Encontro marcado

Podem dizer o que quiserem. A economia está ruim, os números maquiados, os protestos violentos, as manifestações perigosas, a roubalheira generalizada, o desânimo assustador. Podem repetir que em vez dos gastos com o futebol, o país deveria priorizar a educação, a saúde, o transporte e a educação. Podem exigir estradas seguras e menos impostos. Podem gritar que nada faz sentido no país do futebol. Podem dizer que não vai ter Copa. Para mim, que acho que peculato e seus primos deveriam ser crime hediondo, sem direito a fiança, e que acredito que os códigos penal e de processo penal estão com a validade vencida, vai ter um campeonato de futebol, não a Copa. A Copa que não vai acontecer é a mesma para a qual tínhamos compromisso acertado e assinado, que seria cheia de expectativas e risos, bandeira e hino, como tantas outras. A Copa na nossa língua, com o jeito alegre e colorido de nossa gente. A Copa pela qual você esperava desde 1950, quando, moleque, chorou de dor. A Copa que você tinha combinado conosco que iríamos assistir juntos, mas não pôde esperar. A bola vai rolar nos quatro cantos do país e você não vai ver. Nós tínhamos um encontro marcado, mas você fechou os olhos e, cansado, dormiu.

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Bola

Sou Flamengo, como meu tio amado. Eu sei que nem todo mundo vai concordar comigo, mas a escolha do time de futebol para o qual vamos torcer não é democrática dentro de uma família. Aqui nos Veiga, só o meu avô era América, mesmo assim, tendencioso para a alegria do filho. A-do-ro uma bola de futebol. Corro atrás dela, dou dribles, rosno para ela e roo mesmo. Talvez, por isso, só ganho bola já furada e as boas ficam, estrategicamente, fora de meu alcance. Mesmo assim, eu apronto as minhas…

Em um Natal, meu primo querido ganhou a bola oficial da Copa na África, linda, linda, brilhante de tão nova. Ah, todo mundo sabe como é Natal né? Aqui, na minha família, é aquela confusão, todo mundo falando ao mesmo tempo, uns chegando, outros saindo e eu não resisti: não tinha ninguém prestando atenção em mim e arranquei uns nacos bem arrancados da bola nova. Quando perceberam foi aquele auê. Meu tio jurou que ia me atirar pela janela (do terceiro andar…), mas a bronca dele passou rápido porque meu avô, maravilhoso como só ele, disse que era Natal, não era para ter briga e era para comprar outra no dia seguinte e trocar a roída pela nova antes que meu primo percebesse.

E assim foi feito, mamy comprou a bola, fez a troca, meu tio levou a roída para o escritório e essa história não estaria sendo contada aqui se meu primo não tivesse visto a roída, algum tempo depois, no escritório do pai. Achou graça, porque ele, além de um primo maravilhoso é um rapaz bacana, daqueles de bom coração (ai, na verdade ele é lindo de morrer).

Quando mamy descobriu que essa bola da foto estava furada, separou para me dar. O problema agora é que, como ela está velha, solta pedacinhos pela sala toda enquanto eu me divirto, jogando o meu futebol sozinha. O chão fica parecendo calçada nevada, tudo muito branquinho, bem bonito, mas a minha avó não fica nada satisfeita com a lambança. Agora esconderam a bola de mim e eu não sei mais o que fazer para gastar a minha dose extra de energia. Mamy prometeu que vai achar a bola, ou arrumar uma outra que não faça tanto estrago na limpeza.

Hoje resolvi contar um pouquinho mais das minhas estripolias porque a tia Veroniki, amiga de mamy, falou que adora ler o meu diário. Eu sei que ela torce para outro time, mas acho que ela vai gostar mesmo sabendo que eu sou Mengão.

Herdeiros do Tetra, vale ler!

Não sou muito chegada a uma partida de futebol. Entretanto, em anos mais jovens, perdi a conta de quantas vezes fui ao Maracanã, assistir partidas do Flamengo, do América e do Brasil. Mas isso era antes do xixi na arquibancada e das reformas dos últimos tempos.

Não sou tão velha assim, mas lembro de ir ao Maraca com meus pais e irmão seis anos mais novo, com amigos na adolescência, com outros amigos dos vinte anos. E chegou para mim. De repente, um dia, já não agüentava mais ver, nem ouvir futebol. Cansei.

Com avô jogador do América nos anos 30 e 40 do século passado, com pai, padrinho e irmão fanáticos por qualquer jogo de futebol, (meu irmão, quando adolescente, adormecia com o rádio ligado em algum jogo que estivesse sendo narrado, fosse da quinta divisão – existe? no nordeste brasileiro. Quem pode adormecer ouvindo narração de futebol pelo rádio??) eu nasci e cresci em uma família que transpirava o amor pelo esporte.

Depois dos meus anos de Maracanã, e de tanta paixão familiar, resolvi ser a ovelha negra, só para contrariar, e não assisto a nenhum jogo, não leio resultados, por mim, a tv à cabo viria sem os canais de futebol (chamá-los de canais de esporte é um exagero, concordam? Só passa futebol, só se fala em futebol…). Quando quero implicar com meu pai e irmão, digo que, em minha casa, a televisão apaga quando começa a passar jogo de futebol, seja em que canal for.

Toda essa longa introdução é para falar de um texto – na realidade uma tese – que li, ontem, abordando o tema futebol e os projetos sociais mantidos por atuais e ex-jogadores do esporte.

A tese “Herdeiros do Tetra”, escrita por Cezar Marques, (no endereço http://www.cpdoc.fgv.br/cursos/bensculturais/teses/CPDOC2006CezarAugustoLago.pdf) me fez lembrar a paixão negada e adormecida há tantos anos.

Primorosamente escrita, apaixonadamente escrita, seriamente escrita, a tese transformou-se em um texto para ser lido com prazer, seja pelo seu conteúdo histórico, sua bibliografia invejável, pelo conhecimento que nos proporciona dos projetos sociais desenvolvidos, pelos agradecimentos emocionados que o autor faz no início do projeto.

É para ser lido por quem gosta de futebol, pelos que gostam de história, pelos que gostam de uma estória bem contada, ou simplesmente pelos que sentem paixão pela vida.

Ah! Não esqueçam de ler o agradecimento que ele faz à sua mulher, Raquel, logo no início. É lindo e de derreter corações.

MPV – dezembro 2007