A Serra e a Cidade

Chove na serra e o meu coração sangra. Numa inversão histórica de Jacinto, deixando Paris, em direção a Tormes, começo a viagem de retorno, saio da serra e volto à cidade grande. As caixas se misturam a malas e sacolas, livros por empacotar, roupas para dar. Olho demoradamente para um casaco grosso, comprido, comprado para graus de menos. Voltarei a usá-lo?Em minha Tormes, o sol bate no cedro, plantado no centro do gramado, os pinheiros balançam graciosamente à brisa, jacus e toda a sorte de passarinhos vêm comer jabuticabas, gambás perambulam pelo terreno à noite, o gato gordo do vizinho desafia a ira dos cães, mas foge rápido, o gás é entregue em confiança, tudo parece ser, mas não é mais.

Do lado de fora da casa, a chuva fina do verão com temperatura amena bate suavemente em meu rosto, saio para uma volta e os cachorros vêm atrás de mim, sem que eu precise chamá-los. Um dia achei que seria feliz aqui para o resto de minha vida. Mas, para o resto ainda falta muito – acho eu, e a vida que segue em frente não será aqui.

Vejo as montanhas de minha Tormes por trás das brumas da chuva e sei que esse ciclo terminou. A casa está quase vazia, o caminhão na porta, o carro cheio e sei que minha Tormes, nunca deixará de ser minha, apesar de já não ser.

A mudança que era para ser suave, foi brusca; o projeto que era para ser amigo, foi bruto; a mão que era para ajudar, atrapalhou; o domingo que era para ser de renascimento, foi de morte e tudo o que veio depois, não existiu.

A serra dormirá eternamente em meus sonhos, nas lembranças, na esperança do sol da cidade grande que, agora, iluminará meus dias.

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