As conversas de meu pai nos restaurantes da vida

Meu pai adorava o programa de ir a um restaurante ou bar, e ficar horas conversando, bebendo um vinho ou chope, comendo petiscos e uma boa comida. Se encontrava gente conhecida virava uma festa! Era amigo dos garçons, foi a batizados e casamentos das equipes, tratava todo mundo como irmão.

Muito guloso, sempre gostou de conhecer novos pratos e nunca teve pudor em perguntar ao vizinho de mesa, ou ao maitre sofisticado. Certa vez, em Portugal, papai se levantou e não voltou para a nossa mesa. Procuramos e descobrimos papai sentado a uma mesa vizinha, com um casal completamente desconhecido, provando o prato que eles haviam pedido: eram caracóis – como só se servem em Portugal – carninha tenra, em um molho maravilhoso, puxada com um alfinete.

O primeiro restaurante que fui com meus pais foi o Bar Lagoa. Eu era criança e eles eram bem conhecidos por lá, desde os tempos de namorados. Para nós, garçom mal-humorado sempre foi lenda urbana… Adorávamos camarão à milanesa com arroz à grega. E a mostarda especial que não era servida em todas as mesas. Depois mudamos para o bife à milanesa, com salada de batatas. E o chope, claro. Não, claro era o meu, depois que cresci, papai sempre gostou do chope escuro. E de conversar horas a fio, entre saboreados goles.

Há poucos anos, papai, mamãe, meu irmão e eu fomos almoçar no Bar Lagoa. Chegamos cedo para os padrões locais, pelas 13 horas. Ficamos naquela conversa mole, comendo salsichão partidinho com mostarda, patê e torradinhas, bebendo chope, enquanto o ambiente ia enchendo.

Estávamos sentados na parte de dentro, quando mamãe anunciou a entrada de um famoso jornalista que passou por nós e foi até o caixa pegar encomendas. Ficou lá atrás durante alguns minutos, enquanto nós continuamos a conversar distraidamente. Pouco depois, o jornalista começou a caminhar de volta à saída no mesmo passo apressado que havia entrado, mas foi barrado pela mão de papai que o segurou e com aquele jeito bonachão dele, pediu: “continua mandando ver, hein?” Ao que o interceptado abriu largo sorriso e respondeu “pode deixar, vou continuar!” despediu-se e foi embora. Meu irmão e eu, roxos de vergonha, quase paramos embaixo da mesa.

Em 2008, comemoramos meu aniversário lá, fazia tempo que não nos reuníamos naquelas mesas. Foi um grupo grande, amigos e minha prima D estava no Rio com a filhota. Rimos como se o mundo fosse terminar naquela noite. Àquela altura, já sabíamos e aguardávamos desejosos o Encontrão que se realizaria em Porto Alegre dois meses depois. A foto da família reunida naquele ano é maravilhosa.

Para este ano, já estava tudo marcado, ele combinando a reunião familiar com gosto e com ansiedade. Pela alegria, não imaginava que não estaria presente neste julho de lindos dias e noites frias. Fico pensando nos detalhes que vi ou soube e tento imaginar a sua reação. Os risos, as novidades, as músicas, as conversas da vida toda. Ele teria gostado. Muito.

Preciso voltar ao Bar Lagoa e beber um chope por ele.

80 dias

Em alguns momentos, parece que foi ontem, nós assistindo Bravura Indômita, último filme, último western, último programa juntos. Em outros momentos, parece que ele viajou há meses, mas chegará a qualquer momento. A saudade já se sentou em meu coração, mas a dor passeia pelo corpo, cada madrugada escolhe um órgão para alfinetar.

Os planos de vida são refeitos, as brigas de rua (com empresas e gente sem vergonha e sem coração) são resolvidas na insistência ou no grito (na Justiça), as datas significativas são atordoadas com família e amigos que nos dizem sim, os hábitos diários são modificados e todos temos que nos adaptar a uma nova fase que nos foi imposta sabe-se lá por quem que levou meu pai embora antes no nosso tempo.

Saldo do período: 80 madrugadas interrompidas, 240 horas de lágrimas, 1.200 suspiros, 4 dias de dor no pescoço, 2 dias de dor na perna, 40 dias de dor na coluna, 15 problemas resolvidos, 3 problemas encaminhados, 2 por finalizar e 1 briga na justiça, 11 datas familiares já vividas, 10 ainda por vir, 3 quilos de peso a mais, 10 unhas roídas, 1 cabelo cortado, 80 dias de hoje conseguirei, 130 telefonemas para o Sul, 2 consultas médicas, muitas outras por marcar. 27 notícias de jornal à espera de comentários e conversas interessantes que nunca teremos, 80 dias de vamos em frente, seguidos de 80 noites de ainda não acredito.

