma noite quente, exaustivamente quente, sua roupa empapada de suor foi colocada à parte e você dormiu com pouco cabelo grudado à testa.

O susto que nos deu com uma febre em acelerada ascensão, ficou marcada em minha memória. Era véspera do meu aniversário, eu vinha direto da praia e passei para vê-lo. Acabamos no hospital, onde após o desespero do desconhecido, e tudo ter ficado bem, cedi ao choro convulsivo. No dia seguinte, meu presente foi passar o dia com você, engatinhando e rindo e brincando como se nada tivesse acontecido na noite anterior.

Quando retornei de uma viagem, você engatinhou em minha direção na velocidade de um raio, sorridente, com poucos dentes, e consegui tirar uma foto antes de você alcançar seu objetivo, que era o meu colo, na cama.

Já muitos anos se passaram, após aquele nosso primeiro encontro, nossa primeira foto, você em meus braços e eu dizendo baixinho ao seu ouvido: “não chore no meu colo, por favor, não chore”.

Hoje, chamo por você quando você passa, e digo que tenho um segredo importantíssimo para falar em seu ouvido. Você se aproxima, relutante já pela idade, e eu falo: “eu te amo”. E você, na maioria das vezes, responde um “eu também” de forma encabulada e escapatória.

Já basta para encher meu coração de um amor sem fim, sem cobranças, sem julgamentos. Você é o meu everlasting love, que durará para sempre, aqui, lá e em qualquer lugar, juntos, perto, separados pela distância, no dia a dia, em todos os momentos.

As três metarmofoses

Foi numa tarde de 31 de dezembro, há muitos anos, que fui intimada a ler o texto de Nietzsche, Das Três Metamorfoses. Tinha que ser uma tradução específica de uma determinada editora, para que eu pudesse apreender em nossa língua, o que havia sido escrito no original alemão.

No texto, descritos, os espíritos livres e o camelo, o leão e a criança. O camelo, o espírito que suporta todos os fardos; o leão, o espírito conquistador e libertário; a criança, o espírito da inocência e do novo começo.

Esse texto me acompanha desde então. Me assombra, me conduz, me guia e me ampara a cada nova fase de minha vida, mês após mês, dia após dia. Às vezes, ele permanece escondido no livro, quando menos espero, pula em meu colo, outras vezes, quando procuro outro texto, meus olhos se fixam nele.

Suportar os fardos, manter-me livre e continuar cultivando a inocência. Ordens da irmã, que mandou-me ler o livro e do filósofo que colocou em palavras a soma do meu espírito.