Guerra do Rio

Já vivi bons anos e vivenciei muita coisa no Rio de Janeiro, meu porto seguro, de onde saí e para aonde voltei algumas vezes. Tive momentos felizes em outros lugares, mas o Rio é minha cidade, é o meu lugar, é a minha casa. Tudo o que desejo é que possamos circular sem olhar por sobre os ombros.

Quando nasci, a moeda brasileira era o Cruzeiro; quatro anos depois, se tranformou em Cruzeiro Novo; três anos se passaram e a moeda voltou a se chamar Cruzeiro; Dezesseis anos de economia desgovernada, em um dos planos mirabolantes da década de 80, a moeda passou a se chamar Cruzado; três anos depois, mais um plano, mais uma troca de nomes: a moeda virou Cruzado Novo, durou apenas um ano e voltou a se chamar Cruzeiro. Calma… Já escrevo o que quero mostrar…

Em menos de cinco anos, tivemos três planos econômicos absolutamente delirantes que cortavam os zeros da moeda, o crédito disponível e os investimentos públicos, além de jogar os juros para a estratosfera. O ministro do planejamento apregoava que a única forma de combater a inflação e equilibrar a balança comercial era com recessão econômica (em que os pobres ficavam mais pobres, os ricos mais ricos e a classe média desaparecia como os dinossauros). Nos planos Bresser, Cruzado e Collor, entre 1986 e 1989, parte da população se vestiu de fiscal e denunciava supermercados que aumentavam seus preços três vezes ao dia. A maquininha de etiquetar virou arma e muitos cidadãos tinham palpitações perigosas quando encontravam uma delas na mão de algum – ainda sortudo – empregado. Entre 1986 e 1989, a inflação anual pulou de 72,53% (o que já é absurdo) para inacreditáveis 1.972,91%. Chegou, então, o melhor de tudo: No governo Collor, com a ministra Zélia relatando na TV qual seria o plano econômico da vez, com uma voz de quem contava historinha para criança dormir, o país assistiu, atônito, ao vivo e em cores, ao aviso que, após o feriado bancário de três dias, todas as poupanças estariam confiscadas por tempo indeterminado (só começaram a devolver, em parcelas, dezoito meses depois) e todos amanheceriam com um saldo de cinquenta mil cruzados novos em suas contas. (é um cálculo complicado de se fazer, mas daria algo como sete mil reais hoje).

Bem, quem viveu aquele tempo, sabe o que sofreu, quem não viveu, já teve tempo de estudar em História Alucinada do Brasil. O presidente foi afastado, a ministra fugiu para os Estados Unidos e desapareceu nas brumas, Itamar Franco assumiu e chamou Fernando Henrique Cardoso para ministro da economia, que montou uma equipe econômica e pela primeira vez em mais de vinte anos havia algo chamado VONTADE POLÍTICA para que a economia brasileira saísse do buraco. Foi criado o Plano Real e a moeda brasileira mudou para Real. O resto todos sabem.

Ai… Que introdução longa!

Pois bem, estamos agora vivendo uma situação semelhante em relação à segurança pública. No Rio de Janeiro, mais exposto, pois que é vitrine brasileira, temos as ações dos últimos dias, com as forças de segurança se unindo pela primeira vez, também, em mais de vinte anos, para dar início (vou repetir: início, início, início – o problema só começou a ser combatido) a um plano de transformar o estado (não só a cidade – esse texto está ficando com muitos parêntesis) em um lugar seguro para seus cidadãos, livre do crime organizado, das milícias, dos crimes em geral. Não é exatamente otimismo da minha parte, nem sei quanto tempo será preciso para que, se realmente houver vontade política, o estado crie o ponto de tolerância zero para todos os delitos e crimes.

Muitos reclamaram da midiatização das ações dos últimos dias e das autoridades declarando seus planos (o que poderia fazer parte do plano), mas esquecemos que igualmente assistimos aos mais de mil carros em chamas em Paris no início deste ano, ao terremoto do Haiti, aos atentados de 11 de setembro (que continuam rendendo notícias, cenas e documentários), às tsunamis cada vez mais frequentes na Ásia, à nova etapa de briga das Koreias e por aí vai. É papel da mídia noticiar o que considera importante para a sociedade. É direito do cidadão assistir ou não, filtrar ou não, mudar de canal, virar a página, não comprar a revista.