Matar os leões do dia

Tentei escrever amenidades. Juro que tentei. Mas os leões da savana carioca não deixam. Tudo começou com a busca de documentos necessários para dar início ou fim às atividades de papai. Desde o óbvio ao mais estranho. Vou contar e dar nomes aos bois:  Nos primeiros dez dias, no meio da dor e das lágrimas, meu irmão percorreu cartórios (só em um dia foram nove e ele chegou com a calça jeans furada de tanto roçar uma perna na outra, andando) para tirar as mais estapafúrdias certidões, retrato da burocracia deste grande país, onde os bons pagam pelos maus, onde o ex-presidente se gaba de não saber ler e passa a ganhar milhões por uma hora de palestra, onde as chuvas ceifam vidas e onde as obras prometidas não começam ou param assim que os jornalistas encontram outro foco de notícias.

Desde fevereiro de 2010 (quinze meses!) a empresa de telefonia, sim uma das empresas campeãs de reclamações, cobra a internet cancelada em janeiro do ano passado na conta de telefone de papai. A última conta veio cobrando 103 reais de um serviço desligado há quinze meses. Tenho 9 protocolos de contestação e ninguém resolve nada;

A empresa de consertos de eletrodomésticos, levou quase dois meses para consertar a lava-louças e conseguimos que viessem esta semana após muita chateação e ameaças de processos legais. A máquina foi consertada e vamos ver se está mesmo funcionando;

Cartões e contas de bancos – aqui acho melhor não mencionar as bandeiras e marcas – peregrinação diária: jurídico, cancelamento, protocolos que se acumulam e espera;

A atendente da empresa de administração do plano de saúde pessoa jurídica à qual meu pai era ligado, sugeriu que eu fingisse que papai continuava vivo para não perder benefícios (que não perdemos na migração), queria que pagássemos uma fatura ainda por vencer porque a comunicação do óbito não poderia ultrapassar um mês (foi feita com 32 dias) e enrolou mais um pouco até receber meus gritos de desespero e ameaças de processo;

O seguro do carro de papai não pode mudar de titularidade por enquanto, mas eu tive que mudar o tal do condutor principal, pois caso acontecesse algo, a seguradora poderia não pagar. Mas isso eu descobri sozinha, olhando para o documento do carro. A nossa corretora de seguros conseguiu identificar quem era o responsável por aquele seguro, entrei em contato, mandei documentos e modificamos o perfil do condutor. Saímos de um homem com quase 74 anos para uma mulher de 48 e tivemos que pagar mais 140 reais. Como assim? Um homem de 74 anos dirigindo é mais seguro do que uma mulher de 48, com carteira há 30 anos? Renato Russo, por favor, comece a entoar “que país é esse?”…

O clube de servidores públicos, tem a maior burocracia, juntamente com a administradora de imóveis. Na administradora, os atendentes são educados, já no clube são casca mesmo. Falo com os dois e as providências (por parte deles) são sempre adiadas, porque os processos estão em algum lugar entre o céu e a terra e ainda não chegaram aonde deveriam chegar.

Assinatura do jornal. Eles erraram. Esqueceram de cobrar um mês. Queriam que eu pagasse dobrado no mês seguinte. Foram em torno de 6 telefonemas até que falei para mamãe: quando o jornal parar de chegar, passaremos a ler na internet. O setor de cobrança resolveu, mas esqueceu de comunicar ao atendimento. Isso porque é uma empresa de comunicação…

A TV a cabo mudou a titularidade, foi eficiente e rápida, marcou de vir buscar os equipamentos que estavam em minha casa e eles estão guardados até hoje em uma sacola na parte de cima do armário.

Falando em casa onde morava, melhor deixar para lá… Isso não merece nem minha lembrança. Quem, mesmo?

De setor para setor, dentro das empresas, as informações se modificam, algumas empresas avisam que a ligação será gravada, mas não enviam a gravação para você quando solicitada e cada dia que acordo, penso: com quem mesmo terei que reclamar hoje? Os leões estão vivos, rondam, rugem e me cutucam todas as madrugadas, pontualmente às 3h36min. Algumas vezes, viro um pouco e durmo. Outras vezes, permaneço acordada imaginando como tudo poderia ser diferente na vida e no país da dificuldade.

“Olá, boa tarde! Como posso dificultar seu dia hoje?”

