Carta à Melhor Amiga

Levanto-me num sábado de manhã, preguiçosamente, com gestos pequenos, pés arrastados e olho o tempo lá fora, que insiste em permanecer uma eterna primavera em época de inverno. Demoro um pouco à janela, vejo os carros passarem, buzinas perdidas de gente impaciente nesse dia tão bonito. Continuo com o meu acordar e vou preparar o cereal matinal, hábito iniciado anos antes, em San Diego e que perdura ainda hoje. Abro a porta da rua, onde o jornal O Globo já nos espera, com as notícias de sempre, mas também com o novo caderno “Prosa e Verso”, mais uma pretensão do que real intenção de falar sobre literatura. Mas é ele o disponível e o primeiro lido aos sábados. Vamos lá ver o que temos de interessante por essas páginas.

Despreocupadamente, com todo o tempo do mundo, entre uma colherada e outra do cereal, vou passeando pelas páginas com notícias, lançamentos, resenhas e anúncios de editoras que começam a investir no marketing. Passo pelas páginas sem me prender, mas um perfil familiar me chama a atenção e volto os olhos para o anúncio com a foto da capa de um livro, lançamento de segunda edição, revista e atualizada e percebo que é a história de Nelson. Endireito-me na cadeira e leio, agora, com certa pressa, os dados do livro. É de 1987, escrito por uma jornalista, e já está a venda em todas as livrarias. O que não precisa de muito esforço, acontece. Tomo uma decisão. E um banho rápido. Pego minha mochila. Coloco meus óculos. Ganho a rua sorridente. Vou comprar o livro.

Atravesso cruzamentos barulhentos e chego, ligeiramente ofegante, à Dazibao, uma de minhas diversões prediletas. Entro e a diminuta livraria está cheia de gente que se encontra por lá para conversar aos sábados de manhã. Não presto atenção em ninguém. Quero o livro. Vou direto aos lançamentos que ficam ordenados em cima do balcão, na entrada. Olho, procuro, não vejo. De novo, começo do lado esquerdo e passo por todos os outros livros que não me interessam, oferecidos e entregues, deitados ali em cima. Onde está o livro? Não resisto e chamo a vendedora. Vocês têm o livro com a biografia do Nelson? Temos. Tá aí em cima, na pilha. Não, não tá não. Já procurei. E olho para onde ela apontou e nós duas nos deparamos com um vazio. Como não? Chegou hoje e eu não vendi nenhum! Fulano… Você vendeu o livro do Nelson? Não, eu não… Vocês têm outro exemplar? Não… Só recebemos um… (Como só receberam um? Não sabiam que eu viria aqui comprar hoje de manhã?) Deve estar com algum cliente dentro da loja.

Vou, então, procurar na mão de cada um, olho indiscretamente, com um semblante ameaçador, para ver quem pegou o meu livro. Passo por um casal absorto em suas escolhas, passo por dois homens que conversam animadamente sobre terceiros ausentes, passo por um cabeludo que há dias não toma banho e segura um livro de filosofia na mão. Não está com ninguém. Volto ao ponto de partida. Cadê meu livro? Eles olham as fichas de caixa, olham de novo o balcão, olham para os clientes. A vendedora se demora no cabeludo, chama-o pelo nome e pergunta: Você pegou o livro do Nelson? E ele, com uma voz do mês passado, responde: Tá comigo.

Choque. A cena pára. Lanço faíscas para o homem. Ele me devolve um olhar de triunfo. A vendedora me olha, dizendo que minha busca terminou ali, na mão do sem-banho. A minha cara de decepção é tão grande, que ela me lança um olhar de pena. Agora só semana que vem. Ainda olho em volta, me reorientando, onde estava mesmo e o que vim fazer? Vocês só receberam um exemplar mesmo? Tem certeza? Não tem nenhum no estoque? A vendedora nem se dá ao trabalho de responder, só balança a cabeça negativamente. Tá, (suspiro), obrigada. Eu volto outro dia. Meu sábado está perdido.

Uma semana depois, sábado friozinho, parece que o Rio ameaça entrar num outono besta, mesmo ritual matinal, volto à rua. Dessa vez, sem pressa, passo na farmácia, loja de discos, vídeo, olho vitrines, compro o filtro solar. O último lugar de meu passeio é a Dazibao. Cheia de amargura, lembro a frustração da semana passada, vou me acercando cuidadosamente da vitrine, olho os livros expostos, abro a porta e entro na loja. Novamente passo os olhos, agora sem muito cuidado, pelo balcão, e finjo para mim mesma que nada quero ali, não procuro nada. De repente, sou novamente atraída para o perfil familiar estampado na capa do livro e, de um salto, lanço mão do, enfim meu e só meu, exemplar. Minha vitória. Um sorriso de plena satisfação invade meu rosto e acarinho o livro, como se uma criança fosse. Abro com cuidado, folheio suas páginas e descubro um enxerto com fotografias escolhidas. Olho cada uma, leio as anotações, vejo as datas e chego, então, àquela que me faz rir alto, de puro prazer, uma foto conhecida, de tanto tempo. Compro, enfim o meu livro e alguns outros porque estou feliz. Irei para casa, caminhando contente, abraçada aos livros e começarei a ler a história que conheço um pedaço.

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