Voltando à questão da segurança pública: é uma questão nacional, não só do Rio de Janeiro. As armas e drogas não nasceram por multiplicação genética nos morros do Rio. Elas chegaram de caminhão, ônibus, carro, pelas estradas federais, atravessaram fronteiras, foram desviadas de quartéis, chegaram de balsas em praias desertas ou portos coniventes. São vinte e três mil quilômetros de fronteiras, se somarmos as marítimas e as terrestres. Em quinze mil quilômetros de fronteira terrestre, temos pouco mais de vinte (vinte, vinte, vinte!) postos de fiscalização, aí incluídos os da vigilância sanitária… A América do Sul é composta de doze países, sendo que o Brasil só não faz fronteira com Chile e Equador. E são só vinte postos de fiscalização…

Além disso, são necessárias ações em diversas frentes, começando do topo, que deveria dar o exemplo: impedimento dos políticos corruptos e coniventes, limpeza nas forças de segurança; modificações nos Códigos Penal e Processual Penal, com aplicação de penas mais fortes e limitação das progressões de penas e benefícios (mais um parêntesis: o preso está preso porque cometeu crime – o cerceamento de sua liberdade é apenas um dos castigos que a sociedade lhe impõe); construção de presídios de segurança máxima, que sejam de segurança máxima mesmo, sem visitas íntimas, sem contato pessoal; fiscalização das estradas; presença constante do poder do estado em todas as áreas; início de discussão política sobre liberalização de determinadas drogas, com controle e impostos pagos; tolerância zero para todos os delitos e crimes, desde pichar paredes, fazer xixi na rua, dormir na rua, furtar carteiras, tirar meleca, sei lá, a lista é imensa… O uso da velha máxima “follow the money” – descobrir onde está o dinheiro ilícito, bloqueio de bens e contas do criminoso, parentes e pessoas com diploma de advogado (me recuso a nomeá-los pelo título da profissão); e vamos completando a lista de afazeres , que não é pequena. E investimento em educação. Educação. EDUCAÇÃO.

Utópica? Bom, se voltarmos ao exemplo da economia, nos anos 1980, eu jurava que não iria ver raiar o dia em que o Brasil tivesse uma moeda estável, uma economia sólida que aguentasse as últimas crises mundiais e que na segunda-feira, os preços no supermercado amanhecessem os mesmos da sexta-feira…

O Rio pode estar iniciando o plano nacional para segurança pública que o Brasil precisa e merece, se os poderosos de agora realmente tiverem vontade política e a sociedade não virar essa página, de olho no próximo campeão brasileiro de futebol.

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9 pensamentos sobre “Guerra do Rio

  1. Filhinha Querida
    O prazer de ler o seu Cidade Escrita com a interessante análise economica, foi um bom e agradáqvel fechamento de um dia cansativo. Adorei! Com relação aos problemas da última semana da nossa cidade, tratados por você sem dramas ou piégas, trouxe-me orgulho de senti-la atenta e preocupda com a nossa cidade martavilhosa, que voltará a ser aqssim chamada não só pelaqs belezas naturais mas, também, pelo seu povo. Parabens. Belo artigo.
    Beijos do Papai

  2. Monica, querida,
    Eu entendo muito bem o que você sente. Aliás, meu pai decidiu sair do Rio de Janeiro, meu lar, minha cidade, meu mundo, e vir para São Paulo quando o Brizola assumiu e começou a fazer todo aquele absurgdo na Cidade Maravilhosa.

    Caramba, quanto tempo se passou e só agora um governador consegue toma essa atitude.

    Vamos acreditar, devolver a Cidadania, o amor a esse lugar.

  3. Oi, Monica. Ficou muito boa e completa sua análise. As acoes têm que vir do topo, sim. As classes media e alta sao muito coniventes com muita coisa. Subornam a policia, fecham cruzamentos, passam pelo acostamento, furam fila. Isto faz parte de um todo que deixou o pais como está.

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