Feliz aniversário

Esta noite o sono foi intermitente, até que chegou o momento da desistência. O corpo reclamará em algumas horas, mas não houve o que fazer com a cabeça desperta. E então? Como será o dia de hoje? 11 de abril, lembra? Muitos anos atrás, consegui convencê-lo a comprar uma girafa de plástico vendida pelos ambulantes na praia, com a desculpa de ser um presente para meu irmão recém-nascido, com a cara amarrotada no colo de mamãe na maternidade. Ele até que era bonitinho, meio chorão, com perninhas inquietas, um ser divertido, quase um de meus bonecos, a não ser na hora de trocar aquelas fraldas – ainda de pano. Você o iniciou no gosto pelos esportes e não pôde fazer nada quando o menino de oito, nove anos assistiu a ascensão do Flamengo como melhor time e resolveu que não seria América como o pai. Todas as noites, você chegava do trabalho, girava a chave na porta e chamava: “Cadê meus filhos? Cadê minha mulher?” e apostávamos corrida para ver quem chegava primeiro para o abraçar. Enquanto o jantar era preparado, você e meu irmão jogavam gol a gol com o dado de espuma no corredor e ele vencia a maioria das partidas. Era até engraçado ver seus frangos no gol minúsculo. Jantávamos os quatro à mesa e conversávamos sobre o dia vivido. Pequenas lembranças diárias de nossa vida em família. Os dias 11 de abril eram comemorados com bolos e festas simples, em casa, com amigos e família. Os carrinhos matchbox, bolas e camisetas dos times de futebol estavam entre os presentes preferidos e mais frequentes. Isso não o impedia de assaltar minha caixa de sapatinhos de bonecas e atirá-los pela janela em um jardim espinhoso, por pura arte de meninote, implicando com a irmã. E quando ele fez quinze anos, lembra? Fizemos uma festa surpresa, ele ganhou um relógio de presente e você inventou que iríamos jantar fora, em um restaurante no Leblon, apesar de morarmos na Barra. Família no carro, quando chegamos em frente ao restaurante, você perguntou onde estava a sua carteira. Mamãe disse que estava em casa, teríamos que voltar. Tudo combinado com a família e os amigos, entramos na casa apagada e ele viu um vulto, achou que era ladrão, tirou o relógio novo do pulso e colocou no bolso, com medo da perda. Grande surpresa quando viu todos que o esperavam. Foram muitos dias 11 de abril em anos passados que estivemos juntos, jantamos juntos, rimos juntos, fizemos fila para os parabéns matinais, com a cara amassada e o cabelo desfeito. Acho que você era quem mais gostava dessa fila de parabéns. Este ano, Búbi fez uma surpresa para ele, com nosso apoio logístico e desculpas. As crianças insistindo na saída e quando eles entraram na reunião, foi o mesmo menino surpreso de anos atrás que sorriu sem jeito. Hoje, mais um 11 de abril, jantaremos juntos em casa, primeira vez sem você em mais de quarenta anos, tentaremos não chorar, faremos um ambiente agradável, faremos tudo para ser um feliz aniversário para seu menino.

O samba de uma só nota

Virou o mês, abril chegou. Em restrospectiva, março praticamente não existiu. Sim, mamãe fez aniversário enquanto ainda estávamos todos embriagados de álcool e emoção triste. Sim, entreguei a monografia empurrada por Sandra, Lis, Mic, Bal e ajudada por Lu Claro no final. Sim, fomos ver a expo do Escher, capitaneados por Búbi. Sim, nos entupimos de bolinhos de carne do Real chopp graças a meu irmão. Sim, Pedro e Gabi conseguiram arrancar sorrisos esquecidos em nossas almas. Sim, Shee nos obrigou diariamente a sair de casa, qualquer que fosse o tempo. Sim, Verinha, Bell, Rico, Tite, Mary, Luíza, Lolô, Dídi, Renata telefonaram. Bal me tirou de casa no timing perfeito para tomar sorvete. Cete bateu o ponto, ou melhor, todos os pontos. Álvaro contou causos. Marcio e Cris, Leda e Malcher continuam ajudando de todas as maneiras. Regina, Soninha, Carminha, Malu dão força para mamãe.

Tenho me deparado com pessoas e empresas usurpadoras. (No Houaiss: transitivo direto e bitransitivo – apossar-se de ou tomar (algo) pela força ou sem direito) Sim, elas existem. Sim, são quem menos se espera. Sim, elas dormem à noite. Conseguem manter a frieza diante da dor alheia e se apropriam do fiapo de força que nos resta. Sim, quando já estamos nos esquecendo, elas reaparecem. Sim, estou pensando em começar a mandar os palavrões por escrito. Ouço você: “calma, filhinha.”

