O silêncio da festa

Encontramo-nos no início do mês e fez-se o riso. Quatro carros em caravana desbravaram estradas esburacadas em dia de sol frio para os abraços prometidos, as juras de eternidade, os lamentos da saudade.

Mantive-me afastada dos preparativos para o reencontro familiar após três anos de separação porque não conseguia imaginar como seria a festa que sempre foi, com a ausência de quem sempre esteve. Encolhi-me em meu canto escuro e aguardei, com medo, o dia planejado. Subestimei a vocação para felicidade de minha própria gente.

Foram dias e noites sublimes, repletos de presença nas ausências que sentimos, foram o riso frouxo, a bobagem, a camaradagem, a atenção com o outro, a ajuda, a música e a dança. Foram dias de sol em nosso ano invernal, foi a cantoria, foi a comilança, foi a mágica que sempre nos manteve juntos e ultrapassou obstáculos, desde o início de nosso tempo.

O nosso tempo que começou lá atrás, com muito amor, batuque e crianças correndo, cada uma de castigo em um quarto, banhos de piscina ao entardecer, praias estorricadas pré-filtro solar, namoros e casamentos, a estrela que só piscava até o dia que apagou precocemente e nos deixou juntos para a continuação. Muitos quilômetros a nos separar, pá, tanto mar, tanto mar, mas a festa que aprendemos a fazer é bonita, é bonita e é a vida.

Já sinto saudades de nós.

Amizade

Em conversa recente, tentávamos definir o que é amizade, quem é amigo, o que torna uma pessoa digna de ser alçada ao posto de amigo. Definições surgiram, discussão inflamada no horizonte de uma amizade antiga. Não falei muito naquela noite, mas passei a pensar quais seriam os meus critérios para colocar no pódio esse ser tão essencial. Para mim, amiga é aquela que sabe tudo da sua vida e guarda para a posteridade, para a terapeuta e para a memória falha de quem escreve. Amiga é quem distribui presentes, presença e vinho em hora de dor, sem perguntar se querem ou não. Amigo é aquele que chega ao Rio no domingo fim de tarde e chama para um café na livraria. Amigo é irmão. Amigo pergunta tudo e diz como deve ser feito, para aliviar suas preocupações. Amiga é quem pergunta se você quer ganhar de aniversário aquele presente que nem imaginava. Amiga é quem insiste em chamar para happy hour sexta-feira, mesmo que você quase não vá. Amigo é quem telefona no meio do dia e intima um encontro dos quatro mosqueteiros. Amiga é quem pergunta qual o fim do livro que você ainda não escreveu. Amiga é quem pergunta o que pode fazer por você, qualquer coisa, naquele momento. Amiga é quem compartilha o seu nível de dor e ri junto todos os risos possíveis. Amiga liga no intervalo da novela. Amigo é quem tem a paciência de passar quarenta minutos tentando explicar o que é a hidrodinâmica. Amiga conta o último Woody Allen já visto. Amigas são aquelas que estando longe, queriam estar ao lado. Amigo reboca para o Festival do Rio para maratona de filmes. Amiga reencontra mais de dez anos passados um passado para confortar. Amiga convida para o jantar na Barra e manda ir de táxi por causa do vinho. Amigo manda e-mail que emociona a família toda. Amiga chama a turma, a bagunça e as lágrimas para sua casa. Amiga ajuda a finalizar tese. Amiga de amiga é amiga quando se despenca de longe por duas horas de conversa. Amiga fotografa com a máquina aquilo que está no coração. Amiga vai à missa para um abraço perdido. Amigo telefona lá do outro lado para ouvir sua voz. Amigo ajuda com o conhecimento do mercado. Amiga combina almoço e entende quando você vai embora mais cedo. Amigo tenta contatos mas compreende seu silêncio. Amiga quer te abraçar, mas há um oceano a separar. Amiga manda frases, flores, paz para o espírito. Amigo traz mulher e filhos para fazer bagunça. Amiga almoça com você e sua mãe de última hora. Amiga deixa o puffles dormir com você. Amigo sorri e dá aquele abraço que diz tudo. Amigo ou amiga é um monte de coisas, tudo-junto-agora-mesmo. É quem você não vê há um mês ou quinze anos, mas está lá, ao alcance de seu sentimento de completude. Amigo viaja, retorna, telefona, cozinha, abastece, escreve, explica, conta, encontra, fotografa, combina, aparece, abraça. Amigo existe para fazer a vida melhor.

