Outra História de Amor

 “He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.”

Funeral Blues – W. H. Auden

Parte 1
“He was my North, my South, my East and West,”

Naquela tarde de setembro, distraidamente, você abriu a porta e o viu. Seus olhos eram puro mel e o sorriso tímido. Ele procurava seu amigo, mas você não ouviu mais nada, sua visão ficou turva, seus joelhos dobraram e você caiu pesadamente sobre a cadeira do quarto, onde buscou refúgio para sua dor. Doía corpo, doía mente, doía pensamento. Você não sabia o que pensava, não sabia o quê pensar. Recuperou forças, mas desceu a rua com noventa anos, devagar, cambaleante, olhando para baixo. Doía o estômago.

Entrou no ônibus à mesma hora e o motorista amigo a cumprimentou com o “bonjour” diário, sorridente. Você não reparou a gentileza, respondeu automático, procurou um assento vago e não ouviu as conversas em espanhol de todos os dias. Seus companheiros de viagem notaram algo diferente em você, mas nada comentaram, em respeito ao seu semblante fechado.

À noite foi jantar com seus amigos e ele estava junto, vestindo uma camisa azul marinho de manga comprida e quando seus olhares se cruzaram, você suspendeu a respiração. A conversa não foi registrada, somente o momento da despedida, quando você não conseguia mais entender coisa alguma.

Parte 2
“My working week and my Sunday rest”,
  
A afinidade entre vocês foi imediata. Faziam tudo juntos, desde o supermercado à lavanderia, ele a ajudava nos estudos, contava-lhe histórias engraçadas, mostrava cicatrizes de tubarão. Você adormecia embalada pelo walkman sintonizado em rádios locais e acordava com o sol brilhando dentro de si mesma. Ele pegou sua mão e beijou-lhe a palma, você respirou fundo, olhou para a sua mão e olhou em seus olhos. Dias depois, ele pegou sua mesma mão e pousou-a em seu peito para você sentir seu coração acelerado. A partir de então, tudo correu. Um amor que você desconhecia completamente tomou seu peito de assalto, tomou seu corpo de assalto, arrebatou seu ser. Tudo o que até ali você julgava como verdadeiro e para sempre, tomou outro rumo. Magoou pessoas importantes em sua vida, sofreu com isso, mas o sentimento era tamanho que você não se julgou capaz de viver um só instante sem ele.

Mudou seus planos, sua vida, sua casa, seus amigos e, finalmente, seu país. Foi atrás de uma história que só existe em contos de fadas. E viveu-a intensamente. Fadas podem não existir eternamente, mas elas existem por um certo período de tempo. E esse tempo foi seu e dele.

Parte 3
“My noon, my midnight, my talk, my song;”
  
Sua primeira anotação em seu diário após a mudança foi:
“momentos de sol iluminam minha vida neste país frio. Tudo tem sido infinitamente profundo e intenso, tudo me toca fundo, se eu imaginava como poderia ser bom, eu ainda não conseguia alcançar o quanto, na verdade, era sublime. Flutuo no tempo e no espaço.”

Você vivia uma vida que não lhe pertencia, mas era sua; experimentava sentimentos nunca vividos, às vezes sentia-se em meio a um filme clássico de amor, produzido pelo melhor estúdio disponível.

A vida teve altos e baixos, como praticamente todas e você pensou: ali com ele, teve muitos dos melhores momentos de sua vida, indescritíveis, inesquecíveis e impossíveis de serem vividos novamente. Mas, com certeza, viveu alguns dos piores jamais imaginados. Algumas músicas do período, até hoje, você evita ouvir, tamanha dor provocada.

Depois de tão alto voo, tão profunda queda. Após tanto amor, quanta dor.

Parte4
“I thought that love would last for ever: I was wrong.”
 
Naquela manhã de sol, você atendeu ao telefone, fingiu que não ouviu a pessoa do outro lado, desligou e, em seguida, deixou-o fora do gancho. Tudo estava pronto para a partida, você se levantou pesadamente do sofá, caminhou até o carro, já carregado com as malas, deu a partida e esperou. Ele desceu as escadas, e vocês foram em silêncio até o aeroporto. Ele saiu do carro, pegou suas malas e veio lhe dar o abraço final. Você estava firme, com a cabeça erguida e conseguia esboçar um sorriso. Triste, mas era um indício de sorriso. Ele caminhou para a entrada e você ficou em pé, ao lado do carro, com a porta aberta, acompanhando-o com o olhar. Viu quando ele desapareceu no meio da multidão, então entrou no carro, sentou-se ao volante, abaixou a cabeça e chorou.

MPV – setembro 2008

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