Crônica de uma crise anunciada

Sol lindo na sexta-feira pela manhã. Bebo meu café, enquanto folheio as páginas do jornal e acabo de ler o lead sobre um médico que foi assassinado, numa tentativa de assalto. Mais um desconhecido na luta urbana que assisto há mais de vinte anos. Lembro que na adolescência, costumava sair do colégio no alto da Gávea e passar por dentro da Rocinha para voltar para casa no… Jardim Botânico! Mas o caminho era tranquilo e a Avenida Niemeyer era tão bonita que fazia valer aquele pequenino desvio no trajeto.

Penso nisso, quando o telefone toca:

– Senhora Monica? (é uma voz feminina, que chama de um celular, português fraco)

– Sim…

– Senhora Monica… (e começa a revelar cada um dos sobrenomes, imensa herança portuguesa)

-Sim…

– Aqui é do banco X e eu precisava confirmar alguns dados da senhora…

Não a deixo prosseguir:

– Não dou informações por telefone.

– Então não vou poder passar para a senhora as informações que tenho…

Descontrolei-me completamente. É o terceiro telefonema da semana com as mesmas características, sendo que os dois primeiros seriam golpe, porque me dei ao trabalho de entrar em contato com as empresas, que me informaram nada ter a me informar ou oferecer.

Perguntei se a mulher vivia na estratosfera, se tinha conhecimento da sociedade em que vivemos e mandei que ela telefonasse do presídio para a própria mãe. Muito gentil minha resposta. Gentil e cansada. Depois de falar algumas coisas como se estivesse no Maracanã, em dia de time perdendo o jogo, bati o telefone na cara da mulher.

Tremia, vermelha de raiva, e liguei para o meu irmão que ficou espantado com o meu nervosismo. Como se fosse algo para eu já estar acostumada. Um telefoneminha só, não era algo para me alterar daquela maneira.

Reveja o quadro: eu tomava café, lia jornal, respirava tranquila, manhã linda de sol, fulana telefona e perturba logo o início do meu dia. A partir dali, eu teria que achar o telefone do banco, enfrentar atendedores, explicar o telefonema a cada um deles, tal como já fizera nas outras duas vezes ao longo da semana (um teria sido da TV de assinatura, outro, da operadora de celular, ambos falsos) para ouvir, novamente, que não fora o banco. Mais uma tentativa de golpe. Cansei.

Cansei de caminhar na rua com a bolsa agarrada embaixo do braço, como se fizesse alguma diferença apertá-la contra meu corpo. Cansei de ter que estar atenta nos sinais de trânsito. Cansei de olhar por sobre o ombro, enxergando sombras que existem, mas não estão lá. Cansei de ler a presidente recém eleita dizer que a educação no país vai bem, obrigada. Cansei de assistir ao governador dar pulinhos de emoção na escolha da cidade para as Olimpíadas, colocar meia dúzia de policiais no alto dos morros e ler todos os dias sobre os crimes bárbaros que os jornais se dão ao trabalho de publicar. Ontem rolou uma cabeça sem corpo em Madureira… Sério: uma cabeça sem corpo. Cansei de ler colunistas e jornalistas reclamando e relatando problemas de segurança pública. Se eles não conseguem atenção, quem conseguirá? Cansei! Cansei de ouvir os cidadãos aviltados, assaltados, ameaçados, roubados dizerem que vão se mudar do Rio porque não se sentem seguros aqui. Detalhe: eu tenho identificador de chamadas e o telefonema que recebi era ddd 11. Cansei. Estou exausta. O que faço agora?

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2 pensamentos sobre “Crônica de uma crise anunciada

  1. Continua escrevendo. Sua abordagem além de original foi engraçada sobre um enorme monstro que nos vigia incessantemente: a insegurança. Ah, achei o seu blog, graças ao facebook do Leandro Pinto.
    Boa sorte.

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