Mesmo assim, a sala já está praticamente arrumada. Os livros estão na estante, as roupas guardadas, quadros pendurados, cafofo cheio de prateleiras, armários abarrotados de mudança. Mais de vinte caixas com roupas, louças, utensílios e livros já partiram para melhores destinos.

É no centro da cidade que tudo é resolvido e ele se tornou minha peregrinação exaustiva. Tive que ir ao seu escritório e sua mesa estava vazia. Em seu elevador, ouvi a conversa de uma moça com seu pai, combinação de encontro na fazenda. Quase escorreguei para o chão. Nos lugares que você frequentava por outros motivos e aos quais sou obrigada a ir agora, me falam de você com saudade e admiração. Minha peregrinação tem sido uma prova de força. Quando chego em casa, tomo um banho e desabo, em frente à sua fotografia que nos observa e nos guarda. Ouço novamente: “calma, filhinha.” Encontrei cartas e cartões seus para nós três. Li suas cartas enviadas para Portugal. Em todas você menciona vinhos, empadinhas, pastéis e menus preparados por mamãe. Poderíamos tranformá-las em seção de revista de gastronomia.

Ainda falta coisa. Falta separar os exames de saúde inúteis agora e arrumar a mesa de jantar, transformada em imenso escritório para separação de documentos. Ainda falta brigar com algumas empresas que emperram nossa vida impaciente. Ainda falta descobrir que outros documentos a burocracia autenticada nos obrigará providenciar. Ainda falta descobrir como será a vida sem a sua presença.

Carta ao pai

Oi, pai,

Faz quase um mês que não nos vemos e as saudades só aumentam. Hoje elas estão maiores e gostaria de ouvir sua voz. Tem sido um mês movimentado, com tantas providências a tomar, casa para arrumar, livros para dar. Separamos muitos dos seus, mas tenho a certeza que você não vai ficar chateado, por que vão fazer bem para boas pessoas. Pessoas interessadas em leitura, como você.

Nos raros momentos em que fico só, como agora, o impulso é passar a mão no telefone e discar o seu número, ramal 16. Liguei para a caixa postal do seu celular, mas você não tem mensagem personalizada, não consegui ouvir sua voz.

No aniversário de mamãe, fizemos como você indicou no bilhete que encontramos. A pulseira dela ficou bem bonita e a família inteira participou. Acho que ela gostou, mas preferiria que fosse você a colocar em seu pulso. Só usou nos dois primeiros dias e depois guardou.

Sandra conseguiu que eu terminasse a monografia, ligou muitos dias, falamos pelo skype e finalmente coloquei um ponto final. Ficou bem longe do que eu gostaria que você lesse, mas foi o que deu para fazer. Ela é dedicada a você. Muita gente me incentivou, duas professoras e a Mic me ajudaram na formatação.

Cete arranjou toda a minha mudança, desde a embalagem à entrega aqui em casa. Leandro e Búbi passaram o carnaval aqui comigo e mamãe e trouxeram bolinho de carne e pastel de camarão do Real chopp. Foi um banquete. Bebi seu vinho naquelas noites chuvosas de Momo. Achei chato não ter você para dividir a garrafa e não teve ninguém para tentar roubar meu copo ainda cheio. Não, este ano não fui para os blocos. Não fui nem olhar. Muita chuva e saudade. Além do mais, se eu tivesse ido, com você longe, quem iria preparar os sanduíches para a filha foliã? Assisti a filmes todas as noites. De alguns você teria gostado, mas se estivéssemos juntos, eu só teria assistido aos que você escolhesse, que nem o último que vimos juntos, aquele western, lembra? Passei a gostar mais dele só por causa da sua alegria com o filme.

Muitas pessoas ligam diariamente para saber como estamos, mas acho que elas gostariam o mesmo que nós: saber como você está. Rezamos muito para que sua viagem seja tranquila, mas a falta de notícias é que faz doer.

Nesses dias de muita arrumação, temos encontrado muitas lembranças e ontem achei um cartão postal que você escreveu para o Leandro, de Madri, e os bilhetinhos que eu deixava em sua sala, quando trabalhávamos próximos um do outro. Cheguei a rir. Lembrei das suas reações. Senti mais saudade. Nas fotografias ainda não mexi. Como elas já estavam arrumadas nos álbuns e nas caixas, deixei-as lá por enquanto. Denise revelou umas fotos bem bonitas e deu para mamãe. Tem uma sua, só de rosto em que você está ótimo, com aquele semblante tranquilo que você sempre teve.

Baya, tô com saudade. Acho que ela vai aumentar.

Beijo, te amo.

Sua filha,