Feliz aniversário

Esta noite o sono foi intermitente, até que chegou o momento da desistência. O corpo reclamará em algumas horas, mas não houve o que fazer com a cabeça desperta. E então? Como será o dia de hoje? 11 de abril, lembra? Muitos anos atrás, consegui convencê-lo a comprar uma girafa de plástico vendida pelos ambulantes na praia, com a desculpa de ser um presente para meu irmão recém-nascido, com a cara amarrotada no colo de mamãe na maternidade. Ele até que era bonitinho, meio chorão, com perninhas inquietas, um ser divertido, quase um de meus bonecos, a não ser na hora de trocar aquelas fraldas – ainda de pano. Você o iniciou no gosto pelos esportes e não pôde fazer nada quando o menino de oito, nove anos assistiu a ascensão do Flamengo como melhor time e resolveu que não seria América como o pai. Todas as noites, você chegava do trabalho, girava a chave na porta e chamava: “Cadê meus filhos? Cadê minha mulher?” e apostávamos corrida para ver quem chegava primeiro para o abraçar. Enquanto o jantar era preparado, você e meu irmão jogavam gol a gol com o dado de espuma no corredor e ele vencia a maioria das partidas. Era até engraçado ver seus frangos no gol minúsculo. Jantávamos os quatro à mesa e conversávamos sobre o dia vivido. Pequenas lembranças diárias de nossa vida em família. Os dias 11 de abril eram comemorados com bolos e festas simples, em casa, com amigos e família. Os carrinhos matchbox, bolas e camisetas dos times de futebol estavam entre os presentes preferidos e mais frequentes. Isso não o impedia de assaltar minha caixa de sapatinhos de bonecas e atirá-los pela janela em um jardim espinhoso, por pura arte de meninote, implicando com a irmã. E quando ele fez quinze anos, lembra? Fizemos uma festa surpresa, ele ganhou um relógio de presente e você inventou que iríamos jantar fora, em um restaurante no Leblon, apesar de morarmos na Barra. Família no carro, quando chegamos em frente ao restaurante, você perguntou onde estava a sua carteira. Mamãe disse que estava em casa, teríamos que voltar. Tudo combinado com a família e os amigos, entramos na casa apagada e ele viu um vulto, achou que era ladrão, tirou o relógio novo do pulso e colocou no bolso, com medo da perda. Grande surpresa quando viu todos que o esperavam. Foram muitos dias 11 de abril em anos passados que estivemos juntos, jantamos juntos, rimos juntos, fizemos fila para os parabéns matinais, com a cara amassada e o cabelo desfeito. Acho que você era quem mais gostava dessa fila de parabéns. Este ano, Búbi fez uma surpresa para ele, com nosso apoio logístico e desculpas. As crianças insistindo na saída e quando eles entraram na reunião, foi o mesmo menino surpreso de anos atrás que sorriu sem jeito. Hoje, mais um 11 de abril, jantaremos juntos em casa, primeira vez sem você em mais de quarenta anos, tentaremos não chorar, faremos um ambiente agradável, faremos tudo para ser um feliz aniversário para seu menino.

Coração de Pai

Sabe como é… Dezembro chega e já vai embora, no meio de tanta coisa para terminar, para fechar o ano, para começar o ano seguinte zerado, cheio de promessas de dias melhores e sorrisos intensos. O pensamento, que já está desfocado, viaja para trás e para frente, lembrando e imaginando, todos os verbos no gerúndio de uma boa fala brasileira.

No entanto, este dezembro chegou inclemente, com a notícia do coração que vai ter que colocar um aparelhinho, como um Ipod nano, cor-de-rosa, – na verdade é cinza feioso, prefiro imaginar que seja rosa – para fazer com que ele volte a bater em um rítmo normal e mais vigoroso.

Aquele coraçãozão imenso, que carrega o mundo lá dentro, que não guarda mágoa de ninguém, que sempre estendeu as mãos – o coraçãozão de meu pai tem mão, tem perna, tem olho, tem vários outros membros que o ajudam a ser tão generoso – vai ter que levar uns choquezinhos cada vez que sair do rítmo, como se estivesse numa escola de samba do grupo especial.

Os médicos falaram que é coisa à toa, um cortezinho aqui – é tudo no diminutivo – dois fiozinhos ali, um no átrio, outro no ventrículo, um por cima, outro por baixo, um na saída e outro na entrada, para o tum-tum voltar pro tom.

Depois de muitos exames e muito palpite, muita ordem do que não pode fazer – nem comer, nem beber – resolveram que a cirurgiazinha vai ser agorinha, em menos de cinco diazinhos. Mas esses diazinhos são muito longos e são justamente aqueles que têm trinta horas, mas que não estão disponíveis quando deles precisamos.

Já houve dezembro em que desejei que meus dias tivessem mais horas para dar conta de tudo, mas neste dezembro, em que tenho tanto para fazer e nada faço, eu gostaria de dias curtinhos para passar logo e levar o coraçãozão do pai para o hospital e trazer de volta o pai inteiro, com um Ipod extra que não vai tocar música, mas vai apitar nos aeroportos e em todas as lojas com barreiras eletrônicas antifurtos.

Os médicos – de novo eles – disseram que o problema é só esse, como se fosse pouco ter um problema em que o coração fica uns segundinhos sem bater, e que o músculo cardíaco desse paizão está em excelente estado. Não poderia ser diferente: ele foi alimentado durante os últimos 73 anos com o mais puro amor que todos poderíamos dar, além dos afetos sinceros de toda a família, dos amigos, dos conhecidos, do homem do sinal, do vendedor de frutas, de todos que têm o privilégio de conhecer o dono desse coraçãozão. De pastel também. E empadinha. Porque, como já falei antes, o coraçãozão do meu pai tem muitos membros e tem boca e sistema digestivo também. Na verdade, tem tudo: quando olho para ele, para o meu pai, o que vejo é um grande coração andando por aí. Sorrindo por aí. Fazendo hidroterapia para fortalecer todos os músculos. Contando histórias e fazendo a vida ser melhor. Dessa forma é capaz desse Ipod nano cor de coração além de colocar as batidas surdas no rítmo, ainda trazer uns sambinhas de Cartola, de Chico, de Pagodinho… Em menos de cinco dias, vou colocar a cabeça no peito de meu pai e ouvirei música lá do fundo do coração.