A luz do Tom

a luz do tomEstreia hoje o novo documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim, complementação, com fino acabamento, do filme do mesmo diretor,  que assistimos em 2012 sobre o maestro. Enquanto no primeiro filme tivemos um recorte de momentos do Rio e da carreira de Tom, embalados por sua música,  no segundo travamos conhecimento de histórias por meio de três mulheres fundamentais em sua vida: Helena, Teresa e Ana.

Algumas dessas histórias estão na biografia escrita por sua irmã Helena, mas recebem novo tratamento quando levadas pela câmera para a tela do cinema. Fica fácil o teletransporte para um Rio que não existe mais e para a companhia do compositor da trilha sonora da vida de muita gente, inclusive da minha.

Em um momento em que o Brasil desperta para apreciar a vida de grandes nomes, com vários documentários interessantes e fundamentais para o registro da nossa história, é essencial assistir A Luz do Tom, uma poesia filmada pelo mestre do cinema nacional, que nos proporciona momentos de relaxamento e prazer, conhecimento e reconhecimento.

Anúncios

Como era gostoso o meu francês

 Cinema sempre foi a maior diversão para a família. Assim como os livros. E a música.

A primeira vez que vi o “Como era gostoso meu francês” foi no cinema, com mamãe e Denise, minha prima. Éramos crianças, o filme era censura livre (sim, era censura, não faixa indicativa), história ficcionada do Brasil e era cinema nacional de primeira grandeza.

Denise e eu entramos na sala de um jeito e saímos de outro. Nunca tínhamos visto tanto homem pelado juntos, na verdade, nunca tínhamos visto homem pelado, meu irmão, mais criança que nós, não contava. Foi um descortinar de um mundo novo, eu caí de amores por Arduíno Colassanti e até hoje lembro de como ficamos entusiasmadas com aquele filme de “adultos”.

No estudo da obra do grande mestre de nosso cinema, Nelson Pereira dos Santos, já tive oportunidade de ver e rever vários de seus filmes que, aos poucos, chegam ao mercado em DVD.

As informações de bastidores das filmagens, obtidas por intermédio do próprio diretor, de sua produtora executiva e em livros sobre sua obra são sempre um ponto a mais, como a questão de ter de pintar diariamente os corpos dos atores com urucum e a semente ser difícil de achar, a trabalhosa preparação do elenco, a construção da imensa taba indígena perto de Paraty, entre outros.

Quando o filme foi lançado no Brasil, em 1972, após difícil argumentação com os censores que não queriam ver homens pelados nas telas, as sessões lotaram, no entanto o público não entendia – naquele momento – quem era o herói da história. De acordo com o próprio Nelson, em entrevista para a Folha de São Paulo, anos depois, “não entenderam que o herói era o índio e não o mocinho, a tal ponto estavam influenciados pelos bangue-bangues de John Wayne”.

O DVD vendido no site da produtora vem com extras sobre as filmagens, a história de Cunhambebe, o índio brasileiro hoje e filmografia de Nelson. Programão imperdível.

Agora que o inverno chegou…

Pense numa cena: frio lá fora, chuvinha molenga, pipoca, queijos e vinhozinho bem escolhido. Sofá confortável e companhia especial. Garanto o programa imperdível para quem não viu nos cinemas. E para quem viu, já sabe, poesia pura. Já garanti o meu, por enquanto só na Saraiva, mas em todo o país.

O filme mais bonito

 Desde janeiro nos cinemas, o filme A música segundo Tom Jobim  é classificado como documentário nas categorias de cinema, mas para mim é o filme da vida. Da minha vida.

Em 90 minutos, por meio da música do maestro e do olhar delicado do mestre Nelson, faço uma viagem no tempo, com imagens que começam nos anos 1960 e atravessam três décadas de pura poesia.

Voo no tempo e lembro-me que o vinil do show antológico com Vinícius, Toquinho e Miúcha gastou no antigo aparelho de som três em um, em tardes amenas e ensolaradas passadas em família em Friburgo.

