Um amor descoberto

Revendo o filme de 1987, “Nunca te vi, sempre te amei”, no original, “84 Charing Cross Road”, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins, dei-me conta de um amor que não sabia; o título poderia ser um pouquinho diferente: “Sempre te vi, te amei e não reparei”. Como é que podemos amar alguém e não reparar? Justamente um sentimento tão forte, que modifica vidas, que transforma relacionamentos, que faz com que cometamos loucuras?

Então, conto a estória de Elizabeth.

Liz era gerente de uma gráfica, casada, trabalhava muito e gostava do que fazia. Almoçava todos os dias, sozinha, na mesma mesa, do mesmo restaurante. Um dia, conheceu Gerard, que também almoçava só, no mesmo restaurante, todos os dias. Gerard sentou-se em uma mesa próxima e puxou conversa. Variada, lacônica, com grandes espaços entre assuntos. Falaram sobre o tempo, escândalos políticos, sobre a cidade, cinema, livros. Não falaram de assuntos pessoais, e assim, passaram a almoçar juntos, em mesas separadas por quase um mês.

No trigésimo dia, Gerard chegou depois de Liz ao restaurante e, ao invés de sentar em sua mesa costumeira, perguntou a ela se poderiam almoçar juntos. Ele reparou em sua aliança, ela em seus olhos. Como ele era bonito! Durante um mês, almoçaram juntos todos os dias da semana, sem falhar um. Começaram a trocar mais informações pessoais, gostos, músicas, mas falavam pouco das próprias famílias. Ela era casada, ele não. Ela tinha um marido, ele namoradas.

No vigésimo sétimo dia do segundo mês, Liz não apareceu para almoçar e Gerard ficou sozinho na mesa dos dois. Três dias se passaram e ele não tinha notícias, nem sabia como encontrá-la.

No primeiro dia da semana seguinte, mesma hora de sempre, ele chegou ao restaurante e ela já estava lá. Gerard sentou-se e não fez perguntas. Almoçaram um pouco envergonhados, conversaram assuntos variados, falaram de seus autores prediletos. No fim daquele almoço, ele encostou de leve em sua mão e perguntou se eles poderiam trocar e-mail, celulares, para que pudessem se comunicar quando não pudessem almoçar juntos.

Liz aquiesceu e, assim, no terceiro dia do terceiro mês, eles passaram a uma nova fase do relacionamento. A partir daquele dia, todas as manhãs, ao chegar à sua sala, Liz ligava o computador e lá estava uma mensagem de bom dia, já enviada por Gerard. Na hora do almoço, eles se encontravam e riam. Ele a fazia rir muito e muito e muito mesmo. No fim do dia, Liz enviava uma mensagem de boa noite, um até amanhã. As mensagens eram sempre muito espirituosas e ela guardava tudo em uma pasta separada, para reler quando quisesse sorrir.

Ele a fazia sorrir.

Muito tempo após o primeiro almoço em mesas separadas, muitos meses depois da primeira troca de mensagens, após muitos telefonemas para falar de nada, Liz chegou apreensiva ao almoço e sentou-se à mesa onde ele já estava. Era a mesa deles, ninguém mais usava aquela mesa, reservada diariamente para os dois. E contou a ele que a gráfica estava transferindo-a para outro estado, ela viajaria em pouco tempo, os almoços deixariam de existir.

Gerard tentou fazer piada, animá-la, seria uma experiência ótima, uma promoção, ela mesma estava entusiasmada com a idéia do novo desafio, mas alguma coisa se contraía dentro dela e, pouco experiente, não sabia definir o que era.

No quinto dia do décimo sexto mês, Liz partiu rumo ao novo emprego e Gerard voltou a almoçar sozinho. Longe fisicamente um do outro, ainda trocaram mensagens eletrônicas, com um espaçamento cada vez maior entre a notícia de um e a resposta do outro, até que, um dia, cessaram. Perderam de vez o contato. Nunca mais se viram, se falaram, se tocaram, mesmo que sutilmente, nunca mais almoçaram juntos, nunca mais souberam um do outro.

Anos se passaram e, um dia, Liz arrumando arquivos de computador, encontrou sua correspondência trocada. Leu cada uma delas e, à medida que avançava na leitura, dava-se conta do quanto ela havia estado apaixonada, sem saber.

E sorriu.

MPV – janeiro 2008

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