Tempos depois, eu trabalhava em uma empresa de moda que adotou o mico-leão dourado no Zoo do Rio e pediu autorização ao Tom para modificar a letra do refrão de Borzeguim para “deixa o mico vivo” e imprimir em uma camiseta para venda em todas as lojas. Meu xodó até hoje. A jornalista responsável pelo acordo me chamou para irmos à casa de Tom finalizar o contrato, o que não recusei. Naquela noite, cheguei em casa e falei para meu marido na época que nunca mais lavaria minhas bochechas que Tom havia beijado. Emoção de fã no encontro com o ídolo.

Passarim foi o primeiro cd brasileiro que comprei, em uma loja no shopping do Rio, onde encontrei meu pai para jantar. Lembro-me de mostrar a nova mídia, um tipo de vinil metálico em miniatura, tocado só de um lado. Esse cd atravessou oceano e subiu serras, em minhas idas e vindas pela vida. Repousa, hoje, na estante organizada até a próxima investida no aparelho de som.

Anos depois, eu trabalhava em Lisboa, sempre ouvindo música, quando minha amiga me deu a notícia de sua partida. Não pude acreditar. Como assim? Ídolos não morrem nunca. Mamãe confirmou e meu irmão enviou do Brasil tudo o que saiu sobre ele na imprensa, desde reportagens inteiras a emocionadas homenagens. Antonio Brasileiro marcou meus últimos momentos na terrinha, entre caixas de mudança e vida por empacotar.

Em 1996, a publicação da biografia escrita por sua irmã foi lida e relida. Belas histórias que se misturaram às do Rio, cantado e arrebatado por Tom em sua poesia musicada.

E agora, tantos anos depois, Nelson transformou a poesia musicada em poesia filmada, perpetuando os sonhos da menina que nunca deixou de cantarolar minha alma canta / vejo o Rio de Janeiro / estou morrendo de saudades / Rio, seu mar / praia sem fim / Rio, você foi feito pra mim.

Rio, 40 Graus

Cópia restaurada de Rio 40 Graus, do cineasta Nelson Pereira do Santos, marco do cinema nacional, em breve em dvds, perfeita descrição de uma sociedade cuja essência permanece a mesma 53 anos após retratada no filme, cotidiano atual agravado pelos problemas crescentes e violência sem limites. Como se mantêm as mazelas retratadas na trama envolvente, com diálogos ágeis. Primeira vez que assisti à película na tela grande, no escurinho do cinema, com orgulho pela obra-prima, certo amargor por não ver luz no fim do túnel para a nossa cidade cada vez mais carente e mais difícil de administrar.

Quem nunca viu, veja. É ordem, daquelas coisas que não se pode deixar de fazer na vida. Quem já viu, repita a dose. Não cansa nunca e tem sempre algo mais a descobrir.

Foto: Cartaz do filme

Carta à Melhor Amiga

Levanto-me num sábado de manhã, preguiçosamente, com gestos pequenos, pés arrastados e olho o tempo lá fora, que insiste em permanecer uma eterna primavera em época de inverno. Demoro um pouco à janela, vejo os carros passarem, buzinas perdidas de gente impaciente nesse dia tão bonito. Continuo com o meu acordar e vou preparar o cereal matinal, hábito iniciado anos antes, em San Diego e que perdura ainda hoje. Abro a porta da rua, onde o jornal O Globo já nos espera, com as notícias de sempre, mas também com o novo caderno “Prosa e Verso”, mais uma pretensão do que real intenção de falar sobre literatura. Mas é ele o disponível e o primeiro lido aos sábados. Vamos lá ver o que temos de interessante por essas páginas.

Despreocupadamente, com todo o tempo do mundo, entre uma colherada e outra do cereal, vou passeando pelas páginas com notícias, lançamentos, resenhas e anúncios de editoras que começam a investir no marketing. Passo pelas páginas sem me prender, mas um perfil familiar me chama a atenção e volto os olhos para o anúncio com a foto da capa de um livro, lançamento de segunda edição, revista e atualizada e percebo que é a história de Nelson. Endireito-me na cadeira e leio, agora, com certa pressa, os dados do livro. É de 1987, escrito por uma jornalista, e já está a venda em todas as livrarias. O que não precisa de muito esforço, acontece. Tomo uma decisão. E um banho rápido. Pego minha mochila. Coloco meus óculos. Ganho a rua sorridente. Vou comprar o livro.

Atravesso cruzamentos barulhentos e chego, ligeiramente ofegante, à Dazibao, uma de minhas diversões prediletas. Entro e a diminuta livraria está cheia de gente que se encontra por lá para conversar aos sábados de manhã. Não presto atenção em ninguém. Quero o livro. Vou direto aos lançamentos que ficam ordenados em cima do balcão, na entrada. Olho, procuro, não vejo. De novo, começo do lado esquerdo e passo por todos os outros livros que não me interessam, oferecidos e entregues, deitados ali em cima. Onde está o livro? Não resisto e chamo a vendedora. Vocês têm o livro com a biografia do Nelson? Temos. Tá aí em cima, na pilha. Não, não tá não. Já procurei. E olho para onde ela apontou e nós duas nos deparamos com um vazio. Como não? Chegou hoje e eu não vendi nenhum! Fulano… Você vendeu o livro do Nelson? Não, eu não… Vocês têm outro exemplar? Não… Só recebemos um… (Como só receberam um? Não sabiam que eu viria aqui comprar hoje de manhã?) Deve estar com algum cliente dentro da loja.

Vou, então, procurar na mão de cada um, olho indiscretamente, com um semblante ameaçador, para ver quem pegou o meu livro. Passo por um casal absorto em suas escolhas, passo por dois homens que conversam animadamente sobre terceiros ausentes, passo por um cabeludo que há dias não toma banho e segura um livro de filosofia na mão. Não está com ninguém. Volto ao ponto de partida. Cadê meu livro? Eles olham as fichas de caixa, olham de novo o balcão, olham para os clientes. A vendedora se demora no cabeludo, chama-o pelo nome e pergunta: Você pegou o livro do Nelson? E ele, com uma voz do mês passado, responde: Tá comigo.

Choque. A cena pára. Lanço faíscas para o homem. Ele me devolve um olhar de triunfo. A vendedora me olha, dizendo que minha busca terminou ali, na mão do sem-banho. A minha cara de decepção é tão grande, que ela me lança um olhar de pena. Agora só semana que vem. Ainda olho em volta, me reorientando, onde estava mesmo e o que vim fazer? Vocês só receberam um exemplar mesmo? Tem certeza? Não tem nenhum no estoque? A vendedora nem se dá ao trabalho de responder, só balança a cabeça negativamente. Tá, (suspiro), obrigada. Eu volto outro dia. Meu sábado está perdido.

Uma semana depois, sábado friozinho, parece que o Rio ameaça entrar num outono besta, mesmo ritual matinal, volto à rua. Dessa vez, sem pressa, passo na farmácia, loja de discos, vídeo, olho vitrines, compro o filtro solar. O último lugar de meu passeio é a Dazibao. Cheia de amargura, lembro a frustração da semana passada, vou me acercando cuidadosamente da vitrine, olho os livros expostos, abro a porta e entro na loja. Novamente passo os olhos, agora sem muito cuidado, pelo balcão, e finjo para mim mesma que nada quero ali, não procuro nada. De repente, sou novamente atraída para o perfil familiar estampado na capa do livro e, de um salto, lanço mão do, enfim meu e só meu, exemplar. Minha vitória. Um sorriso de plena satisfação invade meu rosto e acarinho o livro, como se uma criança fosse. Abro com cuidado, folheio suas páginas e descubro um enxerto com fotografias escolhidas. Olho cada uma, leio as anotações, vejo as datas e chego, então, àquela que me faz rir alto, de puro prazer, uma foto conhecida, de tanto tempo. Compro, enfim o meu livro e alguns outros porque estou feliz. Irei para casa, caminhando contente, abraçada aos livros e começarei a ler a história que conheço um pedaço.